<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913</id><updated>2011-07-26T00:43:16.854-03:00</updated><title type='text'>Lobby</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>33</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-1482827247408844576</id><published>2010-04-03T14:58:00.000-03:00</published><updated>2010-04-03T14:59:16.298-03:00</updated><title type='text'>Ressurreição</title><content type='html'>O tempo tem passado mais rápido do que tenho condições de acompanhar, as vezes fico tão preso ao passado, às coisas que jamais voltarão a ser porque a época da inocência acabou. Eu não sou mais um menino ingênuo e, embora saiba que ingenuidade pode ser fatal hoje em dia, sinto falta dos dias em que ainda era possível acreditar nas pessoas.&lt;br /&gt; Eu costumo de muito transparente e isso me prejudica, muitas vezes sou tachado de mentiroso pelas minhas histórias e sentimentos como se fosse impossível sentir e viver como eu. É possível existir falsidade no conteúdo de um frasco de vidro? Não, o que está lá dentro é visível, sem disfarces, sem enganação. E mesmo assim há quem acredite que tudo o que eu sou, e o que mostro é falso, é teatro. &lt;br /&gt; Pois bem, não é. Jamais consegui disfarçar meus sentimentos, quanto mais demonstrar algo que não fosse totalmente real. Se as pessoas acreditam nisso ou não já é outra história. Não posso convencê-las que existe alguém genuinamente sentimental, mas me fere toda vez que vejo como é distante da realidade a imagem que tantos tem de mim. Mas enfim, que diferença faz? Por que me importo com o que certas pessoas pensam de mim?&lt;br /&gt; Quisera eu ter essa resposta. Devia ficar satisfeito que meus muitos amigos sabem quem eu sou e que, principalmente, eu sei quem eu sou, conheço meus ideais de meu caráter. E durmo muito tranqüilo à noite carregando como único peso a hipocrisia dos outros nos julgamentos injustos que vejo acontecendo o tempo todo, não só comigo.&lt;br /&gt; Eu não poderia mesmo esperar outra coisa, querer ser exceção, afinal, dou a cara ao tapa, devia saber que seria estapeado. Não me escondo, não escondo o que eu sinto e o que eu penso, e, principalmente, deixo que meus aliados ajudem a curar minhas feridas, mas não permito que lutem comigo; uma guerra já é estúpida por si só, não tenho porque colocar nela as pessoas que não quero que saiam feridas.&lt;br /&gt; E por que estou aqui dizendo essas coisas? Eu mesmo me perguntei algumas vezes, pensando em apagar e começar outra vez, mais alegre e otimista. Bom, podem até não acreditar, mas estou sendo deveras otimista, afinal, falo de tudo aquilo que me machuca por estar errado exatamente em um feriado religioso que representa a ressurreição. Não sou religioso, tenho formação cristã como a maioria, mas tenho minha fé particular, segundo aquilo que tenho condições de acreditar. E não acredito na ressurreição.&lt;br /&gt; Como um homem letrado, acredito na metáfora, e tenho como minha verdade que a bíblia é nada além de um livro de fábulas (e depois teve alguém que me veio alegar que a verdade é sempre só uma... quanta ilusão) belamente escrita e com lindas lições bravamente distorcida pelos homens seguindo o que lhes seria mais conveniente, como aquela palhaçada de que a mulher é demoníaca só porque o infeliz não consegue controlar seus hormônios quando está diante de uma.&lt;br /&gt; A ideia não é discutir religião, afinal, como defendi há pouco, cada um tem sua própria verdade e a minha é individual, ninguém é obrigado a acatar, aceitar ou concordar, assim como ninguém me provará que estou errado. Mas em um feriado de páscoa, certos questionamentos vem à mente como uma avalanche de sentimentos que me faz parar para pensar o que exatamente acontece na minha vida.&lt;br /&gt; Como disse, não acredito na ressurreição, ou pelo menos não como ela é contada nas milhares de peças teatrais da sexta-feira santa. Eu não acredito que Cristo voltou do mundo dos mortos no terceiro dia em seu corpo castigado e ferido, até porque ainda sou muito mais da ciência e da biologia nesse caso; mas admiro o significado disso. &lt;br /&gt; Ressuscitar significa morrer e voltar a viver; segundo esse conceito, poderia dizer que todos ressuscitamos várias vezes na vida, a morte não precisa necessariamente ser literal. Dizem os místicos que a morte é somente uma passagem para outro tipo de existência e ela só se tornou uma palavra pesada e dolorosa porque representa algum tipo de perda. Todas as nossas fases de vida se encerram com algumas perdas, elas são totalmente inevitáveis, algumas mais fáceis e outras mais difíceis de aceitar.&lt;br /&gt; Eu já “morri” diversas vezes, e, a cada vez, pessoas e momentos deixaram de existir na minha vida para residirem na minha memória; outras vezes momentos e pessoas provocaram a necessidade de “morrer”. Claro que, ao contrário da morte biológica, a morte metafórica pode ser revertida, desfeita, e podemos legar pedaços da fase encerrada para a “vida nova”.&lt;br /&gt; Na verdade, creio que falo tudo isso porque estou passando por isso, morrendo para renascer, morrendo para ressuscitar. Ok, renascer e ressuscitar são conceitos diferentes, nascer novamente é voltar à vida com outro corpo, outro contexto social, e ressuscitar é retornar à vida de onde ela parou, no mesmo corpo, no mesmo contexto. Embora eu costume explorar minha licença poética e em geral use “renascer”, ressuscitar não apenas combina com a ocasião como de fato é o termo certo.&lt;br /&gt; Então, como eu ia dizendo, aproveito um período de reflexão tão pouco explorado pela maioria justamente para analisar minha vida, ver onde poderia ter feito melhor, onde poderia ter sido mais forte, onde poderia ter sido menos sensível e, principalmente, avaliar quais pessoas merecem minha lealdade.&lt;br /&gt; Muito além do chocolate e da velha e gasta piada do coelho com rabo fofinho, da cenoura e dos ovos, a páscoa serve para refletir, mesmo que não se acredite totalmente no significado religioso dela, como é meu caso. Não sou a favor que se fique em casa orando ou olhando para o horizonte, eu não faço isso, mas o questionamento deve existir de alguma maneira. Todo mundo erra, portanto, todo mundo precisa tirar um tempo para olhar para si mesmo e tentar corrigir seus erros. Pelo menos tentar.&lt;br /&gt; É justamente por a páscoa ter alcançado esse status de reflexão que sinto saudades dos tempos em que meu coração saltava empolgado quando acordava no domingo com o reflexo colorido pelo sol batendo nas embalagens dos ovos de chocolate na cestinha que meus pais montavam. Lembro de colocá-la no colo para verificar o que o “coelhinho” tinha deixado pra mim e correr para o quarto das minhas irmãs com a cesta na mão.&lt;br /&gt; Eram tempos mágicos, não havia nada além daquela emoção infantil no domingo de páscoa, nada além da crença no coelho e das peças religiosas na escola. Tínhamos problemas, como todo mundo tem independente da faixa etária (e as pessoas costumam ignorar que crianças têm problemas também), mas mesmo assim os tempos eram outros, a mentalidade era diferente, as pessoas eram diferentes.&lt;br /&gt; Lembro que aprendi que a cada geração o homem evolui mais, cresce mais. A minha geração não é nenhum exemplo de evolução, ao contrário, mas observo que a coisa se perde cada dia mais. Salvo exceções, que sempre tem, parece que as novas gerações, os novos jovens que pretendem mandar no mundo no futuro estão cada dia mais irresponsáveis, inconsequentes, verdadeiros delinquentes emocionais que primam por sua diversão acima do sentimento do outro, mas que se sentem também intocáveis: “posso fazer o mal, mas ninguém tem o direito de fazer o mesmo comigo”.&lt;br /&gt; Anda fácil demais apontar o dedo. Isso é assustador.&lt;br /&gt; Não sou a favor de vinganças, nem da justiça com as próprias mãos; tem um ditado que diz que se for tudo “olho por olho”, acabaremos todos cegos. Mas para toda ação tem uma reação. É lei da física. É justamente para acabar com um ciclo que não parece ter fim que morro agora para ressuscitar depois. Já carreguei minha cruz, certamente terei outras no caminho ainda, já usei minha coroa de espinhos pagando pelos meus erros e pelos erros que fui acusado de cometer. Não sei qual a próxima etapa. Seja qual for, estarei como sempre de peito aberto, somente desejando demais que a modinha de atribuir a mim a culpa de tudo chegue ao fim. Cansou já.&lt;br /&gt; O futuro há de ser melhor. Eu tenho fé.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Boa páscoa a todos!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-1482827247408844576?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/1482827247408844576/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/04/ressurreicao.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/1482827247408844576'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/1482827247408844576'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/04/ressurreicao.html' title='Ressurreição'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-3774599077830103652</id><published>2010-03-27T23:34:00.000-03:00</published><updated>2010-03-27T23:35:36.248-03:00</updated><title type='text'>Pequenos prazeres</title><content type='html'>Fiquei pensando por horas nas coisas que me fazem levantar de manhã e acreditar que ainda vale a pena. Não é fácil para quem sabe que cada movimento é julgado sair da cama e fazer qualquer coisa que não seja simplesmente sumir na multidão. Eu simplesmente não posso aceitar que estou no mundo para fazer volume e que a vida não passa de um martírio prolongado onde uns vivem em festa e outros em sofrimento.&lt;br /&gt; A vida não é uma festa, nem tampouco uma constante fonte de dor; estão errados os que não levam nada a sério e os que levam tudo a sério demais. A vida tem seus pequenos prazeres, e, apesar de tudo, eu ainda sou capaz de reconhecê-los.&lt;br /&gt; Celebrando as 30 histórias contadas, entre momentos engraçados, trágicos, românticos ou questionadores, fiz minha lista de 30 pequenos prazeres que seguem em ordem aleatória, coisas que sem dúvida fazem com que todo o resto pareça quase sem importância, que faz com que nada ruim seja forte o bastante para que esses itens se apaguem...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Noite chuvosa: acho maravilhosamente delicioso adormecer ao som da chuva; relaxa, inspira, dá uma sensação de aconchego por ouvir a água batendo no chão estando eu debaixo de minhas cobertas quentes, seco e protegido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Sorvete de banana: nada melhor para um dia quente do que um sorvete de banana, cremoso e com pedaços da fruta!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Guerra de travesseiros: nossa, faz tempo, mas é sempre divertido reunir gente com alma de moleque e lutar com travesseiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. Banho de chuva no verão: o cheiro da chuva no verão é delicioso, e se refrescar com um bom banho de chuva num dia quente é divertido e gostoso, ainda mais podendo pular sobre as poças e ouvir o “splash” da água saltando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Pisar na lama de pés descalços: depois da chuva, sentir o pé afundando na lama é bem interessante, a lama subindo dentre os dedos, macia...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6. Lua cheia: coisa bem linda uma lua cheia, especialmente quando está anoitecendo, que ela parece mais próxima, avermelhada, enorme! A lua cheia pode funcionar como um carregador de energia, dependendo a sensibilidade do espectador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7. Chocolate quente: inverno pesado, um chocolate quente é até uma questão de amor próprio, mas não leite com uma colher de achocolatado em pó, é chocolate mesmo! Quase cremoso, de tão consistente. E um pouco de chantilly com castanha moída reforçam o sabor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8. Cinema: uma boa sessão de cinema tem seu valor, imenso valor. Se for com bons amigos, então, é indispensável para uma vida feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9. Livros: sou apaixonado por eles, tenho de vários estilos, autores, épocas... uma excelente companhia para os não raros momentos de solidão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10. Música: algo que eu definitivamente não posso e não consigo viver sem. Música faz bem pra alma, acalma ou acelera o coração, faz rir ou chorar. Música é para todos os momentos, música é quase o ar que eu respiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11. Pizza: não creio que exista alguém nesse mundo que não aprecie uma boa pizza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12. Champanhe: só de pensar me deu sede. Um moscatel, por favor!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;13. Nuvens: sou capaz de passar horas observando o movimento das nuvens, gigantescos algodões mutantes sobre nossas cabeças. É mágico!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14. Meias de lã: só pra dormir, porque pra caminhar acabam machucando os pés. Me refiro àquelas tricotadas por vovó. Quentinhas, aconchegantes, uma delícia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15. Morango com chocolate: o azedinho do morango com o doce do chocolate. Casamento perfeito. Inclui o champanhe e mudamos de casamento para algo mais quente! (risos)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;16. Fatia de melancia: gelada de quase doer os dentes. Muito bom, só espero o dia que lançarão as melancias transgênicas sem semente!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;17. Cachorro: o animal. Adoro o meu, acho que todos os cachorros merecem o céu, choro quando um cachorro morre na TV e tenho pesadelos e mal estar quando vejo um sofrido na rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;18. Esmagar guisado: pra quem não sabe, guisado é carne moída. Lembro quando era criança que minha mãe pediu pra eu esmagar o guisado para misturar com a farinha e os temperos para fazer bolo de carne. Lembro da sensação, parecida com a da lama, da carne moída fofinha saltando entre os dedos enquanto apertava. Pelo mesmo motivo fiquei encantado com uma cena do filme “Patch Adams” quando eles colocam uma velhinha numa piscina de massa. Um dia ainda faço o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;19. Dançar: renova o astral, faz bem pro corpo e pra mente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;20. Beijo na boca: sem comentários. Acho que todo mundo concorda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21. Camiseta de algodão, bermuda e chinelo de dedo: é a melhor sensação do mundo quando o frio termina, a calça comprida, calçados fechados e blusas de lã somem de vista e a velha camiseta, o bermudão e o chinelo voltam à ação. A sensação de liberdade é indescritível!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;22. Grama fofinha: uma grama bem cuidada, fofinha, perfeita para sentir a natureza de perto, andar de pés descalços, deitar sobre ela sentindo o cheiro da terra. Cortar a grama no verão também é bacana, o cheiro de grama recém cortada é um perfume delicioso!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;23. Tulipas: minha flor favorita. Gosto de rosas, girassóis, margaridas e várias outras, mas nada se compara às tulipas. Tulipas são estilosas, têm cores vibrantes, são alegres, cheirosas e lindas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;24. Câmera digital: não vivo sem a minha, adoro fotografar cenários, momentos, pessoas. As lembranças são a coisa mais importante que temos na vida; os sentimentos que cada momento transmite. A foto nada mais é que um empurrãozinho pra memória, para que a pessoa olhe a imagem e possa se lembrar detalhadamente do que lhe aconteceu. Fotos são pequenos amuletos para que as melhores recordações durem para sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;25. Sabonete líquido: como faz diferença um sabonete líquido! Especialmente no banho; cada um com sua esponja, pinga o sabonete e limpa o corpo todo. Depois da invenção do sabonete líquido, nunca mais tive o desprazer de encontrar “vocês-sabem-o-quê” grudado no sabonete em barra. Muito mais higiênico, econômico e fashion!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26. Coca zero: não, não é merchandising, mas eu sou absolutamente viciado em Coca-Cola, e minha vida mudou para melhor depois da Coca Zero. O meu refrigerante sem calorias! O tanquinho agradece!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27. Sopa instantânea: um frio desgraçado, uma caneca, uma chaleira com água chiando no fogão e um sache de sopa instantânea. Lanche perfeito! Alimenta, esquenta, é fácil de fazer e é absolutamente delicioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28. Pipoca: hummm. Adoro ouvir o som de pipoca estourando, o cheiro dela pronta, o gostinho salgadinho (prefiro salgada). Adoro morder devagar as partes mais sólidas. Só não gosto das casquinhas, mas como não sou de colocar várias na boca, e sim comer uma a uma, acabo não me incomodando tanto. A pipoca que vendem no cinema as vezes chega a ser melhor que o filme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;29. Enfeites de natal: me emocionam. Adoro ver a cidade decorada, iluminada; já me peguei chorando uma vez, de emoção em saber que ainda existe magia. Na páscoa também é bacana ver a decoração e as lojas dedicadas à ocasião (mesmo comercial, é legal de ver).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;30. Plástico bolha: aquele plástico de embrulhar objetos sensíveis, cheios de bolhas de ar. Acho impossível alguém não conhecer. Certa vez eu e minha irmã compramos um rolo inteiro só para estourar as bolhas. Cortamos um pedaço e 1,5m, nos afastamos no corredor e, cada um segurando uma ponta, torcemos o plástico até boa parte das bolhas se estourarem ao mesmo tempo; foi realmente divertido. E será que existe no mundo alguém que não goste, nem um pouquinho, de estourar um plástico bolha?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Reforço mais uma vez que a ordem dessa lista é totalmente aleatória, sem ser classificada entre favoritos ou não. Estava observando a via à minha volta quando percebi que poucas pessoas fazem o pequeno esforço de perceber o quanto coisas banais de sua vida fazem realmente muita diferença. E principalmente, o quanto algumas delas podem significar um dia inesquecível, uma nova lembrança, um bom momento.&lt;br /&gt; Nessa lista não incluí meus amigos e familiares, eles não se enquadram como “pequenos prazeres”, eles são gigantescos, grandes demais para entrarem em uma lista qualquer. Eles são a razão de cada um desses itens contribuírem para uma vida melhor, para a construção de uma história que mereça ser contada. Eles são tudo na minha vida, sem eles essa lista não teria razão de ser, pois nada nesse mundo poderia compensar sua ausência.&lt;br /&gt; São 30 histórias, desabafos, divisões e compartilhamento de segredos. Torço que sejam apenas as primeiras 30 histórias, é muito bom saber que aquilo que eu vejo, sinto e vivo pode quem sabe fazer uma pequena diferença para alguém. Será ainda melhor saber que posso estar fazendo a minha parte para diminuir preconceitos, acabar um pouco com essa hipocrisia que nos cerca, mostrando que independente do que eu faço, e com quem eu faço entre quatro paredes, a minha história poderia ser a de qualquer um, independente de sexo, raça, credo, orientação sexual, classe social. Independente de qualquer divisão que a sociedade possa nos atribuir, todos temos algo em comum, todos somos seres humanos e só isso já basta para que todos sejamos dignos de respeito pelos nossos semelhantes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-3774599077830103652?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/3774599077830103652/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/03/pequenos-prazeres.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/3774599077830103652'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/3774599077830103652'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/03/pequenos-prazeres.html' title='Pequenos prazeres'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-3014497410042037852</id><published>2010-03-20T23:00:00.000-03:00</published><updated>2010-03-20T23:01:01.938-03:00</updated><title type='text'>Obsessão</title><content type='html'>Eu lembro que andava sem rumo por uma praça qualquer, chutando pedrinhas, pisando em folhas secas do outono. Não sei no que pensava, minha memória não é tão impecável assim, mas lembro de estar calmo, em paz, coisa absolutamente rara na minha vida. Eu estava absurdamente distraído, o bastante para não ouvir o mundo ao meu redor mesmo privado da constante companhia de fones de ouvido e músicas aleatórias.&lt;br /&gt; Eu não sei como foi, só sei que voltei ao mundo real quando uma grande confusão se armou perto dali. Pessoas que antes passeavam ou estavam nos bancos agora corriam afobadas para garantir seu lugar no mórbido espetáculo. Eu não corri, embora seja um curioso incorrigível, mas fui na mesma direção que iam todos. Não muito à frente já havia uma grande concentração de espectadores que aguardavam o desfecho.&lt;br /&gt; Me aproximei, abrindo espaço entre alguns, para pelo menos entender o que estava acontecendo. Diante de mim, em um canto da calçada, estava um rapaz e uma moça, na faixa dos 20 anos, ela em seus braços, claramente desesperada, e ele agarrando-a com força e apontando-lhe uma arma na cabeça.&lt;br /&gt; Senti uma vontade imensa de fazer alguma coisa, geralmente essas histórias não acabam bem, mas não tenho dom pra ser herói, eu era apenas um nessa multidão de pessoas que diziam rezar pelo melhor quando na verdade esperavam a história mais dramática possível para contar para os vizinhos que viram tudo de camarote. Eu não queria ver aquela menina morrer, mas não me movi por um longo tempo. Maldita humanidade que me prendeu ao espetáculo ao mesmo tempo que jogava na minha cara a minha impotência diante de um homem alucinado com uma arma na mão.&lt;br /&gt; A mulher ao meu lado estava desesperada e gritava muito, quase ajoelhada no chão implorando ao filho que não fizesse uma loucura. Era a mãe do rapaz transtornado que ameaçava matar a mulher que dizia amar. A mulher que dizia amar... soa imensamente irônico; como pode alguém tentar destruir algo que ama?&lt;br /&gt; Não foi difícil conhecer a história inteira, a própria senhora contou a todos que quisessem ouvir aquela velha história do amor, ciúme e desejo de vingança. Eles namoravam, ela se apaixonou por outro e terminou com ele. Ele não aceitou, e então a história tomou contornos ainda mais ficcionais: o novo namorado da moça já jazia morto há poucos passos dali, no interior da loja onde trabalhava, longe dos olhares curiosos e flashes da imprensa.&lt;br /&gt; Não pude ver o rosto do rapaz morto, mas montei em minha mente um mosaico de imagens das duas histórias de amor que tiveram um final trágico. O rapaz enfurecido não tinha mais nada a perder, já tinha um homicídio nas costas e jamais traria sua amada de volta; naquele momento a vida dela significava pouco demais para que ele fosse capaz de respeitar. Eu soube naquele momento que testemunhava os últimos momentos da vida da moça e certamente do rapaz também, muito provável que acabasse com a própria vida depois de destruir o fruto de sua obsessão.&lt;br /&gt; Eu já havia visto e ouvido demais, me afastei dali e segui de volta ao parque. Minha paz de espírito havia sumido e eu não podia evitar de pensar no quanto talvez eu nem fosse tão diferente do rapaz com a arma na mão, pensando nas tantas vezes que desejei sem querer que o Ale tivesse problemas para precisar de mim. Aquilo me soava de uma crueldade absurda quando vi, ao vivo, cara a cara, o quão longe um amor doentio pode chegar.&lt;br /&gt; Aliás, não podemos chamar isso de amor, isso é obsessão e uma imensa dose de egoísmo. Eu poderia me encaixar nas duas descrições. Senti uma lágrima escorrendo pelo meu rosto, ciente que minha própria história ainda poderia parar nos jornais. Jamais mataria o Ale, até porque já sabia que nossa separação era definitiva, que jamais seríamos novamente um casal, se é que um dia de fato fomos, e eu não o incomodava, o deixava seguir em frente, mas sempre pensando no quanto gostaria que ele voltasse rastejando para mim. Que amor é esse?&lt;br /&gt; Também sempre tive facilidade de fazer inimigos. Lembro quando era um pré-adolescente, dizia para minhas irmãs que morreria cedo, assassinado por um desafeto. Bom, ninguém está livre. Uma senhora sentou ao meu lado, vendo que eu estava claramente chateado, e quis conversar.&lt;br /&gt; - Conheces algum dos envolvidos?&lt;br /&gt; - Não, senhora.&lt;br /&gt; - Então é tão sensível para estar chateado assim?&lt;br /&gt; - A senhora não se sensibilizou?&lt;br /&gt; - Claro que sim, mas não estou num banco da praça em prantos.&lt;br /&gt; Olhei para o céu, buscando as palavras certas, não queria assustá-la, mas a verdade é que sabia pelo menos um pouco do que aquele rapaz armado estava sentindo, e me sentia péssimo por isso.&lt;br /&gt; - E se eu lhe dissesse que é triste ver as atitudes daquele rapaz porque ninguém está realmente livre disso?&lt;br /&gt; - De ser vítima de um louco? É, tens razão e... – A interrompi.&lt;br /&gt; - Não, de ser o louco. – Ela arregalou os olhos e demonstrou estar realmente assustada.&lt;br /&gt; - Mas ameaçar uma vida não é algo humano! É criminoso! Doentio!&lt;br /&gt; - Claro, não me refiro ao fato de ele ter matado alguém e estar prestes a matar outra pessoa, mas a senhora já perdeu pra vida alguém que amava demais?&lt;br /&gt; - Eu sou viúva, isso não vai me fazer sair ameaçando pessoas!&lt;br /&gt; - A senhora não me entendeu. A senhora imagina o tamanho da dor de uma pessoa ao perder seu grande amor e vê-lo sendo feliz com outra pessoa?&lt;br /&gt; Ela ficou em silêncio por um momento. É claro que minha teoria era cheia de falhas, o meu comentário me fazia parecer defensor do homicida, o que obviamente não era o caso, mas não tinha como não pensar na dor dele tão pouco tempo depois de ter perdido meu Ale, no tamanho do seu egoísmo, da sua obsessão, porque ele não a mataria por amor, a mataria por ser um monstro com sentimentos confusos de possessão. Ele ali não vingava seu amor perdido, vingava seu orgulho ferido, e isso nada tinha de nobre.&lt;br /&gt; - Não justifica. – Disse ela.&lt;br /&gt; - Com certeza não. Aquilo não será um crime passional, não há qualquer demonstração de amor no que ele está fazendo. Ele converteu a dor dele em ódio e no auge do seu egoísmo, está vingando onde ele foi de fato atingido: no orgulho.&lt;br /&gt; - Por um momento achei que defendias o bandido.&lt;br /&gt; - Não, somente reconheço que ninguém está livre de se sentir dono do outro a ponto de se auto atribuir o direito de privar a pessoa amada de sua própria vida. Claro que não é assim tão comum encontrar pessoas loucas o bastante para matar, mas estamos cercados de pessoas que nutrem um sentimento mais de posse do que de amor pela outra.&lt;br /&gt; - E de que forma isso o chateia tanto?&lt;br /&gt; - Porque percebi que também sou assim. Sou um pouco como aquele bandido, só não chegando ao nível dele, mas também sou obcecado pela pessoa que amo, e também me julguei no direito de ser seu dono. E como estou errado! Na minha história de amor mal resolvida, o bandido sou eu, e, exatamente por ver como é feio ser assim que estou chateado.&lt;br /&gt; Ela sorriu com ternura, passou a mão no meu ombro no exato momento em que ouvimos um tiro. Eu chorei, não pude aguentar a dor que me invadia por saber que o desfecho havia sido trágico. Porém, ao contrário do que pensávamos, a moça saiu ilesa, o rapaz acabou por se matar, ali, em uma calçada, na frente de uma platéia ávida por um final exatamente como aquele.&lt;br /&gt; Respirei um pouco mais aliviado enquanto ouvia as fofocas ao meu redor. Mas o que será que é “sair ilesa” de verdade? A menina pode não ter se ferido fisicamente, porém, a ferida que a atitude de seu ex-namorado abriu certamente jamais terá cura. Pensei novamente no Ale, nas tantas vezes que me arrastei aos seus pés, nas minhas crises de ciúme, no quanto minhas atitudes poderiam o estar ferindo também, porque nosso relacionamento amoroso acabou, mas não nossa amizade.&lt;br /&gt; Já havia se passado horas, o local estava interditado, carros de polícia e da imprensa cortavam o trânsito e muita gente ainda estava lá. Anoitecia e, depois de muito pensar, tomei uma decisão que me parecia ser o mínimo a fazer para me afastar daquele monstro. Peguei um táxi na lateral da praça, onde o trânsito ainda fluía e fui à casa do Ale.&lt;br /&gt; - Erich, aconteceu alguma coisa?&lt;br /&gt; - Já sabe da história do rapaz que manteve a ex refém?&lt;br /&gt; - E se matou? Sim, tão falando direto sobre isso na TV. O que tem?&lt;br /&gt; - Eu estava lá... – Senti meus olhos se encherem de lágrimas e vi o olhar piedoso do Ale, como ele ainda podia sentir piedade de um perseguidor obsessivo?&lt;br /&gt; - Se machucou? – Ele tocou nos meus braços, me olhou bem no fundo dos meus olhos e me abraçou. Eu chorei.&lt;br /&gt; Entrei no apartamento e sentei ao seu lado no sofá, de onde ele saiu rapidamente para me servir um copo de água. Eu tremia. Essa era a parte que eu realmente não gostava nos meus momentos de reflexão: perceber meus erros e me sentir o homem mais terrível do mundo.&lt;br /&gt; - Ale, eu vim te pedir perdão. &lt;br /&gt; - Pelo quê?&lt;br /&gt; - Por desejar que você precise de mim, por desejar que todos te decepcionem e só reste eu para te receber de braços abertos, por desejar tanta coisa que eu não devia desejar nem para quem eu desprezo, quanto mais pra você.&lt;br /&gt; - Erich, eu faço isso também, todo mundo faz isso. Eu sei que você faz isso pelo amor que sente por mim, e isso é a sua reação à necessidade de estar comigo.&lt;br /&gt; - Não Ale, eu te persigo porque te quero, e agora eu me redimo porque te amo. Existe uma diferença entre querer e amar. Aquilo que a gente quer, a gente se sente dono, aquilo que a gente ama, a gente liberta.&lt;br /&gt; Ele ficou um longo tempo me olhando, parecia surpreso com a minha constatação, parecia não entender muito bem o que acontecia, afinal, eu sempre fui possessivo com ele, e ele me falou que faz isso pra amenizar a minha dor, porque embora seja uma verdade, existem níveis, existem limites, e eu já havia ultrapassado o meu há tempos.&lt;br /&gt; - Eu te perdoo.&lt;br /&gt; Sorri, beijei-lhe a testa e fui até a porta, de onde olhei pra trás brevemente e percebi que ele ainda estava confuso, mas logo ele entenderia tudo o que eu não disse em palavras. Saí de lá mais leve, porém com um imenso peso nas costas: de fazer valer aquele perdão, de provar que o amo, e não que o quero possuir. Foi nesse momento que percebi o quanto o amor é complicado, e o quanto a gente usa essa palavra em vão.&lt;br /&gt; Um novo caminho a trilhar, o medo de voltar atrás, o medo que a tal liberdade que o amor deve dar tire o Ale de vez da minha vida. É um risco que não estava disposto a correr, mas algo me dizia que ele voltaria porque agora o faria por gosto, e não por piedade, e poderia escolher a hora certa de fazê-lo. &lt;br /&gt;E ele voltou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-3014497410042037852?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/3014497410042037852/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/03/obsessao.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/3014497410042037852'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/3014497410042037852'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/03/obsessao.html' title='Obsessão'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-7627843809793436987</id><published>2010-03-12T12:03:00.002-03:00</published><updated>2010-03-12T12:07:05.589-03:00</updated><title type='text'>empurrando pra depois</title><content type='html'>Queridos leitores!&lt;br /&gt;Pela primeira vez em tantos meses não terei nesse final de semana uma história para contar. Estarei ausente de minha casa e sem acesso à internet para realizar a postagem e não posso prometer que conseguirei produzir um texto a tempo de postar na segunda feira. Por essa razão, opto por atualizar esse espaço somente no próximo sábado, com uma nova história, com novas emoções.&lt;br /&gt;Conto com a compreensão de todos!&lt;br /&gt;Muito obrigada!&lt;br /&gt;a autora&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-7627843809793436987?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/7627843809793436987/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/03/empurrando-pra-depois.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/7627843809793436987'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/7627843809793436987'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/03/empurrando-pra-depois.html' title='empurrando pra depois'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-5563860705533261013</id><published>2010-03-07T02:24:00.001-03:00</published><updated>2010-03-07T02:24:42.686-03:00</updated><title type='text'>Hoje não</title><content type='html'>Olho pra trás sem ter um pingo de arrependimento. Minto. Me arrependo de fraquejar quando de mim devia vir firmeza. O velho capacho se joga num canto, sua essência escorrega dos trapos a que foi resumido e assume a forma de um vaso. Um vaso de plástico, vagabundo, que não há de se quebrar nem mesmo na pior queda.&lt;br /&gt; Nesse vaso cabe de tudo, da mais preciosa pedra à mais cheirosa flor, do mais fétido esterco à água mais lamacenta. E tudo isso ao mesmo tempo. Um grande caldeirão emocional com todos os ingredientes para um grande banquete especial para a realeza e adequado aos seus servos. Mesa posta com pratos de cristal de talheres de plástico, vinhos finos em copos descartáveis, e um vaso ao centro.&lt;br /&gt; Talvez esse não seja o momento adequado para contar histórias, nem relembrar fatos, nem mencionar novos nomes. Talvez nunca tenha sido, já que cada um tem mais o que fazer do que cuidar da vida alheia (mentira!). Independente dos fatos e de tudo aquilo que ainda tenho para contar, hoje não contarei nada. Isso mesmo, nada.&lt;br /&gt; Hoje quero só olhar pro céu e rir do formato das nuvens, ou contar estrelas. Hoje quero simplesmente me reservar o direito de ficar calado, sem produzir provas contra mim, já que a vida é um gigantesco tribunal onde sempre tem mais testemunhas de acusação, até porque a cadeira elétrica é muito mais excitante que a absolvição.&lt;br /&gt; Talvez seja exatamente isso que eu faça quando amanhecer: contemple o sol no horizonte, observe os pássaros, pense nas novas histórias que ainda quero contar. Talvez não, talvez somente siga em frente, andando contra a maré, dançando meu próprio ritmo sem me preocupar se combina ou não com a música da vida.&lt;br /&gt; Os dias seguem ao seu bel-prazer, não podemos controlar, então retomo as rédeas daquilo que me pertence por direito: a possibilidade de fazer exatamente aquilo que eu quero fazer. E se eu não quero fazer nada, não farei.&lt;br /&gt; Hoje não quero contar histórias, é muito provável que seja só hoje, talvez se repita amanhã. Não sei, eu realmente não sei. Seja como for, hoje não.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-5563860705533261013?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/5563860705533261013/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/03/hoje-nao.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/5563860705533261013'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/5563860705533261013'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/03/hoje-nao.html' title='Hoje não'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-9089136309069210499</id><published>2010-02-27T23:40:00.002-03:00</published><updated>2010-02-28T01:33:43.678-03:00</updated><title type='text'>Os bons tempos</title><content type='html'>Por algum motivo inexplicável, entrei em uma onda avassaladora de nostalgia. Talvez o andar da idade, ou as experiências de recomeço e a vontade de nascer de novo tenham sido forte influência para mim. Saudade dos tempos em que meu maior problema era dividir o Atari com as minhas irmãs ou ter que usar o colar de pedras da minha mãe escondido do meu pai.&lt;br /&gt; A minha infância foi cheia de tropeços, até porque me apaixonei pelo Ale jovem demais, e sem saber exatamente o que estava acontecendo, mas até pela realidade ao meu redor eu percebia que estava indo contra alguma espécie de ordem natural gostar de uma criança fisicamente igual a mim.&lt;br /&gt; Eu devia estar por volta dos 6 ou 7 anos quando pensei em morrer pela primeira vez, que eu lembre, obviamente. Mas embora eu tenha me descoberto gay antes mesmo de entender as diferenças entre meninos e meninas, eu tive muita coisa bacana pra lembrar, muita coisa que qualquer criança merece vivenciar, com brinquedos comprados ou montados em casa com materiais descartados pelos pais. Ter uma irmã da minha idade (gêmea) ajudou bastante também, fazíamos tudo juntos, e mais o Ale, que é filho único. A irmã mais velha já começava e ir nas festinhas enquanto nós 3 pulávamos amarelinha, ou construíamos comunicadores com latas de conserva e barbante. Aliás, devo destacar que nunca funcionou.&lt;br /&gt; Quando chegava o final do ano, minha madrinha fazia massa de biscoito de natal para fazermos as formas que achávamos mais divertidas e enfeitávamos com confeitos coloridos; depois acabavam mofando e indo pro lixo porque os biscoitos em si eram intragáveis! Era tudo tão mais leve, divertido, exceto quando meu pai brigava comigo por brincar de Barbie com a minha irmã e deixava minha coleção dos bonecos dos Comandos em Ação dentro de uma caixa no canto do quarto.&lt;br /&gt; Era divertido dançar as canções do Balão Mágico na vitrola da turma da Mônica que havíamos ganho da avó materna no último aniversário, ou contar histórias de terror no escuro com uma lanterna iluminando o rosto de quem contava, dentro da barraca de pano do Batman que o Ale levava lá em casa junto com os VHS da Xuxa ou dos Muppets Babys; lembro que os Muppets tinham um filme de natal que eu assisti tantas vezes que perdi a conta.&lt;br /&gt; Imitávamos o Bozo com as maquiagens da minha irmã pré-adolescente, víamos Mara Maravilha e Eliana, cantávamos a abertura do Xou da Xuxa e choramos quando ela anunciou o falecimento do seu cachorro, Xuxo, o qual nem sabíamos a cor porque nunca havíamos visto, mas detestávamos Vovó Mafalda e sua musiquinha de encerramento do programa com a mesma força como amávamos Pica-Pau e as jornadas de desenhos do canal 5.&lt;br /&gt; Ser criança na década de 80 foi uma experiência interessante, em uma época que o aparelho mais moderno que tinha era o fax ou a máquina de escrever elétrica, e que os trabalhos da escola eram feitos em papel almaço e as pesquisas nas pesadas coleções de enciclopédias. Também era rei quem tinha um Atari e seu Pac-man (sim, ouvi muito a piada que eu gostava de ser comido desde criança no vídeo-game, até porque eu era péssimo nesse joguinho), e tinha um outro que eu adorava, que o bonequinho passava com cipó sobre um lago cheio de jacarés, e lamento não lembrar o nome desse jogo.&lt;br /&gt; Tínhamos ainda os bonequinhos do Playmobil, que embora ainda existam, já soube de crianças que nunca ouviram falar; a nossa coleção era divertidíssima, tínhamos a escola, a ambulância, o parque de diversões e, por fim, o circo, que foi o último presente de dia das crianças que eu e minha irmã gêmea ganhamos. Também gostávamos muito de brincar com uns bonequinhos em miniatura que tinham carinha de animais e as cidadezinhas eram ilhas, as casinhas vinham em forma de frutas ou utensílios domésticos, como bules e xícaras, e tinha laguinhos e florestas de plástico, era realmente divertido.&lt;br /&gt; Foi nessa época que minha irmã mais velha assinou a Capricho e mantinha pôsters do Tom Cruise espalhados pelo quarto. Roubávamos as polainas e saias balonê dela, e as blusas com imensas ombreiras da minha mãe para desfilarmos ao som se Guns, Roxette e Cindy Lauper. Éramos proibidos de ouvir Madonna, então minha irmã se escondia para ouvir longe de nós, o mesmo com Michael Jackson que começava a clarear a olhos vistos.&lt;br /&gt; Lembro quando o Ale ganhou seu primeiro bambolê, eu adora vê-lo brincar pela maneira como mexia os quadris enquanto equilibrava o arco na cintura. Eu não era bom nisso, e temia que meu pai ficasse bravo demais ao me ver rebolando, mas minha irmã equilibrava dois ou três, inclusive em volta do pescoço, era bonito de ver. Tinha também o pogobol, ou algo assim, que era uma bola com uma base ao redor para colocar os pés e sair pulando; quebrei um dente de leite tentando usar, e um vizinho nosso teve mais azar e passou todo o verão com a perna engessada.&lt;br /&gt; Mas falando em gesso, eu tinha um brinquedo que era bastante artístico, vinha com moldes do Pato Donald e Cia e o pó de gesso para misturarmos com água e brincarmos de criar estátuas. Eu ficava louco porque, independente do cuidado que tínhamos, sempre ficava uma bolha de ar que deixava um buraco no resultado final. Durante todo o tempo que brincava de ser escultor, nunca consegui uma estátua do Pato Donald com o bico completo.&lt;br /&gt; Como a tecnologia ainda estava engatinhando perto do que temos hoje, os jogos de grupo eram bastante populares; nada de realidade virtual, os jogos de vídeo-game eram suficientemente precários para não levar o jogador a acreditar fazer parte daquilo, então jogos como Detetive, Cara a Cara, Lince, Jogo da Vida, Banco Imobiliário e outros eram muito populares. Para os mais velhos, War era o favorito, se bem que Banco Imobiliário também não era feito para crianças na idade que tínhamos na época, mas adorávamos o dinheirinho de papel colorido que vinha no jogo.&lt;br /&gt; Ao contrário de hoje em dia, brincávamos bastante na rua, pega-pega, esconde-esconde, queimado, polícia e ladrão, carrinho de lomba que eu apelidei de “carrinho de tombo”, ou o velho salada mista, que me fez beijar pela primeira e última vez a boca de uma menina, mas éramos jovens demais para isso contar. Também passávamos o anel e morríamos de medo do jogo do copo, o qual fomos todos proibidos de sequer cogitar brincar.&lt;br /&gt; Trocávamos adesivos, apostávamos no jogo de bafo os nossos álbuns que variavam de campeonato de futebol, Xuxa, da novela “Que rei sou eu”, ursinhos carinhosos no caso da minha irmã e o último que tive antes de entrar de vez para a vida adulta, Mamonas Assassinas, lançado não muito depois do trágico acidente que lhes tirou a vida, já em meados da década de 90.&lt;br /&gt; Tínhamos Menudos, New Kids on the Block, Trem da alegria e os grandes sucessos de Paquitos e Paquitas, além do já citado Balão Mágico; víamos “Super Xuxa contra Baixo Astral” e “Lua de Cristal”, que sempre nos deixava furiosos na cena em que o vilão jogava a Xuxa da moto no mar. Mas nada superava nosso amor por Caverna do Dragão, um desenho que vejo ser unanimidade até hoje, pessoas de gerações diferentes da minha ainda comentam o desenho que dizem não ter fim, embora ainda acredite que o Vingador é mesmo filho do Mestre dos Magos.&lt;br /&gt; Era uma época que não se tinha tanto acesso à informação, tinha-se meia dúzia de canais de TV, se muito, e a popularização da antena parabólica não melhorou muito, já que os poucos canais a mais eram absolutamente horríveis, pelo menos para uma criança. Não tínhamos tudo mastigado na mão, tínhamos que ser criativos pois eram poucas as opções, e transformávamos essa suposta decadência em brincadeira.&lt;br /&gt; Lembro que usava lençóis velhos como capa de super herói e tinha a espada do He-Man, e lembro que achava ele muito bonito com seus cabelos louros em um corte que hoje vejo como a coisa mais brega do mundo. Lembro da risada do Esqueleto e do velho bordão “Pelos poderes de Greyskull, eu tenho a força!”, então vozes cantavam “He-Man” na musiquinha e nossos olhos brilhavam de empolgação.&lt;br /&gt; Não dá pra esquecer dos Thunder Cats, que competiam ferozmente com He-Man e sua turma pelo coração da criançada, mas tínhamos espaços para todos, eram todos heróis combatendo o mal e só isso nos bastava. E assistíamos os desenhos deitados no sofá com nossos todinhos e sucrilhos, nossos pijamas com nossos personagens favoritos e pantufas de bichinhos. &lt;br /&gt; Mas essa época da infância tinha muito mais, lembro da minha emoção quando ganhei  minha primeira mola-maluca e meu potinho de geleca, que deixava as mãos melecadas por horas mesmo que fossem lavadas; a minha era verde, e eu adorava a da minha irmã, que era roxa, bem forte, muito mais brilhosa e encantadora que a minha. Em compensação, o meu Lango-Lango era mais assustador que o dela. O Lango-Lango era um boneco, um monstrinho estilo fantoche, que dava socos, manipulávamos os braços e fazíamos lutas épicas com nossos monstros.&lt;br /&gt; Gostávamos ainda de Punky, a série da menina que vivia com o avô, Vicky, a série da menina robô, Alf, um alienígena divertidíssimo; colecionávamos as figurinhas do Ploc, o chiclete, mascávamos Ping-Pong verde porque era mais refrescante que o azul, guardávamos as cartelas de papelão com fotos de animais selvagens que vinham no chocolate surpresa, vimos nascer o kinder ovo. Lembro que minha irmã ganhou o mini engradado da Coca-Cola e eu perdi as garrafinhas, e que íamos ao mercado com o porta-malas cheio de engradados reais trocar as garrafas de refrigerante vazias por novas garrafas cheias; sei de muita gente que ainda tem em casa os velhos engradados com garrafas de 30 anos atrás acumulando pó.&lt;br /&gt; Teve ainda a moda dos io-iôs, que surgiu por um tempo com as principais marcas de refrigerantes e ressurgiu mais “moderna” na década de 90; fazíamos campeonatos e não raro saía alguma criança chorando por um nó impossível na corda do seu brinquedo. Jogávamos peão, bola de gude e futebol de botão, embora já fosse mais raro na nossa geração. Mas tínhamos muita coisa criada para nós, desde as elaboradas casas do pequeno-pônei até o boneco do Fofão, que eu pessoalmente morria de medo.&lt;br /&gt; Minha mãe conta que eu sabia a música do ursinho Pimpão de cor quando ainda era muito pequeno, eu lamento não lembrar disso, mas lembro que porque algum motivo inexplicável associei do rato Topo Gigio à música La Bamba que ouvia na nossa vitrolinha, entre outros discos de vinil que pegava do meu pai. E lembro com clareza a surra que eu levei quando quebrei a Tela Mágica da minha irmã mais velha, embora ela já não brincasse mais.&lt;br /&gt; Tínhamos também aqueles brinquedos com água dentro, que apertávamos o botão para as argolas subirem e encaixarem nos suportes; eu gostava daquilo e o Ale quebrou o meu, coisa que eu nem me importei porque ganhei um abraço dele como pedido de desculpas. E depois de perder meu brinquedo, os pais do Ale nos levaram para tomar o picolé do Fura Bolo, que era um picolé de morango no formato de uma mão fechada com o dedo indicador erguido e coberto por chocolate... era gostoso como o Frutully que vinha com um brinquedo no fundo da embalagem ou, na embalagem em forma de casquinha de sorvete, vinha um chiclete absurdamente duro.&lt;br /&gt; Na época também comíamos Mirabel, os primeiros biscoitos a virem em embalagem próprias pra serem levados de lanche pra escola, e tinha outro biscoito muito sem graça, mas era divertido porque vinha com a marca de uma mordida, e achávamos isso muito engraçado, assim como os chicletes DinOvo, que vinham em micro embalagens de ovo com ovinhos coloridos imitando ovos de dinossauro.&lt;br /&gt; Nessa época ainda haviam os Chocolápis e o Quick de morango, que era tipo um chocolate em pó só que de morango, e era ruim pra caramba. Foi também a época em que a lambada estourou no Brasil e tinha aquela “Chorando se foi, quem um dia só lhe fez chorar” que tocava na caneta multicolorida da Xuxa. Aliás, essas canetas ainda existem, não a da Xuxa, claro, mas são canetas grossas em que você aperta uma alavanca com a cor desejada e a ponta da cor escolhida aparece; lembro como era chato quando as pontas trancavam ao puxar mais de uma alavanca, e em geral as cores não funcionavam muito bem.&lt;br /&gt; Só falando da década mais brega de todos os tempos, com maquiagens pesadas, ombreiras imensas, cabelos armados e ainda a década de lançamento do filme ET já dá para se ter uma ideia que foi um período para não esquecer. Alguns dizem que as gerações de crianças realmente felizes acabaram em meados de 80, já que as nascidas na década de 90 já vieram em meio à uma revolução tecnológica sem precedentes.&lt;br /&gt; Eu não seria tolo de afirmar que somente nós fomos felizes, tenho certeza que não até porque crescemos em um período de revoluções no mundo todo com o fim da Guerra Fria, a queda do Muro de Berlin, a recém restaurada democracia brasileira e o surgimento de uma coisa estranha criada para fins militares, depois universitários e hoje quase obrigatória em lares e empresas; popularmente conhecida como internet.&lt;br /&gt; Quando éramos crianças, nada disso era sequer imaginável, embora minha mãe conte que achava que os carros voariam no ano 2000 e usaríamos roupas prateadas que ninguém até hoje soube explicar de onde saiu esse conceito, também achava que seria muito velha ou sequer estaria viva quando isso acontecesse, e no entanto até minha avó, que nasceu uma década após o naufrágio do Titanic (que completa 100 anos em 2012 – se o mundo ainda existir, claro) ainda está aí, acompanhando perplexa o quanto o mundo mudou nessas últimas 3 décadas que eu acompanhei.&lt;br /&gt; Esses dias conversava com o Ale sobre isso, começamos relembrando Aninha e o vazio que ela deixou e terminamos relembrando as velhas brincadeiras, sobre o quanto éramos inocentes e felizes, e o quanto as crianças de hoje já nascem em contato direto com as tecnologias, cheias de malícia e com tão pouco espaço para serem crianças. Os pais já não tem o mesmo espaço para serem os pais que tivemos naquela época em que televisão era o auge do entretenimento passivo, onde tínhamos que efetivamente nos mexer se quiséssemos brincar.&lt;br /&gt; E foi durante a conversa que encontramos a flor de plástico que dançava e o fantoche que de um lado era boneca e do outro era um vaso com uma flor, estavam guardados entre as recordações do Ale, e certamente pertenciam à minha irmã naquela época que compartilhávamos tudo, inclusive os momentos de reflexão, de deitar na grama à noite na varanda da casa dele atribuindo formas aos grupos de estrelas e imaginando o que nos tornaríamos no futuro.&lt;br /&gt; Engraçado como hoje olho pra trás e vejo o quanto fomos felizes, nas tantas vezes que ficávamos cheios de lama andando de bicicleta depois da chuva, e como eu pegava a bicicleta rosa com cestinha da minha irmã para ir na padaria comprar sacolé de frutas quando meu pai não estava em casa. Brincávamos de “fumar” com cigarrinhos de chocolate e colecionávamos as moedas de chocolate porque a embalagem brilhava como ouro.&lt;br /&gt; As velhas coleções de papel de carta também acabaram extintas, hoje as meninas nem sabem o que é isso... frutos de uma suposta evolução que, embora eu seja totalmente entusiasta, olho para minha sobrinha com dó de pensar que ela vai sofrer pressão social para beijar na boca em uma idade em que só pensávamos nas corridas de carrinho miniatura, nos jogos de queimado ou nos passeios da Barbie e do Ken no seu mustang rosa-choque.&lt;br /&gt; Na minha infância também aprendi o valor da palavra, e até hoje mantenho forte o conceito que promessa feita é promessa cumprida, me choca demais ainda perceber que quase ninguém compartilha disso comigo e que muita gente transformou as relações em coisas banais, os sentimentos em coisas banais, e que não é difícil encontrar criança cuja crueldade supera o tocar uma campainha e sair correndo.&lt;br /&gt; Eu mesmo, que já encontrei meus primeiros fios de cabelo branco, caí nas mãos de crianças que não sabem absolutamente nada da vida e que abandonaram a infância para passar horas diante do computador pensando nas maneiras mais eficazes de magoar o maior número de pessoas. Já não se aprendem mais valores, talvez seja esse o principal motivo pela qual não cogito a possibilidade de ter filhos um dia; mesmo sendo fruto da última infância saudável, já sou de uma geração sem tempo, uma geração completamente voltada ao trabalho por saber que, na velocidade como as coisas estão, ou se acelera, ou se fica pra trás.&lt;br /&gt; Então questiono às pessoas da minha geração se ter filhos é realmente uma boa ideia; e isso não é uma campanha anti-natalidade, somente uma constatação: se você não transmitir valores, se você vai deixar seu filho ser criado por professores, você está cometendo um erro. Percebo, entretanto, um movimento oposto, de pessoas que, como eu, enxergaram que estamos indo rápido demais, e parecem querer trazes as décadas passadas de volta. Louvável, porém não muito eficaz.&lt;br /&gt; Naturalmente que uma tela de computador com brilhos e coloridos é muito mais atraente às crianças, lembro que passava horas brincando no meu Pense Bem, que era um protótipo precaríssimo de computador e não era colorido nem nada, mas permitia interação com a tecnologia, e isso era mágico para mim, aquele aparelho cinza que mais parecia uma calculadora gigante mas que respondia aos meus comandos. &lt;br /&gt; Independente das revoluções tecnológicas, é sempre delicioso relembrar uma infância plena, nossos sonhos e brincadeiras, nossos planos, nossa maneira tão peculiar de ver o mundo. Eu só queria não ter precisado perder toda aquela inocência, ela nos fazia acreditar que éramos invencíveis, e só por acreditarmos nisso, acabávamos realmente sendo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-9089136309069210499?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/9089136309069210499/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/02/os-bons-tempos.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/9089136309069210499'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/9089136309069210499'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/02/os-bons-tempos.html' title='Os bons tempos'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-5565754756052996506</id><published>2010-02-14T18:29:00.001-02:00</published><updated>2010-02-14T18:29:57.934-02:00</updated><title type='text'>Reaprendendo a sorrir</title><content type='html'>Confesso, estou reescrevendo esse texto. Ao bem da verdade o carnaval me deixa atordoado, tenho verdadeiro pavor de marchinhas carnavalescas e bundas e peitos desnudos jogados em nossa cara pela televisão. Foi então que em pleno sábado de carnaval, abri uma página em branco para falar do dia em que reaprendi a sorrir. Até aí nada de errado não fosse eu levar o texto original a um dramalhão de novela mexicana que me deixou realmente impressionado com a minha capacidade em transformar até meus melhores momentos em algo tão... denso.&lt;br /&gt; Assim como a vida me deu nova chance, eu resolvi fazer o mesmo com o meu texto: ora, se vou aqui falar de alegria, por que não um texto alegre? Enfim, vinha com meu coração deveras apertado, por perder Aninha, por amar o Ale, por sentir-me um estranho onde quer que eu vá, por sentir-me estranho pelo simples fato de existir. &lt;br /&gt; Ser diferente cansa. Não pertencer a lugar nenhum é algo realmente desestimulante. A gente vai pouco a pouco não vendo mais sentido em continuar lutando, em continuar tentando, levantar a cabeça e dar o passo seguinte. Mas dizem que os dignos acabam por achar um novo caminho. Digno ou não, eu achei o meu.&lt;br /&gt; Eu não vou contar uma historinha bonitinha e ordenada, não vou construir aqui uma narrativa redondinha e bem amarrada, sequer sei se fará algum sentido para quem não esteve lá, mas o fato é que eu estive, e isso fez toda a diferença. Digamos que me jogaram a bóia que eu precisava no meio do oceano, digamos que alguém iluminado me ensinou a nadar, e agora estou mais perto da margem do que jamais estive.&lt;br /&gt; Partindo do princípio para tentar fazer algum sentido: era uma vez um menino triste que reaprendeu a sorrir. Ele não era sempre triste, ele costumava rir da vida e alegrar o dia de quem quer que fosse; ele costumava espalhar alegria e se levantar de todos os tombos que as pedras do caminho lhe proporcionavam. Até que um dia ele não conseguiu mais.&lt;br /&gt; Com os joelhos ralados, as pernas feridas e o corpo cansado, ele ficou lá, jogado no chão, dentro de um buraco raso, fácil de sair para quem ainda tem forças. Ele não tinha. Alimentou-se de suas próprias angústias e dores, viu sua ferida crescer e sua alma murchar, sentiu que ali seu caminho tinha chegado ao fim, e desejou que assim o fosse.&lt;br /&gt; Mas espera! Ele já havia sido exemplo para tantas pessoas pela sua mania de não desistir! Como assim, “acabou”? Não, não acabou, enquanto houver sangue em suas veias, não acabará. E foi assim que ele olhou para cima e viu a luz (não, ele não morreu e sim, é brega pra caramba). Talvez seja desnecessário, depois de todo esse tempo, lembrar que ele tem lutado feito louco pra dar a volta por cima.&lt;br /&gt; Ok, a espera foi longa, mas o momento chegou. Lá estava não apenas uma, mas várias mãos estendidas, mãos estranhas, mas todas dispostas a puxá-lo de volta. Porém, essa história não é um conto de fadas, nem chega perto da fantasia ao qual me habituei viver (sim, trocando de narrador sem aviso prévio), por um milagre delicioso a vida real se tornou muito mais agradável que meus sonhos.&lt;br /&gt; Eu estendi a mão, fui puxado, fui trazido de volta à vida sem pretensões ou expectativas, eu só queria sorrir outra vez, eu só desejava, e como desejava, alguns momentos de paz, uma paz que venho perseguindo há meses sem grandes sucessos, uma chance para respirar fundo sem doer o peito pela agonia que me cercava sem tréguas.&lt;br /&gt; Fui puxado, carinhosamente, amigavelmente. Fui recebido como um igual, e me senti em casa. Como é boa a sensação de ser sentir em casa! Uma vida inteira como um estranho e, num repente inesperado, eu era igual! Com as minhas peculiaridades e esquisitices, mas não mais um alienígena mutante, como eu me sentia a maioria das vezes.&lt;br /&gt; Encontrei sorrisos e graças, e, quando eu menos esperava, lá estava eu, bobo-alegre, sorrindo também. Aliás, cheguei às margens do meu buraco particular já com um sorriso no rosto, se aquela era minha chance, eu a aproveitaria de todas as formas, viveria cada segundo com o máximo de intensidade que pudesse suportar meu corpo cansado, minha alma ferida e meu coração despedaçado.&lt;br /&gt; E o destino prega peças, não precisei mais do que alguns minutos entre gente estranha para sentir os pedaços do meu coração se juntando novamente. As pessoas desconhecidas também, levaram poucos minutos para ganharem um capítulo especial na história da minha vida, e cada minuto com eles fez todo esse percurso doloroso da antes de encontrá-los valer a pena. E se no meu caminho tivessem jardins no lugar de pedras, teria eu vivido esses momentos mágicos?&lt;br /&gt; Certamente bons jardins teriam me poupado muitas lágrimas, muitas tardes cinzas e muitas orações pedindo uma porta de saída, mas acredito em destino e, principalmente, conheço minhas reações; eu certamente não teria redescoberto o caminho dos céus se não tivesse visitado o inferno antes.&lt;br /&gt; Eu estive lá, entre demônios particulares e chamas dolorosas; eu conheci as entranhas do que há de pior no espírito humano. Servi de degrau, empurrei para frente os mesmos que me jogaram para trás. E foi na queda que ganhei força, e foi na força que ganhei uma chance, e foi essa chance que me levou exatamente para onde eu devia estar, exatamente com quem eu devia estar.&lt;br /&gt; Pessoas de carne e osso, pessoas reais, com histórias longas que não se restringem ao tanto que pude conhecê-las. Pessoas que não saíram de meus sonhos, mas que, como bons operários da vida, me ajudaram a construir novas formas de ser feliz, tijolo a tijolo. A obra não está pronta, e espero que nunca esteja, sempre vai haver um caminho que antes eu não conhecia, sempre deve haver o espaço para mais um tijolo.&lt;br /&gt; Meus ganhos não pararam aí. Destaco os iguais porque certamente serão meus pares para a vida, aquelas pessoas que compartilham comigo tanta coisa que parece que tínhamos que estar, de qualquer jeito, um no caminho do outro.  E certamente isso foi grande obra do destino, porque de fato, não creio que poderíamos atravessar a vida toda sem sabermos da existência do outro (depois tem gente que me questiona por acreditar tanto em destino).&lt;br /&gt; Entre tantas coisas incríveis que a vida me presenteou, tinha um mestre. Talvez eu não consiga reunir as palavras certas para falar dele, talvez meu vocabulário não seja rico o bastante para essa missão, porque existem pessoas, poucas pessoas, nesse mundo que tem a capacidade de me deixar sem palavras. Esse mestre é uma delas. Nem que eu tente, disserte por páginas e páginas, fique horas e mais horas aqui, descrevendo-o, não alcançaria o resultado satisfatório. Eu precisava fazê-los sentir a maneira como eu sinto ao pensar naquele alguém que mudou minha vida, pelas pessoas que trouxe pra mim, pelas lições que ensinou, pelos momentos que proporcionou, pela pessoa que é.&lt;br /&gt; Queria muito que minha memória fosse um filme, que eu pudesse rever as cenas dos momentos perfeitos sempre que meu coração apertar de saudade. Queria ter o poder de reviver, fazer tudo outra vez, ver e ouvir tudo outra vez. Cada piada, cada risada, cada conversa, concordância ou discordância. E cada susto também.&lt;br /&gt; Talvez essa história não pareça fazer sentido, mas ela está determinando meu destino, cada novo caminho, cada nova porta a se abrir, meus sentimentos e emoções, tanta coisa nova que eu ainda não me sinto capaz de definir, explicar ou sequer ordenar de uma forma que possa ser compreensível para quem não viveu o que eu vivi.&lt;br /&gt; O que eu consigo dizer, sem medo de me precipitar, é que minha vida mudou, tudo mudou, meu jeito de ser, sentir, perceber a vida, buscar a felicidade, e tudo graças a um mestre e um grupo de pupilos, seus talentos, suas percepções e nossos gostos em comum. Formamos um organismo vivo, e eu me tornei parte dele como um órgão vital, como cada um desses seres incríveis que entraram na minha vida pra ficar.&lt;br /&gt; O dia de amanhã é um completo mistério, mas me sinto muito mais preparado, porque sei que não estou sozinho, certamente nunca estive, mas jamais me senti tão bem acompanhado, afinal, abrir os olhos para a vida não me deu somente meus iguais e meu mestre de presente, mas me fez perceber com ainda mais clareza que permaneci tanto tempo no escuro somente por medo de abrir meus olhos.&lt;br /&gt; Se eu puder resumir esse momento em uma única palavra, embora seja essa uma missão impossível, eu poderia dizer “perfeição”. Como todo momento perfeito, esse momento teve falhas, como acabar, por exemplo, mas os efeitos que isso tudo causou em mim não tem prazo de validade, e não terminarão nunca no que depender de mim.&lt;br /&gt; Cheguei ao final dessa pequena jornada no paraíso com a alma renovada, o corpo agradecido e o coração cicatrizado; não temo o exagero ao dizer que esse mestre e todos aqueles que vieram com ele, salvaram minha vida, que andava tão vazia a ponto de querer se acabar.&lt;br /&gt; Eu saí do buraco, e dei vários passos à frente. Eu me livrei de amarras e me senti livre pela primeira vez em muito tempo. Eu redescobri a beleza de estar vivo, eu reinventei minha história, que passa a ser escrita por várias mãos. Eu reencontrei a felicidade, mesmo que ela não seja eterna, mesmo que eu saiba que meu sorriso não permanecerá para sempre no meu rosto. Meu coração agora bate em gratidão, as palavras me faltam, a emoção me domina, e finalmente eu me sinto parte, e finalmente a vida faz sentido.&lt;br /&gt; Hoje eu estou feliz, hoje eu sou feliz, e é só isso que importa agora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-5565754756052996506?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/5565754756052996506/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/02/reaprendendo-sorrir.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/5565754756052996506'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/5565754756052996506'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/02/reaprendendo-sorrir.html' title='Reaprendendo a sorrir'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-7368116985953878426</id><published>2010-02-07T00:44:00.001-02:00</published><updated>2010-02-07T00:46:25.960-02:00</updated><title type='text'>Abstinência</title><content type='html'>Abstinência é um troço complicado. Vício é um troço complicado. Certa vez conheci uma menina, Luana, que se afundou no mundo das drogas; ela era uma garotinha meiga, amada por todos, mas isso não a bastava, ela queria ser mais, queria fazer mais, queria coisas que a vida real não poderia lhe proporcionar.&lt;br /&gt; Só que a vida real não leva esse nome por nada, leva porque é o que há. Toda fantasia se quebra, se esvazia, se desmancha. Nada que não seja a pura realidade é capaz de sobreviver muito tempo. Pra muita gente dizer isso é praticamente falar em aramaico. Eu sei porque sou uma delas.&lt;br /&gt; Luana era minha vizinha, a conheci antes de cometer o seu grande erro, e era uma menina agradável de se ter por perto, com bom papo, engraçada, enfim, uma pessoa de quem não se espera um destino cruel. Mas foi o que aconteceu, com a ilusão do “ir além” ela se afundou. Não sei dizer o que ela usou, me afastei um pouco dela nessa época por causa das pessoas que estavam sempre por perto, e porque não éramos amigos o bastante para eu assumir riscos com ela.&lt;br /&gt; Lembro-me que não demorou muito para ela assumir um aspecto doente, sempre pálida, magra demais, parecia que poderia cair morta a todo momento. Não lembrava nem de longe a menina linda que ela era quando a vida não era boa o bastante. Me perguntava se ela tinha consciência que sua busca estúpida pelo “algo mais” tirou dela tudo de bom que ela tinha.&lt;br /&gt; Será que ela preferia assim? Será que essa vida de dependência, de desespero pela próxima dose, de vender seus pequenos tesouros a preço de banana pra sustentar o vício, de ser controlada por uma substância química era de fato melhor do que a entediante vida real? Na verdade não, pelo que me falaram na época, ela viu que sua vida estava mais longe ainda de ser o que ela queria, mas vício é vício, e a força de vontade pra superar nem todo mundo tem.&lt;br /&gt; Era assustador, as vezes, chegar em casa e ouvir os gritos dela, quebrando coisas, sem um pingo de controle sobre as próprias emoções; e os pais trancando gavetas com facas, tesouras ou outros objetos potencialmente perigosos, temiam que ele ferisse alguém, porque sabiam que não podiam mais preservá-la, nos lugares onde ela andava era sorte que permanecesse viva.&lt;br /&gt; Foi quando ela foi achada quase morta em um beco que as coisas começaram a mudar, ela quis mudar, quis lutar para pegar sua vida de volta. Eu tinha outras questões na minha vida, também cheia de decisões a serem tomas, também conflituosa, também fora do meu controle, e por isso não acompanhei muito bem o que se passou. Sei que ouvia o choro desesperado dela, os gritos, a agonia, os objetos quebrados no seu descontrole pela dor causada pela desintoxicação.&lt;br /&gt; É, abstinência é um troço complicado. Se ver privado daquilo que, artificialmente, é o que lhe mantém de pé é um desafio para poucos. Luana teve muita dificuldade, mas venceu, ela sobreviveu ao pior que podia ter enfrentado na vida, se livrou das amarras, retomou as rédeas de sua vida, mas sofreu, sofreu muito pra chegar nesse ponto.&lt;br /&gt; Me orgulhei de vê-la sorrindo outra vez, meses depois de sua quase morte, já em um peso humano, sem parecer que poderia quebrar ao menor movimento. Já tinha cor no rosto e  brilho nos olhos, ela havia voltado à vida. Ela ainda estava fragilizada, ainda se sentia perdida e com tudo por fazer. Havia abandonado os estudos e os amigos, teria que começar tudo outra vez e sempre com medo de suas próprias reações. Ela não podia mais confiar em si mesma.&lt;br /&gt; Demorou algum tempo, não vou dizer que foi pouco, mas lembro do dia que vi alguns de seus antigos amigos visitando-a. Sim, ela estava recomeçando, indo aos poucos. Muitos de seus antigos amigos não voltaram, não confiavam nela, não se importavam o bastante para reinvestir em uma amizade com uma dependente química. &lt;br /&gt;Ela podia estar livre das drogas, mas não do vício. O vício é um troço pegajoso, que se gruda e não solta mais, ele caminha de mãos dadas com o viciado, esperando uma brecha, uma oportunidade de empurrá-lo de volta para o buraco. Não é por caretice que se fazem tantas campanhas contra tudo aqui que adolescente tem vontade experimentar, isso porque adolescente agora acreditar que é invencível, imbatível e imortal.&lt;br /&gt;O problema é que essa de viver intensamente procurando na química o elemento ideal é exatamente o que mais prende a pessoa. Toda aquela liberdade que se sonha é convertida em uma prisão sem grades. É no vício que a liberdade tem de fato seu fim, e não o contrário.&lt;br /&gt;Mas não, isso não é uma campanha anti-drogas, somente uma análise de quem está de fora, de quem nunca experimentou nem viu graça nenhuma. E de alguém que sabe da prisão que é estar viciado.&lt;br /&gt;A vida é cheia de vícios, físicos e emocionais, e todo mundo é viciado em alguma coisa, mas nem todo vício é totalmente prejudicial se vivido em equilíbrio. O problema é alcançar o equilíbrio. Eu, no meu vício, não consegui.&lt;br /&gt;Eu sou viciado no homem que eu amo, sou completamente e perdidamente apaixonado pelo Alexandre como se não houvesse nesse planeta outro ser que possa me completar além dele. Ele é minha “droga”, o que me faz sofrer  quando está longe, que me sacia quando está perto e que me faz morrer aos poucos.&lt;br /&gt;Não, o Ale não é um monstro que me faz mal, o que mais me faz mal é o vício, o amor exagerado e doentio que tenho por ele. Foi esse vício que me levou a quase morrer, a quase me privar de minha própria vida no instante que não o tive mais por perto. Sua ausência me fere, sua presença me ilude, sua existência é minha simples razão de ser.&lt;br /&gt;E como uma boa droga (como se uma droga pudesse ser boa, mas...), ele também me deixa em períodos longos e dolorosos de abstinência, em que sinto como se meu corpo pudesse sucumbir à dor. Foi nessas que me tornei extremamente resistente à dor física, porque é suportando o ferimento epidérmico que sobrevivo à dor da alma, aquela que de fato tem o poder de me derrubar.&lt;br /&gt;Eu me machuco sim, porque não há dor que eu me cause que se compare à dor que a ausência dele me provoca. E ele sabe disso. E ele sai da minha vida, me deixa agonizante, morrendo aos poucos, e depois volta, me trazendo à vida ao corpo, uma boa dose de esperança e um medo mortal de perdê-lo outra vez. E outra vez ele se vai, e outra vez meu mundo fica cinza, e mais uma vez eu perco a razão de viver.&lt;br /&gt;Se eu aprendo? Claro que aprendo! E esqueço de novo a cada ação nova dele. Esqueço que ele volta quando ele parte, esqueço que ele some quando ele volta. Esqueço o mundo quando ele ta comigo, até porque o tempo pára, o mundo não gira, os problemas desaparecem, a vida parece mais gostosa quando ele está por perto.&lt;br /&gt;Como uma droga alucinógena, eu me afundo na ilusão de tê-lo para sempre comigo, eu me escondo no doce véu da fantasia, eu viajo na parte mais quente do meu coração. A partida dele funcionaria como uma complicada abstinência, onde estou plenamente consciente que a dor só irá passar quando ele voltar, ou quando eu vencer meu vício. &lt;br /&gt;Eu poderia não recebê-lo de volta, as vezes até acho que é exatamente isso que ele espera de mim, que o force a me procurar, a me pedir pra voltar, mas eu não consigo. Sim, podem me chamar de fraco, mas como posso viver o dia após dia sem aquele que ilumina minha vida, sempre tão sem graça?&lt;br /&gt;Se é para mim um desafio ficar alguns dias sem ele, o que direi de não tê-lo mais de volta? Pessoas que efetivamente me amam, desejam meu vem, desejam que eu possa um dia ser feliz, querem de todas as formas que eu o abandone, que eu não o permita voltar para mim, que vou sofrer no começo, mas certamente muito menos do que já sofri todo esse tempo em que todas as minhas lágrimas foram derramadas por ele.&lt;br /&gt;Eu perdi Aninha, eu ainda não me recuperei totalmente da dor de perder Aninha, seria eu capaz de enfrentar a dor de perder o Ale também? Então tentei imaginar que o Ale seguiu com Aninha para nunca mais voltar, chorei minhas lágrimas de dor da perda real, relembrei em minha memória cada uma de nossas aventuras, poderia inclusive fazer o meu “In Memorian” parte dois, pensando em cada passagem de nossa história de amor que segue ao melhor estilo “entre tapas e beijos”; e de fato confesso que pensei seriamente no assunto, mas o Ale está bem vivo na minha vida e no meu coração.&lt;br /&gt;Ele vem, me pede desculpas, a gente recomeça nossa história, porque nossa história merece sempre novas oportunidades, não é a história mais linda do mundo, mas ta no páreo. E eu também lhe juro mudar esse meu lado bobo, infantil e apaixonado. E não muito depois, lá estou eu no limbo outra vez.&lt;br /&gt;Se vale a pena ou não, não posso dizer; assim como eleve se questionar para onde estamos indo, eu me pergunto até onde meu coração pode aguentar essas idas e vindas, essa mania que meu garotinho tem de não estar sempre por perto. O interessante é que sou forte o bastante para estar firme quando ele volta, mas não para dar um passo à frente, tocar minha vida, realizar meus sonhos, conhecer outras pessoas que possam me amar mais do que ele.&lt;br /&gt;Ele é meu vício, quero poder conviver com ele sem ficar completamente fora de mim, sem perder o controle das minhas emoções, porque temos uma história e sei que teremos um  futuro, mas este depende do que conseguirmos manter de pé sobre o que sentimos um pelo outro. Quero poder estar com ele como um alcoólatra numa noite de ano novo, porque eu sei que a tentação sempre irá existir, dificilmente eu deixarei de desejá-lo, mas isso não nos impede de vivermos esse amor sem loucuras, sem dores ou mágoas.&lt;br /&gt;Mas para chegarmos a isso, preciso que ele deixe de ser vício. E isso não está sendo nada fácil. Admiro Luana. Admiro ex-fumantes, ex-alcoólatras, ex-drogados, ex-obesos, ex-apostadores. Admiro todos aqueles que venceram seus vícios, que redescobriram o prazer de viver em liberdade. Eu consigo, as vezes, sentir um pouco dessa sensação mágica de ser livre, mas esses momentos são cada vez mais raros.&lt;br /&gt;O vício é uma corrente apertada, dentro de uma cápsula com pouco ar para respirar, e uma cápsula de superfície rugosa que impede o viciado de olhar através dela. É assim que eu me vejo; um pobre cego amarrado em suas próprias sensações.&lt;br /&gt;A verdade é que eu vivo em longos períodos de abstinência, e nenhum dele é mais fácil que o anterior, a experiência não tem sido vantagem, basta que me venha à memória o seu sorriso, o seu jeito meigo de dizer meu nome, a sua risada que me faz rir também, ou a lembrança de cada momento feliz que tivemos e pronto, todo o progresso na minha pseudo-desintoxicação evapora, instantaneamente. Basta ele voltar para mim para o tempo parar outra vez, e a vida voltar a ter cor.&lt;br /&gt;Ele não me quer nesse sofrimento, eu sei, mas ele o provoca, e sabe o quanto me dói. Ele não tem sido exatamente uma pessoa exemplar, mas eu também não sou.&lt;br /&gt;Então eu vejo a Luana, cada dia mais forte, vencendo uma etapa de cada vez, e um dia resolvi falar com ela, contei minha história e ela entendeu na hora minha comparação. Eu perguntei como ela sobreviveu ao vício, como ela superou a abstinência, como ela conviveu com a dor a ponto de hoje ser uma vitoriosa com uma vida inteira pela frente. E ela me respondeu:&lt;br /&gt;- Seu vício ainda não lhe machuca mais do que lhe dá prazer. Eu enxerguei que precisava enfrentar a abstinência e viver sem o meu quando o “barato” já não era o bastante e me fazia precisar de mais, e precisando de mais eu precisei roubar da minha família pra comprar, e usando mais eu quase me matei. Havia claramente mais dor do que prazer. E você?&lt;br /&gt;- Eu sofro, eu choro, eu agonizo. Mas quando ele volta, isso acaba. Na hora.&lt;br /&gt;- Ele é uma pessoa, não uma substância que vai matando seu corpo, vai realmente te tirando a vida aos poucos, não o encare de forma não veemente como uma droga. Se o prazer de estar com ele é maior do que a dor de perdê-lo, não se prive disso. Não precisa, você pode tê-lo por perto sem que isso determine o rumo da sua vida.&lt;br /&gt;- Mas não deixa de ser uma abstinência, hoje ele é minha razão de viver. Você sugere que ele se torne somente uma pessoa especial na minha vida, como outras que tenho.&lt;br /&gt;- Sim, livre-se do vício, mas não da substância. Aproveite que você tem condições. Eu não posso reviver o “barato” de vez em quando só pra matar a saudade, eu tenho que ficar longe da droga pra sempre. Você pode ter seu “barato” sempre que quiser sem que isso destrua a sua vida de novo, basta que o coloque no lugar certo dentro do seu coração.&lt;br /&gt;Me livrar do vício sem me livrar da substância. Me pareceu uma boa ideia. &lt;br /&gt;Luana se tornou uma boa amiga. Não andamos juntos nem passamos horas e horas de papo, mas nos damos bem, converso com ela sempre que surge uma oportunidade, o que não é sempre, mas gosto da maneira como ela tem visto o mundo depois da sua triste experiência no inferno.&lt;br /&gt;Quanto à mim? Bom, eu tenho fé que vencerei um dia meu vício, que eu e o Ale possamos ser felizes juntos, como os bons amigos que sempre fomos, sem que ele me torture nem eu me permita ser torturado. De resto, fico ouvindo aquela canção... “e essa abstinência uma hora vai passar...” esperando que ela tenha razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;*Canção: “Na sua estante” - Pitty &lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-7368116985953878426?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/7368116985953878426/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/02/abstinencia.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/7368116985953878426'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/7368116985953878426'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/02/abstinencia.html' title='Abstinência'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-5328253731692603045</id><published>2010-01-23T23:40:00.000-02:00</published><updated>2010-01-23T23:41:13.398-02:00</updated><title type='text'>A carta que nunca mandei</title><content type='html'>Alexandre, durante todo esse tempo que nos conhecemos, as nossas noites tão únicas, tão puras, me mostraram, e a todos que conhecemos, que amor verdadeiro não depende daquilo que a sociedade acredita, ou prega como ideal. Ideal é você ser a luz do meu dia e eu ser sua lua cheia, ideal é olhar para você sempre como se fosse a primeira vez, o ideal é que cada beijo seu me arrepie, que nunca vire rotina, que nunca perca a graça me perder em teus braços.&lt;br /&gt; Jamais imaginei que o amor pudesse ser fácil, jamais defendi que podíamos simplesmente sair por aí abraçados sem que isso fosse visto quase como um crime, mas sei, e como sei, meu amor, que amar vale a pena, que amar você vale a pena. Não me importa o que dizem os preconceituosos, não me importa o que nossas famílias e amigos possam pensar da nossa história, eles não estarão lá quando o mundo se resumir a você e eu.&lt;br /&gt; Ale, meu querido menino de cabelos de fogo, sabes que meu coração é teu, sempre foi e sempre será, mesmo que teus medos e receios por tantas vezes tenham-no ferido, teu carinho é sempre a cura das minha dores, porque teu amor é minha fonte vital, teus beijos meu combustível, teu corpo junto ao meu a única coisa que eu preciso para enfrentar o mundo e jamais ter vergonha de dizer que te amo.&lt;br /&gt; E como te amo! Posso bradar ao mundo que sou um homem apaixonado. Sou um homem completamente entregue ao amor por outro homem, mas antes de tudo, outro ser humano. Que importa se somos tão semelhantes? O que nos une é muito mais do que um laço social, é algo que esses hipócritas que nos julgam certamente jamais poderão entender.&lt;br /&gt; O que importa o que pensam aqueles que não amam? Mais importante que isso é meu coração batendo mais forte quando te vejo de longe, minhas pernas ainda serem capazes de tremer com o teu perfume mesmo que já tenhamos vivido tanta coisa juntos. O que importa é o teu rubor quando beijo-lhe o pescoço, seu sorriso tímido quando digo que és meu sol, que não há criatura no mundo que se iguale a você, seu jeitinho doce, seu ar angelical e sua inesgotável fonte de pequenas alegrias.&lt;br /&gt; Meu amor, eu enfrentaria a ira dos deuses para estar contigo, eu enfrentaria tempestades para que meu calor não te faltasse numa noite fria, eu abandonaria tudo para poder amá-lo, porque não há nada nesse mundo que me seja mais importante do que o meu menino, o meu Ale.&lt;br /&gt; Lembro em detalhes cada momento que vivemos juntos, desde o banho de chuva em que aconteceu nosso primeiro beijo, lembra-se? Estávamos só nós dois diante daquele lago quando caímos na lama, seus cabelos de fogo ficaram marrons e eu te beijei. Você me puxou ainda mais forte ao seu encontro, e depois foi a vez de você beijar-me dentro do lago, debaixo de chuva.&lt;br /&gt; Ou então aquela desastrosa noite, logo após os seus 20 anos, que bebemos vinho e eu te possuí pela primeira vez. Você partiu meu coração no dia seguinte e eu tanto lutei que quase consegui ser levado da vida para muito longe de você. Mas você estava lá, com lágrimas nos olhos quando acordei naquela cama de hospital.&lt;br /&gt; Jamais serei capaz de esquecer, tanto tempo depois, do dia que entraste em minha casa sorrindo, me contando que enfim se assumira para poder ser meu, oficialmente meu, e aquele pequeno apartamento com vista por mar quando vivemos enfim nossa primeira noite de amor como um casal apaixonado.&lt;br /&gt; Recordarei cada minuto, cada beijo, cada abraço, cada vez que nos tornamos um só e provamos para nós mesmos que não há nada nesse mundo que combine melhor do que nós dois juntos.&lt;br /&gt; Por favor, Alexandre, perdoe minhas falhas, não sou perfeito, talvez seja até pouco demais para você e suas sardas, mas lhe abro meu coração dizendo-lhe que minha alma lhe pertence, e que irei com você para onde você for, ou ficarei incompleto se meu corpo não puder encontrar o seu, se sua voz tão doce não puder mais inundar meus ouvidos com a sua graça.&lt;br /&gt; O que seria de mim sem teu toque? O que seria da minha vida sem a sua existência? Eu não viveria, tenho certeza, eu somente sobreviveria, acordaria toda manhã pela simples necessidade de impulsionar meus músculos, respiraria somente porque meu corpo me exigiria essa ação. Mas que graça teria não contrair os músculos a cada risada dos nossos melhores momentos, ou amando você? Que graça teria mandar ar para meus pulmões se não fosse na forma de suspiros? Suspiros pela tua beleza que ainda me impressiona, mesmo sendo eu capaz de descrever cada milímetro do teu corpo de olhos fechados.&lt;br /&gt; Não há passagem de tempo que leve para longe de mim cada pequena sensação que me provocavas no começo, porque isso é amar, não é? É a capacidade de jamais perder a graça, de jamais deixar de ser incrível mesmo que seja hábito, é jamais deixar de querer estar perto mesmo depois de anos e mais anos unidos. É não se cansar jamais.&lt;br /&gt; Hoje sinto sua falta, por teu corpo estar tão longe do meu, mesmo que teu coração esteja comigo. Sinto-me vazio por não sentir tuas mãos no meu rosto, ou por estar privado do seu sorriso que sempre me faz derreter. Mesmo sabendo que não deixaste de me amar, mesmo sabendo da sinceridade de teus sentimentos, a tua ausência me machuca como uma faca que dança do meu peito, achando graça da minha dor. Teu olhar sério, teus lábios que por tantas vezes tocaram os meus, teu calor que por tantas vezes interrompeu noites frias.&lt;br /&gt; Você. Todo você. Mesmo seu mau-humor, mesmo as suas birras, mesmo os assuntos proibidos ou seu humor perverso de vez em quando. Você, todo você, com cada defeito, com cada problema, com cada conflito, com sua imensa resistência na arte de ser feliz, com suas preguiças e até seu comodismo que por tantas vezes me levou à loucura. Mas é você, isso basta para que eu ame sem questionamentos ou queixas.&lt;br /&gt; Meu amor, minha jóia rara, esqueça o mundo, esqueça as regras, esqueça o que lhe dizem sobre certo e errado. Errado é deixar de ser feliz em nome de bobagens sociais, errado é ser privado dos seus sonhos e das suas fantasias porque alguém lhe disse que seu jeito de amar não é o jeito natural. Jeito natural de amar é amar de verdade, é cultivar bons sentimentos, é desejar e respeitar o outro acima de tudo. E nós nos amamos do jeito certo.&lt;br /&gt; Leve meu coração para onde fores, ele lhe pertence e a mais ninguém. Sinto tanto a sua falta como se me faltasse ar nos pulmões, como se o céu azul virasse cinza e tudo perdesse o sentido só por não estares aqui, porque meu conceito de viver só será pleno se puder viver com você.&lt;br /&gt; Te amo, com cada célula do meu corpo; te amo da maneira mais forte e avassaladora com que um homem é capaz de amar outro alguém. Minha vida, minha alma, meu futuro lhe pertence.&lt;br /&gt; Do seu, e para sempre seu, Erich.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P.S.: Cheguei a dizer que te amo?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-5328253731692603045?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/5328253731692603045/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/01/carta-que-nunca-mandei.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/5328253731692603045'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/5328253731692603045'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/01/carta-que-nunca-mandei.html' title='A carta que nunca mandei'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-3158287995690875082</id><published>2010-01-17T03:13:00.000-02:00</published><updated>2010-01-17T03:14:33.686-02:00</updated><title type='text'>Esse tal de “e foram felizes para sempre”</title><content type='html'>Ele era doce como poucos que havia conhecido na vida. Era um garoto franzino, de olhos miúdos mas muito atento, ele sabia o quanto era motivo de piada por muita gente e fingia não se importar enquanto seu coração sangrava. Ele quase nunca levantava a cabeça, como se temesse tropeçar a qualquer momento, mas andava tropeçando na vida, sempre sem saber exatamente para onde ir, para onde correr.&lt;br /&gt; Um dia ele se apaixonou por ela, uma menina que eu costumava encontrar nos bares que frequentava, ou seja, ela era impossível para ele, mas quem disse que isso o impedia de sonhar com ela? Nunca, até porque isso não é bem o tipo de coisa que podemos controlar, eu que o diga com minha relação tão complicada e sofrida com o Ale, que parece as vezes se divertir enquanto me fere de todas as formas que se pode imaginar.&lt;br /&gt; Então ele se aproximou de mim. Eu não sou do tipo que pensa que todo menino que chega perto quer ter algo comigo, mas ele realmente não soube se aproximar e eu cheguei a pensar em como dispensá-lo sem gerar mais dor, ele estava claramente sofrendo, até ele me dizer :&lt;br /&gt; - Existe cura?&lt;br /&gt; Naquele momento eu tive que me segurar para não rir, ele parecia realmente esperar que eu dissesse que sim, e foi então que eu senti pena dele.&lt;br /&gt; - Cura? Você está falando do fato de eu ser gay? Não é doença para ter cura, meu jovem.&lt;br /&gt; Vi seus olhos se encherem de lágrimas, como se eu estivesse lhe dando a pior notícia de todos os tempos. Ele saiu de perto de mim, em alta velocidade, rumo ao banheiro da  escola. Eu sequer imaginava o nome do menino, ele não era da minha turma, mas tinha curiosidade de conhecê-lo melhor, parecia ser boa pessoa, porém eu era o único menino gay assumido da escola, eu temia me aproximar dele pela reação dele comigo e pela reação dos outros com ele depois.&lt;br /&gt; E como é machista esse mundo, ela não sofria o mesmo preconceito que eu, ao contrário, os meninos todos morriam de curiosidade de estar perto dela, tem toda aquela história dos meninos sonharem com duas mulheres dividindo os mesmos lençóis. Mas as situações se invertiam, muitas meninas queriam ser minhas amigas e fugiam dela. E talvez exatamente pelo jogo de interesses que acontecia conosco é que acabamos nos isolando, cada um num canto, sem mais ninguém ao redor.&lt;br /&gt; Eu sabia que o garoto da outra turma era louco por ela e sentia pena dele. A essa altura ainda achava que o Ale era hétero e realmente é dolorido gostar de alguém que jamais será seu, e alguém que muitas vezes finge nem saber que você existe ou tem qualquer importância na vida dela.&lt;br /&gt; É, eu podia compartilhar a dor que ele sentia, a nossa diferença é que era tudo muito novo para ele, e eu vivenciava aquela experiência há uma vida inteira. E foi exatamente por isso que me aproximei dele dias depois, e eu sequer sabia seu nome.&lt;br /&gt; - Oi, eu sou o Erich.&lt;br /&gt; - Eu sei, todo mundo sabe seu nome. – Fiquei sobressaltado com o comentário, não me julgava assim tão popular.&lt;br /&gt; - Não sabia disso. E você, como chama?&lt;br /&gt; - Na verdade eu te conheço como Erica, não sabia se era Erich ou Erico seu nome. E bom, eu me chamo Michel.&lt;br /&gt; - É, me chamo Erich mesmo. Prazer Michel. – Estendi a mão para cumprimentá-lo, mas ele não correspondeu ao meu gesto. – Algum problema?&lt;br /&gt; - Eu... não posso. Desculpe.&lt;br /&gt; - Preconceito?&lt;br /&gt; - Claro que não. Eu só não pertenço.&lt;br /&gt; - Não pertence onde?&lt;br /&gt; - No seu universo... no dela... você sabe de quem eu estou falando, não sabe?&lt;br /&gt; - Até sei, mas preciso te lembrar que nosso universo é o mesmo que o seu, somos ambos humanos. E terráqueos.&lt;br /&gt; - Mas eu nunca vou poder fazer parte da vida dela...&lt;br /&gt; - Não podes ser amigo dela?&lt;br /&gt; - Se você fosse apaixonado por um hétero, acharia legal a possibilidade de ser somente amigo dele?&lt;br /&gt; Não, pensei eu, não acharia legal, não achava legal porque era exatamente aquilo que eu estava vivendo. Eu não falaria isso pra ele, tudo o que ele precisava era de um apoio, e não ser empurrado mais para baixo ainda.&lt;br /&gt; - Eu não sei bem o que te dizer, ela de fato dificilmente vai ficar com você, a menos que ela seja bi, o que eu acho pouco provável pelas vezes que eu encontrei ela nos bares e festas, mas posso te oferecer a minha amizade, para que não enfrente isso sozinho.&lt;br /&gt; Eu não sabia exatamente o que estava fazendo, mas me sentiria mal em simplesmente levantar daquele banco, no recreio da escola, e deixar aquele garoto tão sentimental imerso sozinho na sua dor de amor impossível, fiquei realmente desejando poder fazer algo concreto por ele, mas jamais me atreveria a tentar convencer a menina a dá-lo uma chance, como eu jamais teria dado uma chance a qualquer menina independente da força do seu sentimento por mim.&lt;br /&gt; - Eu agradeço sua gentileza, Erich, mas eu preciso dela, do coração dela, espero que não se ofenda com isso.&lt;br /&gt; Não tinha ofendido, tinha me feito pensar. Será que é possível ficar realmente satisfeito com uma amizade quando tudo o que se quer é o amor? Será que um abraço carinhoso pode ser tão satisfatório quanto um beijo na boca? Eu não o respondi, permaneci ali parado, sentado sem esboçar grandes reações. Estou certo que ele entendeu que tinha razão, ele estava dividido entre o amor que sentia e o medo de não tê-la por perto da forma como fosse.&lt;br /&gt; Quando deu o sinal, voltei à sala de aula e ela me procurou, já sabia do amor de Michel por ela, e sentia o peso da responsabilidade de precisar dizer não à alguém tão doce, tão querido.&lt;br /&gt; - Ele falou com você, não foi?&lt;br /&gt; - Eu falei com ele na verdade, ele gosta mesmo de você, mas o aconselhei a tentar ser seu amigo. Não acho que ele tenha gostado da ideia.&lt;br /&gt; - Eu imagino que não, ele é todo sozinho, não acho que vai lutar pra ter minha amizade quando quer ter meu amor.&lt;br /&gt; - E você nem cogita?&lt;br /&gt; - Você cogitaria qualquer uma dessas meninas?&lt;br /&gt; Mais uma vez fui silenciado pela realidade, Alice, minha amiga lésbica, sabia um pouco da minha história com o Ale, e também acreditava que ele era hétero. Não, não cogitaria, isso era algo tão óbvio para mim quanto é para a sociedade um casal com um homem e uma mulher.&lt;br /&gt; Naquele final de semana, entretanto, tivemos ambos uma grande surpresa. Com essa história do Michel acabamos nos tornando amigos, e combinamos de ir juntos a um bar, onde cada um arranjou seu par. Ainda não era meia noite quando Michel entrou no recinto. Ele era inconfundível com seu olhar perdido e sua cabeça baixa, e foi logo notado por alguns outros rapazes que estavam por lá.&lt;br /&gt; Como o local era específico para gays, ele levou algumas cantadas com seu jeitinho tão doce e suave, então o resgatei trazendo-o para nossa mesa, onde ele foi obrigado a enxergar a realidade nua e crua, Alice estava acompanhada de outra moça, e ela decidiu que não ficaria disfarçando para não machucar o garoto, ele sabia da verdade e estava no ambiente dela. &lt;br /&gt; O meu par ficou atônito com a situação, especialmente porque não tive tempo de explicá-lo, e custou para aceitar a presença de outro homem em nossa mesa, até que o próprio Michel decidiu falar.&lt;br /&gt; - Não se preocupe. O Erich é somente um bom amigo, nada mais, eu vim por causa dela. – Apontou Alice com a cabeça. – Eu a amo e precisava ver com meus próprios olhos que não tenho armas para lutar pelo coração dela. Eu precisava ter certeza que não a estou perdendo por não ser um homem bom o bastante, mas por ser um homem. Eu queria acreditar que eu mereceria seu amor se a natureza não nos tivesse pregado uma peça.&lt;br /&gt; Michel estava à beira do choro, olhando fixamente para a mão de Alice entrelaçada na mão de sua companheira. Eu o admirei pela atitude, pela coragem, por enfrentar a realidade que lhe era tão dura com tamanha dignidade. Alice resolveu falar.&lt;br /&gt; - Olha Michel, eu não me sinto vítima da minha natureza, não acho que ela me pregou uma peça porque sou feliz como sou, mas confesso que você conquistou muito meu respeito em vir até aqui para ser sincero comigo.&lt;br /&gt; - Eu to é chocada que ele não está aqui tentando arranjar uma aventura com duas mulheres. – Completou a companheira de Alice.&lt;br /&gt; Alice o olhava com carinho, e ele lhe retribuía o olhar. O clima tenso foi quebrado e seguimos a noite conversando os mais diversos assuntos, e Michel até conseguiu disfarçar o estranhamento ao ver quando beijei meu companheiro e Alice beijou a sua. Ele estava sofrendo sim, não havia como negar, mas talvez aquele momento tenha-lhe aberto a mente, e respeitar a orientação dela foi um excelente primeiro passo.&lt;br /&gt; Na semana seguinte, na escola, Alice o procurou no recreio e ficaram todo o período conversando, algo que se tornou rotina, muitas vezes comigo incluído. Ele trocou para nossa turma e acabamos virando um trio, com ele realmente nem um pouco preocupado com os comentários que faziam por minha causa, ele havia se tornado meu amigo.&lt;br /&gt; Claro que na ótica dele essa história não pode ser vista com um final feliz, ele jamais teve em seus braços a menina pela qual ele se apaixonou com tanta força e sinceridade, mas nem sempre o final feliz é aquele que a gente enxerga quando a história começou. Eu o via pouco a pouco se conformando com a ideia do amor impossível e o admirava, ele enfrentava tudo isso com uma força que sua doçura não deixava transparecer. &lt;br /&gt; Na batalha entre o amor e a perda, ele aceitou tê-la somente como amiga, afinal, se o amor era tão sincero, não fazia sentido sair da plenitude para o nada, e logo ele se tornou um parceiro dela para tudo, viraram irmãos de alma, de coração, de vida. &lt;br /&gt; Eu aprendi a enxergar que o final feliz não é o óbvio, nesse caso não haveria final feliz mais apropriado que ela se descobrir hétero e ficar com ele, olhando de um ponto de vista simplista e superficial, mas não era isso que o destino queria para os dois, até porque esse definitivamente não era o final feliz do conto de fadas dela, parte importante dessa história.&lt;br /&gt; Mas eu não consigo simplesmente dizer que ele não conseguiu o que ele queria, ele não conquistou o amor de sua donzela, ele não a carregou para o altar e nem vivem felizes com seus filhos em uma casinha amarela com cerca de madeira branca. Eu preciso mostrar o quanto o destino tem suas artimanhas, então que tal saber o que houve com Michel e Alice?&lt;br /&gt; Alice ainda está solteira, não encontrou sua cara-metade, como eu, mas não desistiu nem se sente infeliz por isso, está aí, na luta, é instrutora de academia, aguenta cantada de macho sarado o tempo todo, mas sabe sorrir como ninguém, e por isso mesmo tenho certeza que ainda vai encontrar a mulher de seus sonhos.&lt;br /&gt; Michel foi uma grande surpresa, formou-se em direito, tornou-se ativista dos direitos dos homossexuais e se casou com uma juíza federal, juntos tem um casal de gêmeos e moram em uma belíssima cobertura com seu yorkshire. Michel, desde sua amizade comigo até seu trabalho atual em prol dos homossexuais é constantemente alvo de piadas, mas ele sabe que quando chega em casa encontra sua esposa, uma mulher de parar o trânsito, e que ela sabe muito bem qual é a sua preferência.&lt;br /&gt; Michel e Alice seguem muito amigos, confidentes, irmãos. Eu tenho contato com ambos, e as vezes nos reunimos para lembrar tantas coisas que se passaram nesses anos de amizade. Mas isso é tema para tantas outras histórias...&lt;br /&gt; O que vale para agora é a lição que ficou, que as vezes as coisas parecem tão injustas, como pareceram para o Michel ao se apaixonar por Alice, mas tudo tem seu motivo e seu tempo. As vezes o final feliz é muito diferente daquele que planejamos, lutamos, mas nem por isso menos especial. Nem por isso menos... feliz. O final feliz na verdade depende somente de uma coisa: estar preparado para o que o destino nos reserva, estar disposto a receber com carinho aquilo que nos é destinado, essa é a única maneira de reconhecer a felicidade quando ela acontece.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-3158287995690875082?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/3158287995690875082/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/01/esse-tal-de-e-foram-felizes-para-sempre.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/3158287995690875082'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/3158287995690875082'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/01/esse-tal-de-e-foram-felizes-para-sempre.html' title='Esse tal de “e foram felizes para sempre”'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-8237024565991345490</id><published>2010-01-10T14:50:00.002-02:00</published><updated>2010-01-10T14:53:03.934-02:00</updated><title type='text'>Utilidade pública</title><content type='html'>Queridos leitores,&lt;br /&gt;Venho nesse post compartilhar algo realmente desagradável: o blog foi denunciado por supostamente conter material impróprio para menores. Por não ser de toda verdadeira a acusação, é possível que nada aconteça. Mas, caso o blog venha a ser tirado do ar, esclareço-lhes que não terá sido por decisão minha.&lt;br /&gt;Obrigada pela atenção e carinho. O conto da semana segue logo abaixo!&lt;br /&gt;Abraço,&lt;br /&gt;a autora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-8237024565991345490?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/8237024565991345490/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/01/utilidade-publica.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/8237024565991345490'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/8237024565991345490'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/01/utilidade-publica.html' title='Utilidade pública'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-3957157923371795570</id><published>2010-01-10T01:45:00.000-02:00</published><updated>2010-01-10T01:46:12.959-02:00</updated><title type='text'>A flor e o abismo</title><content type='html'>A sensação da beira do abismo é algo completamente paradoxal. Você sente um misto de risco iminente e liberdade plena. O vento que refresca o seu calor naquele momento é o mesmo que pode te desestabilizar e te empurrar para o vazio. A queda livre que te faz voa é a mesma que, por força da gravidade, te leva ao chão e ao derradeiro destino final.&lt;br /&gt; Bom, paradoxos estão ao nosso redor o tempo todo, todos vivemos em constante dualidade entre algoz e vítima, e, em geral, não enxergamos com facilidade nosso lado algoz, afinal, quem iria admitir sem certa relutância, que já fez alguém inocente sofrer por puro capricho? &lt;br /&gt; Ok, tem às pencas pessoas que torturam outras por pura diversão, eu conheço algumas por sinal, e infelizmente conheço de experiência, de sentir na pele que tem gente má por aí. Mas não é bem disso que eu queria falar agora, eu quero falar do algoz não intencional, ele não quer nosso mal, mas por algum motivo que não sabemos qual, ele consegue um efeito muito mais devastador do que aquele que planeja o nosso mal.&lt;br /&gt; Ele é a nossa beira do abismo.&lt;br /&gt; Tem uma teoria que fala que a flor que mais nos atrai é a que tem o maior número de espinhos, ou está plantada no canteiro mais perigoso. Eu acho uma teoria válida, de verdade, porque é bem assim que a vida funciona. Temos um canteiro imenso cheio de rosas, mas a única que enxergamos a beleza é aquela que nos fere o dedo se tentamos pega-la. Ela não quer estar perto de nós, que se manter parada, estática, cômoda em sua raiz.&lt;br /&gt; Mas ao contrário do objeto de metáfora, o que queremos não é tirar a bela flor de onde ela pertence, somente torná-la parte de nossa vida. E o que tem de errado com isso? Tudo. Estar na beira do abismo é, acima de tudo, saber que a melhor paisagem também cobra seu preço. Querer a flor mais cheia de espinhos é saber que as feridas virão enquanto considerarmos que aquela flor vale o sacrifício.&lt;br /&gt; Então chega um momento que nem mesmo nós mesmos sabemos de onde vem tanta vontade, e tanta força para se recusar a desistir. E não importam quantas perguntas façamos, não teremos essa resposta. Por que aquela flor é a mais bela aos nossos olhos? Alguns dirão que é puro masoquismo nosso, que a escolhemos porque é a mais perigosa, é a que vai nos ferir, nos fazer sangrar, é a que nunca poderá nos pertencer.&lt;br /&gt; Mas eu tenho um ponto de vista mais otimista sobre isso: empatia. Aquela flor é a mais bela para nós pela maneira como a percebemos, outras pessoas poderão discordar de nós, muitas certamente o farão assim como muitas desejarão disputar conosco a posse daquela flor. E no fim alguém se tornará dono dela, a gente sabe disso, e machuca mais do que os espinhos a certeza de que estamos perdendo essa batalha.&lt;br /&gt; Estar na beira do abismo é basicamente aceitar riscos, é saber que a qualquer momento nosso passeio pode não terminar bem, mas ser suficientemente viciado na paisagem, na adrenalina do risco, para ignorar as consequências de andar sempre no limite. No limite entre a sanidade e a loucura, a amizade e a traição, o amor e o ódio.&lt;br /&gt; Todos os extremos são ligados de alguma forma, todos os loucos são sadios as vezes e todos os sadios fazem loucuras; toda a amizade tem riscos, e toda hostilidade pode ser revertida; quem ama demais odeia o que não lhe agrada no ser amado, quem odeia demais, tem um amor nem tão escondido dentro do coração.&lt;br /&gt; Esse monte de clichês na verdade são uma forma meio falha, meio forçada da minha parte de tentar entender exatamente o que se passa na cabeça daqueles que nos fazem sofrer. Não tem como sabe, e, dependendo quem for o algoz, nem ele sequer imagina quantas lágrimas arranca de nossos olhos. &lt;br /&gt; Mas de uma coisa não tenho a menor dúvida: é preciso coragem para se colocar à beira do abismo, é preciso tolerância à dor para investir na flor mais cheia de espinhos. Não importa o quanto sangre, não importa por quantas vezes estivemos muito perto da queda livre, o que importa são as sensações: a sensação de prazer no vento e no risco do abismo, a sensação de prazer na beleza e na dor da flor. Existem as mais diversas formas de prazer, e por mais que negamos que a dor seja uma delas, não insistiríamos no que nos machuca se não houvesse no ferimento algo para compensar o esforço.&lt;br /&gt; Porém, tudo o que é efêmero se encerra, então restamos nós e o abismo, restamos nós e a rosa com espinhos. A adrenalina já não nos acompanha, o vício não nos domina, enfim nos tornamos senhores de nossa própria vontade, de nossa própria vida. As cicatrizes ainda estão nos dedos, mas as dores vão se tornando lembranças remotas, então fica a pergunta: será que é nesse momento que estamos realmente prontos para observar a beleza da flor como deve ser observada? Ou será que é nesse momento que a flor perde a graça e corremos para outro jardim?&lt;br /&gt; Será que amadurecemos o bastante pra entender que o vento alcança regiões mais seguras do abismo e a paisagem não é prejudicada se ficarmos mais pra trás? Ou será que nesse momento o abismo deixa de ser interessante pra nós?&lt;br /&gt; Será que tudo é uma questão de maturidade e de aprender a observar da maneira correta?&lt;br /&gt; Claro, se transportarmos isso para a vida real, pessoas reais, pode até soar um pouco cruel, mas todas as relações humanas tem seu toque de crueldade, por mais honestos que possamos ser com os outros, todas as relações tem essa coisa de perdas e ganhos, e quem quer ser o que perde?&lt;br /&gt; Buscamos no outro o preenchimento dos nossos espaços vazios e não raro ignoramos o desejo ou interesse do eleito em ocupar esse vácuo; esperamos que o escolhido se sinta honrado quando na verdade nossa atitude poderia estar privando-o de sua individualidade, sua identidade, seu direito de não fazer parte daquilo que consideramos irresistível. E quando nossas tentativas tornam-se em vão, questionamos não o que fizemos de errado, mas como o nosso eleito não enxergou a imensa oportunidade que demos a ele.&lt;br /&gt; Mas tudo tem um outro lado, as vezes a flor que nos fere espera pelo dono ideal que não vai aparecer, as vezes ela não sabe valorizar o quanto ela seria mais importante do nosso jardim do que em qualquer outro, as vezes é a flor que não está conseguindo enxergar o quanto valeria a pena encher nossa vida com a sua beleza.&lt;br /&gt; Seja como for, tudo é um aprendizado, cada cicatriz das rosas que tentamos colher nos deixa uma marca mais profunda que simplesmente uma mancha na pele, as pessoas que entram na nossa vida tem uma razão de ser, sempre tem. As vezes elas entram cedo demais, ou simplesmente no momento errado, elas ainda não estão prontas para fazerem parte da nossa história; as vezes romantizamos demais, talvez elas não foram feitas para pertencer à nossa história, talvez aquela rosa não tenha o perfume que nossa casa merece.&lt;br /&gt; Porém nos sentimos enfeitiçados, tentados a colher a flor, tentados a abrir os braços com os dedos dos pés já suspensos no ar daquele abismo. E assim como a flor tão bela pode ferir, o abismo tão inspirador pode matar.&lt;br /&gt; Como toda boa metáfora, sinto-me colhendo minha bela flor à beira do abismo, coloco minhas mãos sobre o caule, seguro com força sentindo as gotas quentes do meu sangue que escapa da pele ferida, o sangue que escorre pelas mãos e mancha a grama outrora tão verde. Eu ignoro a dor que os espinhos me causam, eu lamento por ela me machucar tanto, afinal, não quero fazer mal à minha amada flor, mas ela me fere sem dó.&lt;br /&gt; Mas o pior ainda está por vir, minha amada flor não há de ceder às minhas tentativas de conquistá-la, e pode fazer com que eu, no esforço, me veja flutuando no ar até que a força da gravidade me leve para sempre ao fundo do abismo, que não me restem forças, ou sequer uma vida para uma nova colheita. Enquanto tudo o que mais desejava era tirar a flor desse lugar tão perigoso e poder com ela, protegida ao meu lado, começar um novo jardim, com ela brilhando, a mais bela flor, a mais especial e amada de todas.&lt;br /&gt; Ela não quer. O que fazer então? Alguns poderiam me aconselhar a desistir, mas... como desistir se o meu coração diz que ainda vale a pena?&lt;br /&gt; Viver à beira do abismo é mesmo paradoxal. Talvez somente eu possa ver que lindo é o horizonte, talvez somente eu possa sentir o vento suave. E por outro lado, somente eu vivo o perigo constante de estar na linha, na borda entre o ser e o não ser. Por outro lado, eu preciso cuidar cada passo que dou, pois sair um centímetro do caminho certo me pode ser fatal.&lt;br /&gt; E que os anjos se apiedem de nossas almas, pobres mortais condenados a amar demais, e a desejar sempre aquilo que não nos pertence.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-3957157923371795570?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/3957157923371795570/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/01/flor-e-o-abismo.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/3957157923371795570'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/3957157923371795570'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/01/flor-e-o-abismo.html' title='A flor e o abismo'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-5542934087140076600</id><published>2010-01-02T19:25:00.000-02:00</published><updated>2010-01-02T19:26:26.744-02:00</updated><title type='text'>Prevendo o futuro</title><content type='html'>Ok, preciso fazer uma confissão: eu não faço a menor ideia do que exatamente contar a vocês dessa vez. Pensei em relembrar algum réveillon antigo, relatar velhas aventuras de uma infância e adolescência repletas de histórias. Bom, na verdade não me faltariam mesmo histórias para contar, mas quem sabe eu aproveito esse espaço para falar um pouco do futuro?&lt;br /&gt; Não, não sou vidente nem o feliz proprietário de uma bola de cristal, quando falo em contar o futuro, falo simplesmente dos meus sonhos, daquilo que eu efetivamente gostaria que acontecesse, tudo o que não ultrapassa a barreira da ilusão perfeita. Tudo começa lá pela segunda semana de janeiro, quando meu telefone, já há tanto perdido pela falta de procura, finalmente toca.&lt;br /&gt; - Erich? Estás na cidade ou no litoral?&lt;br /&gt; - Oi Aninha! Estou na cidade, litoral agora só no carnaval...&lt;br /&gt; - Ah, parece chateado por isso! Mas não fique triste, vamos compensar, que tal?&lt;br /&gt; - Parece ótimo? Isso é um convite para o que exatamente?&lt;br /&gt; - Um chopp, hoje de tarde, que tal?&lt;br /&gt; - Combinadíssimo!&lt;br /&gt; E que tarde bem agradável! Aninha contando-me de seu final de ano, seus sonhos e projetos, pedindo conselhos, abrindo seu coração, confiando em mim como há tempos não acontecia. Rimos até doer a barriga, compartilhamos sonhos e juramos que jamais deixaria de ser assim, perfeito.&lt;br /&gt; Naquela noite dormi rindo, com a certeza que minha vida estava de fato a um passo da mudança definitiva. Sim, seria um ano feliz. Na manhã seguinte, na minha caixa de e-mails, mais uma grata surpresa, uma editora interessada em meu primeiro livro contatando-me para acertar os detalhes. Uma ajudinha da família e lá vou eu embarcando para o centro do país para enfim realizar um sonho gigantesco, e tão antigo quanto minha própria vida.&lt;br /&gt; Tudo acertado, chega fevereiro, planejamento para o carnaval, longe de ser uma data de celebração pra mim, que nunca fui muito fã de marchinha ou dessas músicas que costumam tocar em bailes carnavalescos, mas isso é o de menos, o pessoal da praia aparece em peso e a diversão ta garantida. &lt;br /&gt; Muita risada, caipira e sinuca, no carnaval todo mundo é igual, já que os machões de ano inteiro soltam a franga e vira todo mundo mulher: homens, mulheres, veados e indefinidos. Aliás, isso é curioso, eu nunca entendi exatamente como funciona esse fenômeno que leva a machaiada a se vestir de mulher no carnaval, já que eu, a bicha, nunca o fiz.&lt;br /&gt; Termina a farra com todo mundo pedindo perdão ao fígado e jurando nunca mais misturar cerveja, vodka e amendoim, porque óbvio que a culpa é do amendoim e não dos 50 litros de álcool ingeridos em tempo recorde.&lt;br /&gt; E o ano efetivamente começa. Começa comigo e uma pastinha cheia de currículos andando feito um cavalo atrás de uma oportunidade de ganhar dinheiro. A essa altura ainda vivo minha “lua de mel” com Aninha, que acompanha minha jornada na busca pelo emprego perfeito.&lt;br /&gt; No final de março começam os planos para o feriado de páscoa, eu ainda não faço a menor ideia de como será para mim até que Ale bate na minha porta. Estamos há tanto tempo separados que já estava levando uma vida quase ignorando sua existência, mas amor é amor e percebi, eu ver seus cabelos cor de fogo, que meu coração jamais o esqueceu de verdade. É, talvez seja mesmo um bom momento para um dejà vu. &lt;br /&gt; E é exatamente com meu garoto que passo a páscoa. No lugar dos ovos de chocolate, calda de chocolate, morango e champanhe. Mesmo com o calor que fazia lá fora, não saímos daquele mesmo apartamento onde nos entregamos de verdade pela primeira vez. Não quero baixar o nível dessa história e por isso não vou entrar em detalhes, mas o apartamento quase ficou pequeno para o nosso amor e o desejo contido por tanto tempo.&lt;br /&gt; A páscoa termina comigo tendo certeza que preciso melhorar meu condicionamento físico, cada músculo do meu corpo reclama o esforço, somente a mente e o coração são gratos, e a endorfina corre solta pelas veias impedindo o sorriso de abandonar meu rosto satisfeito. Ele está na mesma situação, rindo sozinho, mas certamente mais fisicamente acabado do que eu!&lt;br /&gt; Antes do final de abril finalmente estou recolocado no mercado, correria e eu quase esquecendo que tem vida fora do escritório, mas foi legal ter acontecido nesse momento, bons colegas e bom salário me garantem que finalmente minha vida voltou para a trilha certa. Chegando junho, no feriado dos fedorentos tapetes de serragem, volto às fortes emoções levando comigo meus dois amores. Aninha e Ale me acompanham em uma viagem curta e emocionante por cenários incríveis. E eles se tornam grandes amigos também, me obrigando a conter na marra meu ciúme por ambos.&lt;br /&gt; Julho chega trazendo o frio, o vinho, o fondue, a lareira e o Ale quentíssimo só pra mim. Meu aniversário, no final do mês, é celebrado em alto estilo pelas cidadezinhas do interior, só nós dois e todo o calor que nos cerca. Aproveitando a pequena distância entre o meu e o dele, permanecemos passeando pela região e celebrando nossa aproximação cada vez maior dos 30 anos, coisa que definitivamente não me assusta. &lt;br /&gt; Setembro se anuncia junto com meu tão sonhado lançamento literário, época de feiras do livro pela redondeza da minha cidade e lá vou eu negociar com os patrões uma maneira de autografar meu filhote sem perder o emprego. Acho que nunca conheci tanta gente na vida. Novos amigos, novos negócios e, como permaneço solteiro mesmo com tantas histórias com Ale, algumas paqueras e casinhos pelo caminho percorrido.&lt;br /&gt; Outubro, época de ser um bom padrinho, eventos infantis pipocam pela região e minha pequena afilhada de 2 aninhos me elege o melhor dindo do mundo, e eu digo isso sem um pingo de modéstia, claro. Ela é a coisa mais lindinha do mundo e eu gosto de passear com ela e Ale por aí, que também é apaixonado pela minha pequena princesa.&lt;br /&gt; Depois de toda uma maratona nesses últimos dois meses, entre meu trabalho, meus lançamentos, meus casos, meu Ale, Aninha e minha sobrinha fofa, chego em novembro quase acabado, mas plenamente satisfeito, afinal, o ano ta sendo realmente bom!&lt;br /&gt; Mas novembro está só começando e trazendo ainda mais promessas consigo, época de planejar campanhas de final de ano dos clientes e eu, depois de suar muito a camisa, sou promovido e passo a liderar um grupo de profissionais no atendimento de algumas contas específicas, clientes grandes, verbas exorbitantes e muito artista global contratado. Lá vou eu correr feito um louco e rechear meu Orkut com fotos de celebridades, sem contar que minha maratona pelo país como escritor não esfria.&lt;br /&gt; Para minha surpresa, com o final de novembro chegando, surge um inesperado convite para dar uma entrevista em um famoso programa de auditório em rede nacional. Vou nervoso, claro, e Ale faz questão de ir comigo. Aninha nos acompanha ao aeroporto e manda mensagens de celular a cada 20 minutos, emocionada com o amigo famoso, embora eu não me sinta assim, afinal, só o que mudou na minha vida foi a correria, muito mais acentuada do que os últimos dois anos que passei fingindo que trabalhava e sofrendo pelo meu amor doentio ao Alexandre.&lt;br /&gt; Durante a entrevista, falo do Ale, do meu amor a ele, das minhas histórias, da minha vida até ali e choco muita gente em assumir minha homossexualidade assim, em rede nacional. Junto com o reconhecimento vem o preconceito, e acabo me tornando ícone de toda uma geração que sonha com direitos iguais.&lt;br /&gt; Os pais do Ale, obviamente, me querem morto, mas nos tornamos símbolos da luta pelo casamento, pela construção de uma família tão amorosa quanto qualquer outra, ou até mais, pois o que faz uma família não é o gênero, e sim o amor que a une, e isso realmente não nos falta.&lt;br /&gt; Antes da chegada de dezembro, já estou com palestras agendadas, falando da minha experiência como homem, cidadão, homossexual e escritor reconhecido, e tudo isso sem deixar meu trabalho publicitário negligenciado. Em pouco tempo, me torno garoto propaganda da causa anti-homofobia e eu e Alexandre reassumimos publicamente nosso amor, tornando-nos namorados outra vez, só que agora com muito menos tempo para ficarmos juntos.&lt;br /&gt; Quando já entramos no último mês do ano, chovem convites para a noite de natal e o ano-novo, mas realmente não tenho intenção de aceitá-los, jamais passei natal longe da família e eu e Ale temos planos só nossos para a virada, nada me tira de perto dele. Então levo ele e Aninha comigo a diversas festas pelo país, as campanhas de natal estão prontas na agência e não corro o risco de perder meu emprego com tantas viagens, afinal, clientes fazem fila para serem atendidos pelo pop star do momento.&lt;br /&gt; Estranho me definir assim, mas a verdade é que me tornei celebridade instantânea, então começo a me preparar para o fim disso, porque tudo tem um fim, embora eu tenha condições literárias para me manter firme em exposição, não sou ator nem apto a escândalos, então, num futuro não muito distante, serei conhecido somente pelo grupo que efetivamente apreciam meu trabalho.&lt;br /&gt; Mas enfim, não é momento para pensar nisso, certo? Então vou curtindo a fama, os convites, os cachês gordos e as conquistas que a fama me proporciona, como a votação marcada entre os deputados para aprovar o casamento gay, e os planos meus e do Ale para sermos o primeiro casal a se casar perante a lei (e à imprensa, claro).&lt;br /&gt; Na metade de dezembro percebo pela primeira vez que a fama tem seus percalços, quando simplesmente não consigo permanecer em um bar tomando chopp com Ale e Aninha, e lembro o quanto sonhava com esses momentos simples da vida no ano passado, mas faz parte, eu realmente não me sinto no direito de reclamar.&lt;br /&gt; Por um tempo, dar autógrafos na rua tornou-se algo comum, e não tardou para aparecer o primeiro convite para apresentar meu próprio programa de literatura numa TV local. Recusei o convite, mas me dispus a gravar alguns programetes, feitos em duas tardes próximos do Natal.&lt;br /&gt; Faltando somente 3 dias para a noite natalina, me dei conta que não havíamos comprado presentes um para o outro, e, a convite de uma famosa autoridade, embarcamos eu, Ale e Aninha num jato particular para o centro do país, onde passamos uma tarde super agradável em um shopping fazendo as compras para nós e nossos familiares. Inesquecível ir nas maiores livraria dos país e poder escolher os livros mais sonhados pelas minhas irmãs.&lt;br /&gt; Ao fim do dia seguimos a um restaurante de luxo às custas do tal político que queria fazer uma boa média no público gay, reconhecido finalmente como um grupo expressivo para as próximas eleições. E, claro, nosso jantar de luxo, às vésperas do Natal, foi amplamente noticiado pelos veículos de fofoca, encontrei fotos nossas em tantos sites e revistas quanto fui capaz de pesquisar.&lt;br /&gt; Aninha sentia-se nas nuvens, mesmo sendo reconhecidamente discreta, mas ela tinha que fazer parte daquilo tudo, e Ale orgulhava-se de participar de toda uma revolução que mexeria com todo o futuro da nossa comunidade. Era mágico, mas extremamente cansativo.&lt;br /&gt; Chegada enfim a noite de Natal, eu estava tão cansado que não participei do planejamento da nossa festa, a família do Ale passou a ocasião conosco e, para minha alegria, nenhum fotógrafo bateu à nossa porta, mas duas revistas ofereceram dinheiro para matérias sobre natal em família, afinal, eu e ele prometíamos ser um casal que daria o que falar.&lt;br /&gt; E foi só nesse momento que comecei a me dar conta que eu e ele éramos quase um casal midiático, pois há muito não ficávamos sozinhos, há muito não nos amávamos como era na minha época de anônimo. Comecei a sentir saudade de não ser ninguém a ser reconhecido na rua. Era bom, claro, havia conquistado muita coisa como um homem famoso, mas percebi que perdi minha vida nesse caminho, e eu sentia falta dela.&lt;br /&gt; Naquela noite minha exaustão me impediu de permanecer acordado celebrando muito tempo, trocamos presentes, nos abraçamos e, pouco depois da ceia, eu já dormia. Passado o primeiro feriado, pedi a Ale que sumíssemos, que saíssemos sem avisar ninguém, e foi o que fizemos; dois dias depois de estarmos em paz, somente nós dois, grupos de neo-nazistas eram acusados pelo nosso desaparecimento e o negócio ficou sério, tivemos que reaparecer correndo, fiz uma declaração pública, mas a situação ficou chatíssima, e acabamos concordando em ter a imprensa em peso participando de nossos planos de réveillon, algo que me deixou plenamente insatisfeito.&lt;br /&gt; Ao virar da meia-noite, ignorei a presença da imprensa e beijei meu amor apaixonadamente. Nosso beijo ficou estampado e gerou uma gigantesca polêmica, o que nos levou a crer que, embora tenhamos conquistado muita coisa, a hipocrisia ainda impera e a sociedade faz questão de não estar pronta para respeitar o amor em todas as suas formas de expressão.&lt;br /&gt; E o dia terminou, minhas previsões contaram todo o ano que acabou de começar, e começo a perceber que minha imaginação nem sempre joga a meu favor. Como foi que saí da realização de um desejo simples, tomar um chopp com minha melhor amiga, para algo tão grande e potencialmente assustador, virar um ícone sem privacidade?&lt;br /&gt; Bom, de qualquer forma, a realidade é um pouco diferente. Ale, segue sua vida como vinha fazendo nos últimos meses, Aninha e eu seguimos tendo conversas deliciosas, mas sempre com a noção de que a vida real é um pouco diferente daquilo que vinha fantasiando. E eu? Bom, eu venho enxergando a vida com olhos mais otimistas, percebendo que o desânimo atrapalha meus planos e que minha alegria é potencialmente contagiante.&lt;br /&gt; Tive um bom final de ano, afirmo isso com um sorriso no rosto, com a certeza de que o ano não será como previ nessa história, mas nem por isso estarei privado de realizar alguns sonhos, afinal, estou disposto, tenho vontade de dar o passo seguinte e fazer a minha parte por isso.&lt;br /&gt; Que venham os novos desafios, faço questão de enfrentá-los, de vencê-los, e de poder contá-los, na próxima virada, o que de fato aconteceu nesse ano que se inicia. Porém, ainda faço meus planos, desejando amá-lo menos, depender menos emocionalmente da minha doce amiga, amar-me mais, ser um pouco daquilo que as pessoas enxergam em mim. Quem sabe tornar-me meu ídolo? É, seria legal, para todos nós.&lt;br /&gt; Sinceramente? Acredito cada vez mais que preciso de umas férias da minha vida louca, mas um dia eu chego lá, um dia hei de me acomodar e usufruir dessa felicidade que tanto luto, tanto almejo. E vai ser um imenso prazer compartilhar isso com vocês.&lt;br /&gt; Sonhem, sonhem muito, sonhem sempre, todos sonhos que não nos merece são eventualmente esquecidos, os que nos merecem, são conquistados com alguma força de vontade, mas francamente, parar de sonhar é muito pior do que morrer, pelo menos na morte se dá o passo seguinte e, quando nos privam dos nossos sonhos, deixamos de viver, deixamos de ser, e nos tornamos somente mais um volume no mundo. &lt;br /&gt; Então lutemos, ser um volume não é agradável, e não é alternativa quando temos a opção de tornar nossos sonhos realidade, de fazer diferença, e principalmente de poder chegar num momento como esse, de mudança e reflexão, estufar o peito e dizer “eu venci” com o orgulho de quem lutou, de quem mereceu chegar onde chegou.&lt;br /&gt; E é bom sentir orgulho de si mesmo, eu ando tendo motivos pra me orgulhar de mim, e recomendo, isso dá forças, porque viver não é fácil, sobreviver é mecânico, viver não é coisa para covardes. Tentar prever o futuro é um exercício interessante, é inegável, como é o ano que você gostaria de ter? Quais os erros que deve evitar? Quais os acertos pelos quais deve lutar?&lt;br /&gt; Não que você deva planejar cada segundo do seu ano, não deixar nada para o acaso, muitas vezes ele sabe o que faz, mas deixar tudo nas mãos do destino não é a melhor estratégia, a maior parte dos nossos erros cometemos no impulso, para quê arriscar? Eu quero construir um ano mais equilibrado, mais seguro nas minhas atitudes, mais empolgante nas minhas aventuras. Eu quero construir um ano inesquecível. Quem está comigo nessa?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-5542934087140076600?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/5542934087140076600/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/01/prevendo-o-futuro.html#comment-form' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/5542934087140076600'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/5542934087140076600'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2010/01/prevendo-o-futuro.html' title='Prevendo o futuro'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-7385244903250942190</id><published>2009-12-26T23:52:00.000-02:00</published><updated>2009-12-26T23:53:16.986-02:00</updated><title type='text'>Presente de natal</title><content type='html'>Foi uma noite quente, fazia tempo que não tínhamos uma noite de Natal quente. Há algum tempo eu temia que minha noite de Natal fosse apenas uma noite em que eu desejaria sumir, me trancar no banheiro aos prantos enquanto meus familiares sorriam com alegria e esperança no salão de festas, por isso, naquela manhã, acordei temeroso. &lt;br /&gt; Tinha na memória tantas e tantas noites assim, noites alegres, com trocas de presentes e carinhos sinceros, minha família sempre fora campeã em matéria de natais felizes, e eu só queria isso de volta, queria um Natal para encantar meu coração e guardar na memória como tantos outros.&lt;br /&gt; Naquela manhã, sentei na minha cama e fui puxando da memória cada ocasião especial em que passara com quem eu amo, e não foi difícil trazer à minha superfície, uma série de momentos que causam inveja para quem eu conto, como aquele Natal em que um grupo de pessoas fantasiadas de Papai Noel bateu em nossa porta, somente pelo prazer de fazer alguém sorrir. Meninos, meninas, homens e mulheres, pessoas que saíram de suas casas na noite mágica e compartilharam momentos divertidos com a minha família.&lt;br /&gt; E por minha família não falo somente de pais e irmãs, mas tios, tias, primos e primas. Se tem algo que sabemos fazer bem é produzir natais inesquecíveis. Também lembro daquela vez que fechamos a rua, eu ainda era criança, e eu, meus primos, o Ale e mais a molecada do bairro nos juntamos para decorar as árvores e as fachadas dos prédios e casas. Trabalhamos por horas, terminamos cansados, e, ao fim do trabalho, minha tia armou uma mesa no meio da rua, onde cada morador e comerciante contribuiu com bolos, biscoitos, sorvete e refrigerante.&lt;br /&gt; Aquele dia foi mágico, tínhamos não mais do que 9 anos, eu e o Ale, em uma época que com essa idade ralávamos os joelhos magros nas perninhas finas e infantis com nossas bicicletas incrementadas com copo descartável cortado em pedaços, fazendo barulho ao bater nas hastes da roda. Foi legal lembrar o tombo que o Ale levou naquele ano, quando a roda da bicicleta enroscou no enfeite do canteiro que havíamos recém prendido. Ele não se machucou, mas se sentiu envergonhado e seus olhos ficaram ainda mais verdes com as lágrimas se formando; eu mesmo cuidei do curativo, sentado na beirada da calçada enquanto as meninas fingiam ter pena dele por ter se raspado na queda.&lt;br /&gt; Ale era um menino muito bonito, era natural que elas suspirassem por ele, e no dia seguinte quase todos os meninos do bairro sofreram o mesmo “acidente”, mas nenhum deles conseguiu convencer que tinha caído sem querer. Eram realmente bons tempos aqueles. Foi delicioso jantar guloseimas na mesa no meio da rua, entrar em casa quando já era noite, nos sentíamos quase adultos por ter podido ficar “até tarde” na rua.&lt;br /&gt; Duas noites depois, nossa decoração saiu no jornal, nos gabávamos na escola, nos últimos dias de aula antes das tão esperadas férias. Um coral de um projeto social cantou sobre um palco que ajudamos a montar, o evento juntou gente como nunca havíamos visto antes, nós mesmos, as crianças que decoraram o espetáculo, quase não conseguimos assistir, e quando notamos que não conseguiríamos passar duas horas vendo outras crianças cantando, brincamos de esconde-esconde, que ficou muito mais divertido no escuro.&lt;br /&gt; Logo que entramos em férias, eu, o Ale e minha irmã gêmea brincávamos de montar e desmontar as árvores de natal, da casa dele e da minha, mas quase sempre era na dele porque minha irmã mais velha, já adolescente, nos botava para correr enquanto ouvia no volume máximo os grandes sucessos das bandas que marcaram os anos 80. Ela não gostava mais do Natal porque meu pai não a deixava ir em festas que não fossem a da nossa família, e ela estava muito mais preocupada com os paqueras dela do que com a linda reunião familiar.&lt;br /&gt; Mas eu não, eu era um menino que curtia cada momento feliz. Eu estava longe da escola, longe das pessoas que me davam medo, e eu passava muito mais tempo com o Ale e com a minha irmã gêmea. Só a noite de Natal mesmo passávamos separados, afinal, pra minha alegria, não éramos parentes, e essa ocasião sempre foi pra mim um momento muito família. Porém isso estava longe de ser um problema, no dia seguinte nos reuníamos para mostrar os presentes e brincar, brincar muito, sem preocupações ou compromissos.&lt;br /&gt; Quando a vida nos separou, eu já me tornava um adolescente introspectivo, os natais já não tinham o mesmo brilho, os passeios para “procurar o Papai Noel” já não eram mais tão mágicos, já que sabíamos não haver a quem procurar de verdade, mas nos esforçávamos. Andávamos de carro nos bairros mais bem decorados, cantávamos e gritávamos desejos de boas festas a todos que estavam na rua durante nosso passeio.&lt;br /&gt; De fato, se tem algo do qual não posso reclamar é de tédio nas noites natalinas, meus primos sempre souberam muito bem como fazer uma noite alegre e movimentada, e sempre, a vida toda, a troca de presentes acontece. Como somos em muitos, a sala fica repleta de pacotes, é bonito de ver, é sim mágico, basta olhar com carinho quando a vida não quer deixar que a criança que existe em nós volte a acreditar.&lt;br /&gt; Mas me lembro com uma clareza emocionante quando chegávamos do passeio. Na sala havia um ambiente onde ficava a árvore de Natal, era do outro lado de onde ficava a porta por onde entrávamos depois do passeio. Sentia meus olhos brilharem ao avistar ao longe não somente uma pilha de pacotes coloridos, mas a única luz do ambiente eram as luzes coloridas e piscantes do pinheirinho, e a música. Músicas natalinas tradicionais invadiam nossos ouvidos vindos de um disco de vinil em uma vitrola digna de museu, davam um efeito de aconchego que nenhum aparelho moderno seria capaz. &lt;br /&gt; É, acredito que usei o termo perfeito: aconchego. A sensação daquele momento é algo que jamais serei capaz de descrever, mas que certamente é algo que, se um dia eu tiver filhos, quero que eles sintam também. Os presentes se vão, as pessoas seguem sua vida, mas as recordações são nossas, somente nossas e de mais ninguém, nada no mundo pode tirá-las de nós.&lt;br /&gt; Ri sozinho, sentado em minha cama, na manhã da véspera de Natal. Sim, seria um dia feliz, eu tinha grandes lembranças que havia abandonado em nome dos últimos três ou quatro natais, em que eu, adulto descrente e, claro, perfeitamente idiota, havia desperdiçado em nome de problemas que eu sequer sou capaz de lembrar. É isso mesmo, deixei de lado o que sou incapaz de esquecer por coisas que sou incapaz de lembrar.&lt;br /&gt; Eu me considero um caçador de momentos, a vida me ensinou que felicidade é uma ilusão que alguém criou para nos impedir de reconhecer quando somos verdadeiramente felizes, eu fui aprendendo que felicidade nos é dada em doses homeopáticas, e que a soma de nossas boas recordações é que define se tivemos uma vida feliz ou não. E bom, embora ultimamente minha vida tenha andado em preto e branco, eu sou sim um cara chato, e me recuso a desistir, então eu caço momentos, eu ainda quero chegar no final dessa estrada, olhar pra trás e estufar o peito com a certeza que fiz meu melhor e que, mesmo entre lágrimas, eu soube ser feliz.&lt;br /&gt; Então me senti covarde. Como eu, com tanta coisa legal para lembrar, fui capaz de temer pelo meu Natal? Acho que tenho sido meio injusto com a vida. Ela não é fácil, eu sei, mas não é impossível. Acho até que esse é um bom momento para perceber isso e fazer, finalmente, algo por mim. Talvez já tenha até passado da hora de deixar as decepções de lado, chega de ter memória curta e lembrar só do que me faz sofrer, oras!&lt;br /&gt; Levantei da cama, liguei o rádio e saí dançando. Fazia algum tempo que eu não saía dançando assim, sem pensar em nada, sem me preocupar com nada, curtindo verdadeiramente um momento que era só meu. Não havia ninguém ali comigo, sabia que certamente não encontraria nem Ale e nem Aninha durante todo o dia e certamente durante o dia seguinte também, então eu tinha duas opções: ou ficar feliz em minha própria companhia, eu estragar mais um Natal.&lt;br /&gt; Antes mesmo de perceber o paradoxo, eu já tinha a minha decisão tomada. O ano havia sido desafiador para mim, muitas descobertas desagradáveis, muitas conquistas e muitas derrotas também, mas se fosse colocar em uma balança, não tenho dúvidas de que o que levarei para a vida serão os bons momentos.&lt;br /&gt; E dancei. &lt;br /&gt; O dia foi obviamente corrido, como toda boa véspera de Natal deve ser para quem celebra pra valer a data, acabei nem tendo muito tempo para planejar, forçar felicidade, e a parte boa era que eu de fato não precisaria disso, eu estava feliz sim, de verdade, de coração, de peito aberto. Isso era incrível, há tempos não me sentia tão leve. Tão... pleno.&lt;br /&gt; À noite, segui ao nosso ponto de encontro, onde estariam meus familiares naquele momento que tanto me emocionava na infância, e estavam todos lá, todos sorrindo, todos deixando para mais tarde seus problemas e preocupações, todos ali dispostos a sorrir, dar uma chance à esperança, se permitir sonhar com um futuro melhor para todos nós. E como eles, estava eu, livre, leve, alegre.&lt;br /&gt; A infância se foi e com ela os passeios de carro pelas regiões mais decoradas da cidade, já não havia mais a espera pelo bom velhinho, ou os presentes escondidos para que eu e meus primos não pudéssemos vê-los. Agora estavam ali, diante dos nossos olhos não menos encantados com a miscelânea de cores e formatos, e a tradicional espiadinha nas etiquetas para ver quem ganharia qual pacote.&lt;br /&gt; Minha mãe, como era desde que meu pai abandonou a função, passou a fazer a distribuição, gritando com graça o que constava nas etiquetas, de quem para quem, e as dezenas de papéis coloridos se espalhando pelo chão enquanto cada um analisava seus novos pertences e tratava de agradecer o presenteador. A infância se foi e com ela os brinquedos, o exagero dos pais, tios e tias, há anos meu Natal é mais modesto pela idade que vai passando, mas dessa vez o universo pareceu conspirar pela minha felicidade, e terminei a brincadeira da distribuição dos pacotes com um sorriso me cortando o rosto de orelha à orelha por cada presente ganho.&lt;br /&gt; Sim, enfim o Natal voltara a ser mágico para mim, que andava tão descrente da felicidade. Não pude deixar de pensar nas minhas duas jóias, nos meus dois tesouros, no quanto queria de verdade que a noite tivesse sendo mágica para eles também.&lt;br /&gt; Eu sabia que no dia seguinte não teria os velhos encontros com o Ale para mostrar os presentes, isso acabara quando sua família partiu há tantos anos atrás, acabara com o fim dos nossos tempos de moleques descomprometidos. Eu sabia que sentiria falta, que acordaria na manhã do dia de Natal com aquela pontinha de nostalgia e aquele desejo nada inocente de estar com ele, de lhe dar meu presente, de lhe dar minha vida. Eu já havia pensado antes, quando pertencíamos um ao outro, em embrulhar-me pra presente, uma ideia boba de homem apaixonado que não hesitaria em dar até a própria vida ao ser amado.&lt;br /&gt; Mas mesmo sabendo que não o veria no dia seguinte, nem no outro ou no outro, eu não lamentava, eu lembrava com alegria e emoção os momentos que passamos juntos, as alegrias que nos proporcionamos mutuamente. Mudei meu foco, deixei para trás o “acabou” para o “eu vivi isso”. E é impressionante como faz mesmo diferença.&lt;br /&gt; A meia –noite passou, nos abraçamos com o sincero desejo de feliz Natal, ríamos, nos sentíamos crianças outra vez, o Natal voltara a ser mágico, pelo menos para mim. E quando todos os rituais tradicionais haviam se encerrado, quando todos os presentes haviam sido dados, a ceia degustada, os abraços compartilhados, senti que era meu momento de agradecer à vida que me foi dada.&lt;br /&gt; Sim, parece estranho para quem ainda não atravessou o corredor metafórico, para quem ainda tem um caminho tão longo a percorrer, se sentir à vontade para agradecer por uma vida instável, conturbada e muitas vezes tão miserável. Mas eu ainda tenho uma chance, não pude deixar de pensar nas pessoas que só percebem que jogaram sua vida fora quando já é tarde demais. Para mim ainda não, ainda dá tempo de reescrever minha história, ainda dá tempo de conquistar meu conto de fadas e poder dizer “foram felizes para sempre”. Ainda dá tempo para deixar minha marca nas pessoas que eu amo.&lt;br /&gt; Porém, pode não ser tarde demais, mas também não é cedo demais. Olhei para o céu estrelado, sentindo-me tão pequeno nessa imensidão e percebendo que não existe hora marcada para se mexer e fazer alguma coisa de verdadeiramente útil. Então talvez seja o momento de parar de esperar, sacudir a poeira e partir para a luta. A minha felicidade só depende de mim, e eu não andava exatamente muito disposto a lutar de verdade por ela, talvez eu tenha me perdido nessa batalha invencível para tentar ser o que fosse mais agradável para quem eu amo. E falhei, porque para me amarem, eu não posso ser um molde, um rascunho, eu preciso ser eu, eu preciso oferecer algo a ser amado. E quem me ama, ama Erich, e não quem Erich tenta ser para ser amado.&lt;br /&gt; Filosofias de vida à parte, enquanto todos brincavam e se divertiam, contando piadas, rindo de seus erros, vangloriando-se de seus acertos, eu reservei alguns minutos para refletir. Foi então que a vi. Uma estrela cadente. Uma estrela em queda, que deixou seu cantinho e deslocou-se para outro. &lt;br /&gt; Existe toda uma crença de que se faz um pedido para uma estrela cadente, e ela realizará. Então, se estrela cadente é sinal de sorte, de realizações, talvez cair de vez em quando, sair do lugar comum, deslocar-se do seu território conhecido não seja assim tão ruim. Talvez seja o momento certo para tentar.&lt;br /&gt; Não fiz meu pedido, não achei necessário. Por algum motivo que eu realmente não sei explicar, eu soube, naquele momento, que daria tudo certo. Que cedo ou tarde, ficaria tudo bem. E depois de tantas lágrimas, essa sensação me bastava, e talvez tenha sido o melhor presente que eu poderia ganhar nesse Natal: a minha segunda chance.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-7385244903250942190?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/7385244903250942190/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/12/presente-de-natal.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/7385244903250942190'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/7385244903250942190'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/12/presente-de-natal.html' title='Presente de natal'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-9174964858929237531</id><published>2009-12-19T15:51:00.000-02:00</published><updated>2009-12-19T15:52:50.013-02:00</updated><title type='text'>No corredor</title><content type='html'>Era uma vez um garoto que amava demais. Não é nem que ele amasse demais, é que ele era inseguro demais para amar a si mesmo, e por isso depositava toda sua força amando os outros. Bom, esse garoto sou eu, óbvio. Sinceramente, esse negócio de ficar sempre em dúvida sobre a realidade x fantasia vai acabar me levando à loucura. Como se algum dia eu tivesse de fato sido normal. &lt;br /&gt; Mas isso não importa, não vou dissertar aqui sobre minha suposta loucura, mas de todas as coisas que ela traz pra mim. Não, não é bonito ser louco, não é divertido nem poético, é complicado, é delicado e muitas vezes é extremamente solitário. Por exemplo, passei por uma situação absurdamente desagradável em que perdi a fé em mim e no mundo ao meu redor. Eu não chorei embora tenha me apertado o peito.&lt;br /&gt; Mas, uns minutos depois eu chorei. Por quê? Porque a única pessoa com quem queria conversar, com quem queria compartilhar e pedir pra reduzir um pouco da dor no meu coração é exatamente a única pessoa que, diferente das demais que simplesmente me ignoram, definitivamente não quer falar comigo.&lt;br /&gt; Não, não vou me fazer de vítima, reconheço meus defeitos e sei que não são poucos, mas as vezes me pergunto o que me torna tão... tão... pra não conseguir romper essa barreira que me separa do coração dessa pessoa que tanto amo. E amo? Eu francamente já não sei, sei que sinto falta, sei que dói quando eu sei que essa pessoa não está ocupada, nem ausente, está somente se esforçando para ficar longe de mim.&lt;br /&gt; Eu sou polêmico, eu sei disso, sei de uma pilha de gente que me odeia, sei de mais alguns que me amam, embora essa tensão que gira em torno de nós dois me faça esquecer com frequência que sou amável, que não é assim tão difícil encantar as pessoas com tudo o que eu tenho pra oferecer. O problema é que ultimamente eu só tenho oferecido uma boa dose de carência e total ausência de amor próprio.&lt;br /&gt; Eu entrei por aquela porta, a maldita porta que me afasta de tudo o que era mais belo na minha vida, a certeza do amor do Alexandre e da amizade da Aninha. E de fato, do outro lado dessa porta sombria não havia nenhum dos dois. Fui andando lentamente aquele imenso corredor que poderia me fazer dar de cara com algo que pudesse me fazer feliz, mas fui perdendo a fé e a força conforme fui avançando.&lt;br /&gt; No corredor haviam imagens. Aninha e Alexandre tem toda uma existência na qual eu não pertenço, e na qual nenhum dos dois está disposto a me incluir. Eles são felizes, eles amam outras pessoas e são amados por elas. E agora?&lt;br /&gt; - Tem alguém aqui? – Gritei já em prantos, eu não merecia ser obrigado a ver que a realidade era tão... monocromática. Doía.&lt;br /&gt; Somente silêncio. Nem um único ruído, e fiquei francamente satisfeito por não ter ouvido minha própria voz em eco. Era eu e eu. A realidade sabe ser perversa, cada um tem a sua vida e ninguém está exatamente preocupado com o que o outro está sentindo. E não, não é egoísmo, é defesa. Cada um precisa cuidar de sua própria vida.&lt;br /&gt; É possível que nesse exato momento em que lamento não ter nem Alexandre e nem Aninha, eu esteja negligenciando alguém que me ama, talvez alguém que nesse exato momento se pergunta como posso eu não enxergar o quanto sou amado. Eu sou. Eu sei que sou, eu sei que na minha jornada conquistei algumas coisas, inclusive a admiração de algumas pessoas. E sei que Aninha e Alexandre podem efetivamente ter afeto por mim. Claro que se eles existissem em algum lugar fora dos meus sonhos seria realmente mais fácil isso acontecer.&lt;br /&gt; Meu grande problema é o contraste entre o otimismo e euforia exagerados com o pessimismo e depressão profundos. É sério! Eu sou o cara que ri da piada sem graça, eu sou o cara que tem aquelas sacadas que ninguém mais tem e faz todo mundo rir, eu sou o cara do papo light, das histórias inusitadas, do sorriso fácil. Eu sou o cara do ombro largo, que jamais deixa de atender um amigo, que escuta e que de fato se preocupa.&lt;br /&gt; É, eu sou tudo isso, mas também sou o cara da chantagem emocional, da falta de fé em si mesmo, o cara que vai com muita sede ao pote e quase sempre acaba derrubando o conteúdo. E isso não afeta somente a mim, mas a quem tem a roupa manchada pela minha ansiedade.&lt;br /&gt; Preciso ser honesto. Agora mesmo me perguntava sobre o que eu poderia conter-lhes dessa vez. Eu havia começado uma história, a história de uma pedra, de um pedaço de rocha que sonhava virar um diamante: irradiar luz, preciosidade e beleza, mas que no fim das contas era somente uma pedra, uma pedra no caminho de alguém.&lt;br /&gt; E eu que tanto sonhei em ser o ombro, descobri-me pedra da Aninha. O interessante é que achei que isso me doeria muito, mas não doeu. Talvez porque no fundo eu sempre tivesse sabido disso, no fundo acho que todo mundo sabe quando sua presença é absolutamente dispensável, e em geral o é onde a gente mais gostaria de estar. Na companhia da Aninha, no meu caso, no coração do Alexandre, num caso mais extremo. &lt;br /&gt; O que me doeu foi a sensação de solidão que isso me gerou. Aninha me foi muito tolerante, ouvindo meus desabafos, aconselhando-me, orientando-me. Saber que isso a desagrada não me incomoda, o que me incomoda é sua indisponibilidade de continuar sendo meu porto seguro. Eu a espero, eu vivo a esperar que ela esteja acessível, que ela volte a falar comigo, e, num sonho ambicioso, que ela deseje falar comigo.&lt;br /&gt; Algumas horas se passaram, definitivamente não estava mesmo tendo um dia bom. Hoje é o dia seguinte, tem sol lá fora e está quente. Mesmo assim os calmantes e as lágrimas da noite anterior me deixaram com uma dor de cabeça daquelas que atrapalha o raciocínio, ou faz pensar mais. Por que é tão importante? Por que alimentar esse amor doentio, esse sentimento exagerado e prejudicial por quem não está realmente disposto a receber?&lt;br /&gt; Eu não sei. Acredito sim que Aninha, mesmo tendo me causado já tanta dor, é merecedora do meu afeto, até porque muitas das lágrimas que deixei escapar por causa dela foram motivadas por esse meu jeito tão carente de ser. Mas e eu? Não sou merecedor do afeto dela?&lt;br /&gt; Certa vez, logo que o Ale terminou comigo, eu a pedi carinho. Ela não estava em um dia bom, mas eu me sentia tão perdido e abandonado pelo destino que ignorei os problemas dela e usei seu ombro sem autorização. E tentei, como tentei, ouvir dela que tudo ficaria bem, que minha vida amorosa se resolveria, que eu sou digno de amor e que meu dia há de chegar. O desastre foi completo, ao fim da conversa sentia-me ainda mais desprezível e isso gerou uma confusão entre nós. As proporções foram maiores do que o caso em si, eu sinceramente não entendi como despertei tamanha fúria em minha amiga, mas não me isento de culpa.&lt;br /&gt; Amarguei a sua ausência exatamente quando mais precisava de afeto. Mas enfim, ultimamente eu estou sempre precisando de afeto, e bom, Aninha é minha amiga, e não minha mãe! E venho buscando a satisfação em qualquer pequena oportunidade que surge em meu caminho, mas ao que tudo indica não terei o direito jamais de me sentir pleno outra vez. Ou pela primeira vez.&lt;br /&gt; Mas então, se estou num novo dia, e se estou verdadeiramente lutando para ser feliz, não creio que esteja dando os passos corretos por aqui. Permitam-me um recomeço.&lt;br /&gt; Era uma vez um menino que se recusava a desistir. Isso mesmo, já joguei a toalha mais vezes do que posso lembrar, mas eu sempre voltei para o ringue para um novo round, e cada vez que volto, ganho novas cicatrizes que contam não a história de uma vida sofrida, mas a história das batalhas vencidas. &lt;br /&gt; Estou aqui parado, nesse corredor metafórico, me aplicando uma boa dose de auto-tortura ao perceber o quanto tenho vivido de ilusões, mas não dei ainda o passo seguinte. Enquanto essa verdade me doer o peito, eu não terei vencido essa etapa. Ela tem que obrigatoriamente me tornar mais forte, mais capaz e preparado para o dia de amanhã, e, enquanto eu ainda me sinto fraco, é nesse ponto do corredor que eu preciso ficar. Pouco a pouco nessas paredes cinzas começam a surgir imagens que são minhas, que me pertencem, que contam a minha história.&lt;br /&gt; É lamentável que minha vida não me seja o bastante, que fico nessa luta sem fim para viver a vida que não me pertence, a vida da Aninha, a vida do Ale. E a vida do Erich? Onde foi que a deixei? Eu tenho uma vida toda minha, feita só pra mim, é um tanto incorreto que eu deseje ardentemente viver a vida alheia. &lt;br /&gt; Não é como um casamento que as vidas se misturam e viram uma só, estou cada vez mais cara a cara com o fato de que estou rompendo pedaços da vida de quem eu amo, e isso não é bom. Ninguém deseja ser a pedra no caminho de pessoas queridas, como aparentemente acabei me tornando com esse excesso de amor.&lt;br /&gt; Bom ponto. Amor. Será? Aninha me pregou essa peça: desde quando depender de alguém e sugar suas energias é amor? Não acho que seja assim tão grave, eu ressalto meus defeitos mas também conheço minhas qualidades, meu potencial para ser o amigo e o amante exemplar, para fazer toda a diferença na vida de alguém que faz a diferença na minha.&lt;br /&gt; Esse corredor que estou agora me sufoca, não vou negar, mas talvez, enquanto eu ficar olhando para o chão, eu não consiga tirar dele as verdadeiras lições. E me pergunto: quantas pessoas estão de fato atravessando a vida sem perceber o quanto tudo isso é complexo? Quantas pessoas efetivamente param para pensar no que acontece de verdade em seu dia-a-dia?&lt;br /&gt; Eu admiro a Aninha, e eu me admiro. Nenhum dos dois escolheu o caminho mais fácil. Aninha acha que é tolerante comigo porque é mais fácil, querendo não se incomodar, mas nesse caso a intolerância seria o caminho mais simples. Para ambos por sinal, porque essa menina que tanto prezo não é perfeita. “Cheguei no meu limite, vá para longe, vá viver sua vida e eu viverei a minha.” Esse é o caminho mais fácil.&lt;br /&gt; Esse é também o caminho mais covarde. Descartar o problema, abrir mão de algo potencialmente bom para não enfrentar o algo complexo, o problema, é coisa típica de gente fraca. Não é meu caso. E muito menos da Aninha. Ela é garota guerreira, talvez ainda mais do que eu, e ela me prova isso a cada novo recomeço, a cada vez que nos damos uma chance de aproveitar o que temos de bom para oferecer um ao outro. E temos.&lt;br /&gt; As coisas podem não estar como eu ou ela gostaríamos, mas por tantas vezes rimos juntos, por tantas vezes estivemos efetivamente um na vida do outro de forma plena, por tantas vezes fomos exatamente o que desejamos: grandes amigos. &lt;br /&gt; De verdade? Vale a pena. Eu sei que vale, e acredito com todas as minhas forças que pra ela pode valer a pena também. Seco minha lágrimas, me levanto desse corredor onde permanecia sentado, estático, e dou mais um passo. Não, eu não quero mais um pedaço da vida dela, eu quero somente usufruir daquele cantinho de coração que ela reservou para mim, sem tentar conquistar no tapa novos territórios que não me pertencem.&lt;br /&gt; Eu ainda não sei exatamente para onde esse corredor está me levando, mas espero que ao fim dele eu esteja mais maduro, mais forte, mais seguro, e que possa encontrar Aninha e Ale, ou a mistura dos dois, ou o que dos dois for real, abraçá-los e provar que estou pronto para construir nossa história, descartando todas que construí na minha cabeça e tentei incluí-los sem seu consentimento.&lt;br /&gt; Eu queria poder chegar em breve dizendo que venci o corredor e que eu e a verdadeira Aninha estamos sorridentes efetivamente compartilhando nossas vidas, mas infelizmente eu preciso ser realista, pelo menos o suficiente para reconhecer que não sou nenhum maratonista pra vencer esse corredor na corrida, e que não faço milagres ou sou algum tipo de gênio para assimilar tantas lições em tempo recorde, mas eu sei que sou capaz de chegar lá. Eu só espero que o destino não seja cruel comigo, que não me prive da existência da Aninha na minha vida nesse caminho. Eu só espero que ela tenha mais um pouco de paciência.&lt;br /&gt; E espero que isso não seja pedir demais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-9174964858929237531?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/9174964858929237531/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/12/no-corredor.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/9174964858929237531'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/9174964858929237531'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/12/no-corredor.html' title='No corredor'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-556888738054124</id><published>2009-12-12T14:39:00.000-02:00</published><updated>2009-12-12T14:40:09.913-02:00</updated><title type='text'>Mundo real</title><content type='html'>E nessa de ter sonhos estranhos, me surpreendo numa dessas com certamente o sonho mais non-sense de todos os tempos! Pelo menos para mim, que em geral gosto das coisas na mais perfeita ordem. Ale estava lá, claro, ele sempre está onde minha vida se torna mais louca, mais insana, e onde me sinto mais próximo do que eu realmente sou: um alguém completamente fora de ordem.&lt;br /&gt; Aninha também estava lá, dessa vez, no entanto, ela era o Ale. Sim, doido isso, mas num momento ele era ele e noutro era ela, como se alguém em algum lugar estivesse realmente disposto a tirar um baita sarro da minha cara. Eu ficava sentado em uma espécie de pufe feito toscamente com cabeças de barbie observando uma metamorfose constante dos meus dois seres amados. E eles riam. Ou ele. Ou ela.&lt;br /&gt; É lógico que eu me borrava de medo de ambos num corpo só, embora um conhecesse o outro, eu preferia não misturar os dois tipos de amor, mas ter os dois no mesmo corpo era realmente assustador; eu não podia evitar imaginar-me fazendo amor com Ale e ele subitamente se tornando Aninha. Aninha é linda, mas realmente não faz meu tipo!&lt;br /&gt; O cenário era fantasmagórico, esfumaçado, como se tivesse tombado no meio do sonho um caminhão carregado de gelo seco. E tinha cheiro, eu lembro bem porque definitivamente não era um cheiro bom. Era ocre, muito diferente do cheiro doce de Aninha e sexy do Ale, que aliás, nessa altura lembrava mais uma drag que conheci numa boate do que ao meu querido Ale.&lt;br /&gt; Bom, eu avisei que era estranho, mas deixa eu ver se consigo contar isso melhor: eu ficava sentado no referido pufe, completamente desconfortável embora eu não possa fazer muitas queixar do desconforto na parte traseira do meu corpo, mas enfim, não fujamos do assunto, ele já é estranho por si só.&lt;br /&gt; Ficava eu sentado, fazendo aquela carinha típica minha de quem não está entendendo nada, e acredito que com bons motivos para tal, observando uma pessoa parcialmente coberta pela neblina do gelo seco, impedindo que eu pudesse identificar se o corpo era masculino ou feminino. E aquela criatura virava a cabeça na minha direção, sendo hora Ale, hora Aninha, até que em determinado momento não era nenhum dos dois.&lt;br /&gt; Aliás, interessante pensar que Ale e Aninha fundiram-se num corpo só e depois deixaram de ser Ale e Aninha e se tornaram alguém que eu efetivamente não sei quem é, mas como esse novo ser é uma mistura dos dois, eu definitivamente gostei. Me levantei do pufe e fui na direção daquilo, daquela pessoa indefinida e dei de cara com um menino com uma carinha tão doce que me fez lembrar na minha adolescência com o Ale, quando ambos parecíamos bebês recém saídos das fraldas.&lt;br /&gt; Ele sorriu pra mim, um sorriso lindo, tão lindo quanto o sorriso de Ale e Aninha, talvez por motivos óbvios tinha o mesmo sorriso, e, sem dizer uma única palavra, me guiou pela mãos esquerda (caso nunca tenha mencionado, eu sou canhoto) até uma corredor muito longo com duas portas no fim. Ele me orientou, eu teria que escolher uma das portas, e ele me ajudaria nessa escolha, mas a decisão era somente minha.&lt;br /&gt; - Erich, você tem duas alternativas diante de você. Eu não posso lhe dizer exatamente o que tem por trás de cada porta, mas posso lhe dizer que uma delas lhe trará mais dificuldades do que a outra.&lt;br /&gt; - Acho que isso torna essa escolha bem fácil então, não acha?&lt;br /&gt; - Não, de forma alguma. Pense um minuto: alguma coisa realmente boa na sua vida veio à você sem nenhum tipo de dificuldade?&lt;br /&gt; Não precisei mesmo pensar muito, de fato a maior parte das minhas conquistas veio através de muita luta, e mesmo que eu tenha sofrido bastante até chegar onde cheguei, me orgulho de ser um guerreiro e de só desistir daquilo que não merecia mesmo minha intenção.&lt;br /&gt; - Explique-me, que dificuldades são essas? – O menino me olhou com ternura, já devia prever esse tipo de pergunta.&lt;br /&gt; - Em uma das portas você encontra um mundo repleto de suas ilusões, onde tudo é exatamente como você gostaria que fosse. Na outra você encontra a vida real, um lugar que não tem nem perto o mesmo colorido, ou sequer as mesmas pessoas, exceto uma ou outra. Na porta da vida real você não encontrará motivos para sorrir tão logo.&lt;br /&gt; - Ah, certo, e você me sugere que o mundo sem colorido, faltando pessoas e que não me dará motivos para sorrir é a melhor escolha?&lt;br /&gt; - Não, eu não estou sugerindo nada, não estou aqui para interferir na sua decisão, somente para lhe mostrar suas alternativas, o resto é por sua conta.&lt;br /&gt; - Então maravilha, eu quero o mundo colorido, qual das portas devo abrir?&lt;br /&gt; O menino emudeceu, baixou a cabeça claramente chateado, como se minha escolha o afetasse diretamente, não pude deixar de me questionar no que minha decisão poderia interferir em sua vida, em sua existência não-existente, afinal, ele era uma soma de duas pessoas que jamais se fundiriam daquela maneira e... bom, acima de tudo, eu estava consciente de que estava sonhando!&lt;br /&gt; Me encostei em uma parede esperando qualquer atitude da pessoa, que permaneceu pelo que pareceram longos minutos olhando para baixo, com jeito de quem choraria a qualquer momento. Eu não conseguia mais agüentar aquela situação extremamente constrangedora e quebrei o silêncio.&lt;br /&gt; - Ok, olha só, você falou que a escolha era minha, então não seria adequado respeitar e me deixar entrar de uma vez no mundo colorido e feliz que eu escolhi?&lt;br /&gt; - Erich, talvez o destino não esteja sendo muito gentil com você, lhe entregando tanta coisa ao mesmo tempo, mas precisar considerar que o mundo que escolheste não existe...&lt;br /&gt; - E o outro existe. E é ruim. – Eu estava extremamente confuso.&lt;br /&gt; - Não é ruim, só é real. A sua fantasia as vezes pode lhe ser extremamente prejudicial, espero que tenhas noção disso.&lt;br /&gt; - Bom, considerando que isso é um sonho e eu posso acordar a qualquer momento, poderíamos ir direto ao ponto?&lt;br /&gt; - Certamente. No mundo real não existem muitas pessoas, mas elas são reais, são elas que estarão efetivamente com você quando sua fantasia se acabar.&lt;br /&gt; - E por que minha fantasia se acabaria?&lt;br /&gt; - Porque a única coisa que permanece é o mundo que te cerca, o que você cria muda conforme sua vida muda, sua cabeça muda. – Eu estava desconfiado, morrendo de vontade mandar o garoto catar coquinho quando ele continuou. – Na sua fantasia você está cercado de pessoas que te amam, mas sabes perfeitamente bem que estás sozinho. O Ale e a Aninha não estarão lá de verdade, somente aqueles que você criou na sua mente, e você cedo ou tarde verá essa solidão e será ainda pior do que encarar a verdade.&lt;br /&gt; - Se eles não estarão lá de verdade, quer dizer que eles também não estão na vida real, é isso?&lt;br /&gt; - Basicamente sim. Eu estou na vida real. Eu sei que você ama Ale e Aninha, mas eles também são fruto de sua imaginação. Quem existe sou eu. Eu não sou tudo aquilo que você deseja, nem posso proporcionar tudo aquilo que você acha que precisa, mas eu sou real, eu estou aqui.&lt;br /&gt; - Eu não lhe conheço.&lt;br /&gt; - Será mesmo? &lt;br /&gt; - Eu sequer sei quem você é!&lt;br /&gt; - De fato me conheces muito pouco, muito menos do que sempre acreditaste, mas tem certeza que no fundo não foi sempre claro para você que quem existe sou eu?&lt;br /&gt; Eu ri, irônico, irritado, e completamente perdido. &lt;br /&gt; - Você quer dizer que por trás dessa porta da vida real está o que de fato existe, e você, alguém que eu não sei quem é, está me guiando para entrar na vida real através de um sonho?&lt;br /&gt; -Erich, você não é burro, não finja que não está entendendo, caramba! Isso é uma metáfora, tudo é simbólico como todo bom sonho deve ser! Ou você realmente acha que quando você acordar, terá duas portas e basta atravessar uma delas para estar nesse ambiente para sempre?&lt;br /&gt; Bem interessante, um sonho auto-explicativo. Só eu mesmo pra ter um sonho assim. Ando pensando seriamente em mandar fazer uma camisa de força sob-medida pra mim e instalar grades nas minhas janelas. Será que eu fico bem numa máscara estilo Hannibal Lecter? Ok, anda virando um hábito absurdamente irritante essa coisa de fazer comentários dentro de comentários e análises dentro de análises que não levam a lugar nenhum. E que fique claro que nada disso eu pensei enquanto sonhava. A gente pensa quando sonha?&lt;br /&gt; Bom, não sei, nem sei se interessa, mas meus sonhos são interessantes porque em geral eu levo um puxão de orelha de alguém. As vezes fica até meio desagradável essa coisa de ter sempre alguém me ensinando alguma coisa. Obrigado à minha incomparável modéstia para me permitir aprender (sem me sentir absolutamente nada superior por isso, se soou assim, a culpa é do leitor que não me entendeu!)&lt;br /&gt; Mas enfim, onde eu estava? Ah, sim, diante de duas portas com um menino até bem bonitinho que disse que não interferiria na minha escolha mas não vai me dizer que porta abrir até eu decidir pela porta que ele acha mais adequada. Ironias à parte, no fundo eu sabia que ele tinha razão. É claro que viver num mundo encantado onde eu sou a estrela, o sol, e tudo gira ao meu redor é muito mais agradável, mas não tem condições de durar, cedo ou tarde a realidade bate à porta (trocadilho não intencional) e torna tudo ainda mais difícil, afinal, é nesse momento que a gente vê o quanto está sozinho, o quanto cada um tem sua vida e seus próprios problemas.&lt;br /&gt; -Por quê? – Perguntei sem saber ao certo o que queria saber. Mas ele sabia.&lt;br /&gt; - Nada é tão simples quanto tentamos fazer parecer, só isso. Você se escondeu na sua imaginação e teve seus motivos para isso, todo mundo tem uma válvula de escape, só que alguns tem só uma distração, outros transformam em um estilo de vida. Esse é o seu caso, você não tem somente um passatempo, você se entregou completamente à ele.&lt;br /&gt; - Eu estou realmente confuso. Alexandre, o amor da minha vida, e Aninha, minha melhor amiga, são meramente frutos da minha imaginação? &lt;br /&gt; - Simbolicamente falando, são.&lt;br /&gt; - Que remédio se toma pra isso? – Falei rindo, mas não estava achando engraçado.&lt;br /&gt; - Ah, se fosse tão simples! – Ele sorriu, isso me agradou. – Eles existem, Erich, mas os verdadeiros Alexandre e Aninha sou eu, alguém que você acaba de conhecer, alguém que você simpatiza mas não sabe exatamente quem é. Eles não são as pessoas que você fantasiou, eles não seguem seus sonhos, eles tem vida própria e essa passa muito longe daquilo que você criou como seu mundinho perfeito.&lt;br /&gt; - E quem disse que meu mundo é perfeito? – Realmente me dava raiva cada vez que havia qualquer insinuação de que as coisas para mim são mais divertidas porque sou capaz de me desligar da realidade e viver num universo paralelo. – No meu mundo perfeito o Alexandre me ama, está comigo, estamos construindo uma vida à dois, e a Aninha está curtindo tudo isso ao meu lado, tem vontade estar o tempo todo comigo e...&lt;br /&gt; - E isso acontece. Na sua imaginação isso acontece. Você não sente o Ale fisicamente, vocês não fazem amor com seus corpos, e o seu telefone não toca com a Ana do outro lado da linha, porque o seu corpo, a sua pele, habita o mundo real, mas vais ter a coragem de negar que no seu mundo subliminar isso tudo não acontece?&lt;br /&gt; Ok, me pegou. Não respondi, ele sabia a resposta, ele parecia saber de tudo. Verdade, há tempos não sinto os lábios do Alexandre, há tempos não misturamos nossos corpos, mas isso jamais deixou de acontecer na minha imaginação, eu continuo amando e sendo amado nos meus sonhos. E como não podia deixar de ser, Aninha me ligava ao final de tudo isso pra saber como foi. &lt;br /&gt; Alexandre não me toca mais, Aninha não me liga.&lt;br /&gt; - Isso não é o fim do mundo, isso é a vida, e é assim pra todo mundo. – Disse-me ele.&lt;br /&gt; - Você existe. – Completei.&lt;br /&gt; - Eu existo. Eu estarei por trás de uma dessas portas. – Ele sumiu, mas de um jeito que eu não sei explicar, eu sabia muito bem em qual das portas ele havia entrado, eu sabia muito bem o que me esperava por trás de cada porta. A única coisa que eu não sabia é se eu estava pronto para atravessar a porta certa.&lt;br /&gt; Toquei na maçaneta da porta dos sonhos e tive a total consciência que poderia ser irreversível, que me afundar ainda mais nas minhas ilusões poderia me reservar um futuro triste e complicado. Larguei, me afastei um pouco e sentei no chão, olhando fixamente para a imagem das duas portas lado a lado, como uma metáfora que realidade e ficção andam juntas, e é muito fácil errar o alvo e seguir pelo caminho errado.&lt;br /&gt; “Eu vou te ajudar, mas tem muita coisa que vais ter que se virar sozinho.” Essas palavras ecoavam na minha cabeça. Ele me estendera a mão, mas naquele momento não havia ninguém ali para me dizer o que fazer. Queria pedir socorro, falar com amigos, com familiares, pedir conselho... deixar que decidissem por mim... mas ali eu estava sozinho, preso no meu próprio sonho. Não havia a quem recorrer, ali seria somente eu e minha consciência, foi então que eu percebi o quanto fui me tornando dependente dos outros, o quanto eu já não me sentia capaz de dar o próximo passo seguindo somente meu coração, minha intuição e minha vontade.&lt;br /&gt; Me levantei e segui para a porta da realidade. Não porque eu havia decidido que era isso que eu queria, mas porque do outro lado estava aquele menino, meu único ponto de referência nesse sonho completamente estranho, e eu não podia mais suportar o peso da responsabilidade de tomar as rédeas da minha própria vida. Abri a porta e dei de cara com um imenso corredor, eu não enxergava o fim dele. Tive medo, pensei em recuar, mas uma força estranha me puxou para dentro e fechou a porta atrás de mim. Em uma das paredes, havia um bilhete pregado, logo na entrada.&lt;br /&gt; “Essa ainda não é a vida real, você ainda está muito ligado à sua fantasia. Esse corredor representa o caminho que tens que percorrer, e não se preocupe, ele não é longo somente para você. E nesse longo caminho, vais aos poucos percebendo as coisas boas que o mundo real pode proporcionar, mas entenda que terás ‘abstinência’, pois a fantasia é tão viciante e poderosa quanto qualquer droga alucinógena. Não será fácil, viver não é fácil, mas pelo menos é real, e é sua única chance de chegar ao fim do caminho um dia, de chegar aos seus objetivos. Boa sorte, e não se sinta abandonado ou tão sozinho, você está na melhor companhia que poderia ter: você mesmo.”&lt;br /&gt; Não, aquilo não podia estar certo! Como eu poderia ser minha melhor companhia, se eu sequer confiava nas minhas próprias decisões? Onde estavam as pessoas reais? Os amigos, os parentes? Não havia ninguém ali além de mim e um imenso corredor. Ok, o significado era óbvio, por mais que as pessoas tivessem boas intenções e quisessem estar ali comigo, a minha “desintoxicação” do meu mundo imaginário era uma tarefa solitária, somente eu poderia vencer essa etapa. Sozinho.&lt;br /&gt; Me encostei na parede, tentando arranjar coragem para mais um passo, já que o primeiro havia sido dado quando escolhi a porta. Respirei fundo, mas não me movi. Somente quando meu despertador tocou e fui invadido por uma gigantesca sensação de alívio, eu estava fora do corredor, de volta à vida... real?&lt;br /&gt; Levantei atordoado, peguei o telefone louco para falar para a Aninha desse sonho tão perturbador. Quando disquei o primeiro número me lembrei de tanta coisa que havia acontecido, me lembrei que ela tem a vida dela, que a Aninha dos meus sonhos não existe na vida real, onde estavam meus dedos sobre o teclado do telefone, e onde estava ela também, eu não tinha como ligar para a minha Aninha. E principalmente, eu precisava aprender a lutar minha guerra com meu exército particular: eu, minha vontade, minha força, meus ideais e minha capacidade de caminhar com minhas próprias pernas.&lt;br /&gt; Me sentei na cama, desolado, com uma sensação de solidão profunda, dolorosa, difícil de suportar. Mas eu havia feito uma escolha, sozinho, e teria que aprender a lidar com a vida como ela é. Tive medo. Tenho medo, mas quem sabe pode valer a pena? &lt;br /&gt;Tomara.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-556888738054124?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/556888738054124/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/12/mundo-real.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/556888738054124'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/556888738054124'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/12/mundo-real.html' title='Mundo real'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-2606435889336449532</id><published>2009-12-06T01:17:00.000-02:00</published><updated>2009-12-06T01:18:15.834-02:00</updated><title type='text'>Usufruto</title><content type='html'>Eu não o amava. Essa era a única verdade que podia ter sobre tudo o que acontecia. Eu não sei até que ponto eu fui um covarde, ou um cafajeste. Eu não sei até que ponto não fui simplesmente humano. Eu tinha 17 anos, tinha acabado de entrar na faculdade e estava assustado com o que a vida poderia vir a me aprontar.&lt;br /&gt; E foi exatamente nesse período estranho, conflituoso e desagradável  que Igor entrou na minha vida. Ele era mais velho que eu, mas era pequeno, franzino, parecia um menininho desprotegido; nada nele me chamava de fato a atenção. Ele trabalhava na faculdade e com o salário mais o desconto de funcionário, cursava duas a três disciplinas de arquitetura, as vezes até menos, e estava plenamente consciente que se formaria com mais de 10 anos de curso.&lt;br /&gt; Ele era todo sensível, doce, sentimental, e não demorou para eu perceber que ele estava apaixonado por mim. Eu, claro, fiquei me sentindo o cara mais especial do mundo; embora eu não seja feio, também estou longe de ser aquele cara que as pessoas apontam, admiram, se apaixonam.&lt;br /&gt; Depois de muito tempo lutando pelo amor do Alexandre, me colocando em posição de inferioridade em relação a ele, considerei o Igor uma excelente opção para me proporcionar auto-estima. Ele era louco por mim, enquanto continuasse assim, eu me sentia especial, eu me sentia capaz de conseguir o que quisesse e quem quisesse.&lt;br /&gt; Alguma coisa eu sentia por ele, seria impossível conviver com um garoto tão... piegas se não tivesse sentimento nenhum. Ou talvez não, talvez eu de fato tenha feito esse “esforço” para usufruir das vantagens de ser o homem amado daquele garoto tão carente. As vezes eu tinha pena dele; sua paixão, seu sentimento de dependência de mim o tornava vulnerável, fraco, por vezes até patético, e não raro me deixava profundamente irritado.&lt;br /&gt; Era fácil demais, ele fazia um esforço monumental pra me agradar, ele me procurava, ele batalhava pelos meus sonhos, ele se entregava de corpo e alma a tudo que se relacionasse a mim achando que isso um dia poderia conquistar meu coração. E ele estava tão longe disso que eu chegava a me perguntar se ele efetivamente acreditava que sua devoção fosse ser vista como algo bom por mim. Não era, o fazia mal, porque o tornava extremamente descartável.&lt;br /&gt; Tivemos nosso pseudo-rolo, ele mantinha um banheiro desativado nos fundos do prédio da comunicação sempre limpo, esperando por mim. Nunca tinha hora certa nem nada do tipo, mas todas as vezes que tive vontade de transar, eu o encontrava lá, esperando, disposto, oferecendo seu corpo e alma para que eu “me aliviasse”, sem me cobrar nada, mas esperando que um dia eu finalmente o percebesse como alguém importante para mim.&lt;br /&gt; Sempre que eu entrava no banheiro, ele estava sorrindo. E sorrindo muito, mesmo que tivesse me esperado por horas, ele me recebia sorrindo, me abraçava, me beijava sem que eu movesse um músculo do meu corpo, sem que eu retribuísse, mas ele encarava a minha não recusa como um bom sinal, e eu não me dava ao trabalho de corrigi-lo, era cômodo para mim, afinal, depois das tentativas dele de trocar carinho comigo, ele se despia, virava de costas para mim apoiado na pia que não funcionava mais e esperava que eu o invadisse.&lt;br /&gt; Ele era todo meu, eu poderia fazer o que quisesse, pedir o que quisesse que ele faria, e toda vez que eu o encontrava para transar, eu me convencia que estava sendo uma alma generosa em oferecer àquele pobre garoto algo que ele queria tanto, algo que ele precisava, que era meu corpo, meu toque, mas jamais lhe ofertei minha alma, meu coração.&lt;br /&gt; Muitas vezes, depois do sexo, conversávamos um pouco, ele fazia planos, tinha sonhos, tinha grandes ilusões sobre nós. Dizia-se “pé no chão” por entender que não poderíamos assumir uma história juntos porque a sociedade não aceitaria, mas a verdade é que eu não tinha o menor problema em me relacionar de verdade com outro homem, meu problema era me relacionar com ele. &lt;br /&gt; Ele era romântico, as vezes parecia uma menininha com uma boneca na mão, ele me elogiava, costumava ressaltar o quanto eu era melhor que todos os outros com quem ele havia se relacionado antes, o quanto eu era o mais carinhoso, o mais doce, o mais bonito, o mais inteligente, o mais outras dezenas de qualidades. E eu saía daquele banheiro de alma lavada, saía pronto para correr atrás de quem eu queria.&lt;br /&gt; Era sempre assim, eu tinha meus paqueras, e depois de uma injeção de auto-estima que eu ganhava do Igor, eu procurava os outros, e oferecia a eles o melhor de mim, enquanto Igor ficava somente com uma pequena parte, uma parte que de tempos em tempos deixava de existir e eu simplesmente deixava de encontrá-lo.&lt;br /&gt; Lembro-me de tantas vezes que ele me convidou pra viajar com ele, jantar com ele, ir ao cinema com ele, e eu sempre deixava a resposta para o último minuto, e a resposta era sempre “não”. Ele sofria, e doía meu coração vê-lo arrasado, mas eu não podia, não aguentaria me forçar a fazer coisas que eu não tinha vontade, com alguém com quem eu raramente tinha realmente vontade de estar.&lt;br /&gt; E de tempos em tempos, durante as conversas pós-sexo, ele fazia aquela cara de menino órfão e me perguntava sorrindo:&lt;br /&gt; - Erich, você gosta de mim? – Mesmo com meu coração martelando, eu lhe dava a resposta que ele queria ouvir.&lt;br /&gt; - Claro, Igor! Se não gostasse, não estaria aqui!&lt;br /&gt; E ele ria como uma criança, feliz e satisfeito, e me abraçava, e comentava de como era bonita nossa história quando na verdade não havia história alguma. No dia seguinte eu não aparecia, e não aparecia as vezes por semanas, mas quando eu tinha vontade, ia ao banheiro desativado e lá estava ele, sempre me esperando.&lt;br /&gt; Toda vez que eu tocava minha vida longe dele, imaginava que não o encontraria mais lá, ou se o encontrasse, ele me agrediria física ou verbalmente, ou que pelo menos não sorrisse mais pra mim. Mas não, não interessava o tempo que eu ficasse longe, e sabendo que sentia cada minuto da minha ausência, sempre que eu voltava ele estava lá, sorrindo, disposto, e isso acabava comigo, eu não queria feri-lo, eu não queria assumir a responsabilidade sobre os sentimentos dele, simplesmente porque eu não sentia por ele nem perto do que ele sentia por mim.&lt;br /&gt; E me justificando dessa maneira, como o cara preocupado com os sentimentos dele, fui o ferindo cada dia mais, pois ele de fato nutria esperanças e eu permitia que isso continuasse acontecendo e aumentando. Não o queria mal, claro que não, mas a verdade é que eu o usava para obter prazer.&lt;br /&gt; - Imagina que legal um fim de semana na praia, só eu e você! Eu consigo uma casa emprestada, a gente pode ir fora de época para podermos andar de mãos dadas na areia sem ninguém nos incomodar! A gente pode fazer pizzas e caipirinha, e dormir na cama de casal! – Dizia ele com os olhos brilhando enquanto se vestia novamente. Eu sorria, um sorriso forçado, mas era isso que ele tanto buscava.&lt;br /&gt; - Podemos sim, um dia. – Respondia sem convicção, apenas para não dizer-lhe que isso jamais aconteceria. Apenas para garantir que ele não desistisse de me querer tanto, no fundo. &lt;br /&gt; Eu sentia minha parcela de culpa, mas não percebia que eu estava sendo tão cruel com aquele menino que só o que queria era me fazer feliz. E cada vez que eu o encontrava, eu só piorava a situação, eu o deixava mais apaixonado, mais esperançoso, desejando ainda mais estar comigo, porque até ali eu era o cara que se encontrava com ele, que retribuía sorrisos, que compartilhava seus planos mesmo ciente de que não tornaria nenhum deles real, eu era o cara que ainda não tinha desistido dele.&lt;br /&gt; Eu não tinha do que desistir na verdade, e ficava feliz por ele não ter desistido de mim durante todo aquele tempo. Não que eu não me importasse nada com ele, no fundo eu devia ter algum tipo de consideração ou só transava com ele e ia embora. Ou não, nesse caso talvez ter consideração seria exatamente isso, deixar muito claro desde o começo que eu não tinha a menor intenção de transformar nossos encontros em uma história a dois.&lt;br /&gt; O fato é que, depois de algum tempo, e depois de sumir de novo sem nenhuma explicação aparente, quando voltei não o encontrei lá. Me sentei num banco e esperei um pouco, mas ele não apareceu. Nem no dia seguinte, nem no outro. E foi aí que eu percebi que gostava dele, não do prazer do sexo, mas do prazer da companhia dele. Ele era um garoto legal, tinha um papo divertido, era inteligente, era alguém que certamente teria gostado de ter na minha vida, não como namorado, mas como um bom amigo.&lt;br /&gt; Comecei a pensar no quanto eu havia perdido; ele sempre me dizia que tinha medo que um dia eu simplesmente parasse de ir vê-lo, que tinha medo de me perder. Ele não tinha o que perder na verdade, eu nunca fora verdadeiramente dele, mas no fim das contas, quando já era tarde demais, eu percebi que a única pessoa que saiu perdendo fui eu.&lt;br /&gt; Ele sofreu, era visível o sofrimento dele nas poucas vezes que o vi de passagem, se eu tentava me aproximar, ele se afastava, imagino o quanto foi difícil para ele resistir à tentação de ir ao velho banheiro desativado esperar por mim, o quanto deve ter sido difícil ignorar a parte boa, divertida e agradável do nosso relacionamento pensando na parte ruim, dolorosa, complicada.&lt;br /&gt; Eu sei que ele superou, que ele levantou a cabeça depois de fazer o “luto” de mim, que ele seguiu em frente. Não sei se ele é feliz hoje, mas espero sinceramente que sim, que ele tenha encontrado pessoas no caminho que merecessem a sua presença. Ele não era uma pessoa fácil, tão cheio de problemas, tão sensível, tão frágil, mas depois de um tempo eu pude perceber que boa parte do erro era meu. Talvez se eu não tivesse me enganado por tanto tampo, me convencido que fazia o que era melhor pra ele e tivesse efetivamente pensado nisso, poderíamos ser bons amigos hoje. E eu confesso que sinto falta dele, até hoje, tem certas coisas dele que não encontrei em mais ninguém, e que certamente não vou encontrar.&lt;br /&gt; Pois bem, eis que a vida dá suas voltas. Tanto tempo depois me descubro como basicamente um aparelho massageador de ego para a única pessoa que acreditei que verdadeiramente gostasse de mim. Eu sei que tem muita gente que me admira, muita gente que curte conversar comigo de vez em quando, mas ela... ela eu pensei que me amasse, eu pensei que fosse certamente a única pessoa sem ser da minha família que efetivamente se importasse comigo, com meus sonhos, com meus projetos e minha realizações.&lt;br /&gt; Aninha, a pessoa a quem entreguei meu coração como amigo leal e devotado. Ela era o Erich e eu o Igor, descontando a parte sexual. Mas por algum motivo que eu não sei dizer exatamente qual, a vida nos brindou não somente com uma segunda chance, mas com a oportunidade de compartilhar exatamente aquilo que vínhamos escondendo um do outro. &lt;br /&gt; Vínhamos há algum tempo com percalços, com questões mal resolvidas, com pedras no caminho e com ela me querendo morto e eu querendo morrer por causa dela. Eu de um lado sofrendo feito um cão sem saber ao certo o que estava acontecendo, e ela, do outro, me querendo longe, e me querendo perto, e não sabendo qual dos dois sentimentos era mais forte, ou sequer se algum dos dois era real.&lt;br /&gt; E foi numa dessas que ela se descobriu e me abriu o coração. Saber que ela não correspondia em absolutamente nada o meu sentimento por ela não foi a coisa mais agradável do mundo, mas eu me emocionei, me emocionei por ela ter se descoberto, se conhecido melhor, por causa de sua confusão em relação a mim, mas principalmente, me emocionei porque ela se abriu pra mim, ela nunca havia feito isso porque ela nunca havia confiado o bastante em mim, ela nunca havia se sentido disposta a dividir comigo algo tão... dela.&lt;br /&gt; Eu acreditei em cada palavra dela, eu acreditei na exposição de cada sentimento, porque eu sei que, embora isso tudo tenha acontecido, ela está longe de ser uma pessoa má, assim como eu também não sou um monstro, ou pelo menos procuro ser uma pessoa boa, mas já caí no pecado de estar próximo de alguém só pelo benefício que esse alguém pode me proporcionar.&lt;br /&gt; Desconstruímos o amor. E foi um exercício muito interessante, uma vez que não somente nos conhecemos um pouco mais, ou melhor, nos conhecemos, mas também percebemos que ninguém está imune do que aconteceu entre eu e Igor e do que aconteceu entre ela e eu. Não, a gente não complica o amor, a gente simplifica, demais até.&lt;br /&gt; Lamentei não ter tido essa chance com Igor, e fiquei me perguntando o que aconteceria se eu tivesse desistido de Aninha como Igor desistiu de mim. Eu teria superado? Eu teria sequer conseguido ir até o fim? Não sei, mas nessas horas prefiro acreditar que nos tornamos verdadeiramente amigos, que esse nosso exercício, que tudo isso que compartilhamos, poderá garantir vida longa à nossa amizade. Eu pelo menos acredito com todas as minhas forças que vale a pena, ela vale a pena.&lt;br /&gt; Já teve quem me dissesse que isso de agora é mais uma grande ilusão minha, que Aninha está jogando comigo, que Aninha quer se ver livre de mim, que ela me usou e por isso não me merece. Ok, mas estou eu isento de culpa? Sou eu tão somente uma vítima inocente de uma pessoa egoísta e calculista? Não terei eu a usado de alguma forma também?&lt;br /&gt; Pois bem, não sou inocente. Ninguém é. Se a usei, não foi consciente, como acredito sim que isso tenha acontecido com ela também, se ela me merece ou não, é o tempo que vai me dizer, por hora não me julgo alguém assim tão grandioso e puro a ponto de dizer que alguém não me merece. Não sou melhor que ninguém, não sou melhor que ela. &lt;br /&gt; Eu gosto demais dela, eu gosto demais da companhia dela, da conversa dela, e não estou disposto a ignorar toda nossa história e todas as coisas boas que ela me proporciona por algo que de fato não é agradável, mas é humano. Não posso culpá-la por não ser perfeita, não é verdade?&lt;br /&gt; Numa hora dessas temos que pesar tudo: os bons e maus momentos, as lições, as lágrimas, os sorrisos, a dor e as gargalhadas, mas principalmente, os nossos erros mútuos. Se eu não tivesse errado com ela também, se não tivéssemos tantas lembranças boas, mágicas, talvez até fosse o caso de ignorar sua sinceridade, sua abertura de coração, e virar as costas, tentando acreditar que ela perderia mais do que eu. Mas definitivamente não é o caso, eu não sou santo, eu não sou vítima, eu sou a outra parte desse relacionamento.&lt;br /&gt; Talvez isso tenha faltado na minha história com o Igor: a culpa dele. Não que ele não tenha tido defeitos, ou não tenha feito nada errado, mas sim, eu não fiz absolutamente nada por nós dois. Eu não tentei, eu não arrisquei, eu não assumi nenhum tipo de responsabilidade, ao contrário, eu o iludi e sequer passou pela minha cabeça fazer algo para mudar isso. Talvez porque eu nunca tenha percebido isso, talvez porque quando Aninha percebeu o que vinha fazendo e me abriu o coração que eu me tornei capaz de ver meus erros.&lt;br /&gt; É provável que isso não funcione com muita gente, talvez a maioria das pessoas esteja preparada ou disposta a viver somente uma relação superficial com seus amigos. Nunca foi o meu caso, eu sempre fui aquele sonhador, que acredita no amor verdadeiro e na amizade plena. Ok, nenhum dos dois existe, ambos são excelentes recursos de ficção, mas não consigo tolerar que eu chame de amigos pessoas que eu verdadeiramente nem sei quem são.&lt;br /&gt; Talvez por isso eu me sinta um pouco mais à vontade agora para chamar aninha de amiga. Mesmo que alguns não acreditem na sinceridade dela, foi dessa forma que eu me senti. Eu sei que ela esconde muita coisa de mim ainda, e talvez ela jamais venha a compartilhar algumas coisas comigo, mas de qualquer forma, ela está no seu direito, ela não é como eu que conta tudo de mim pra todo mundo.&lt;br /&gt; De todo jeito, apesar de ter muitos motivos para desconfiar, para virar as costas, para tentar seguir em frente sem ela, eu tenho um para ficar que acaba com todos os outros: esperança. Eu tenho esperança que tenha sido tudo real porque temos uma história, e temos uma história bonita. Eu tenho esperança que as coisas possam melhorar porque eu estou me descobrindo também e buscando a solução dos meus problemas, os mesmos que tornaram nossa convivência um pouco menos agradável pra ela. Esperança que ela também corrija onde errou comigo. Esperança que nossa história possa ter um “final feliz”.&lt;br /&gt; Não, errado, que nossa história possa ter uma trajetória feliz. E eu desejo de todo o meu coração que ela também queira isso. Sei lá, eu acredito sinceramente que vale a pena. Ou pelo menos eu estou totalmente disposto a fazer valer à pena.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-2606435889336449532?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/2606435889336449532/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/12/usufruto.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/2606435889336449532'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/2606435889336449532'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/12/usufruto.html' title='Usufruto'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-6677775842764951365</id><published>2009-11-28T20:49:00.000-02:00</published><updated>2009-11-28T20:54:19.188-02:00</updated><title type='text'>Remédio para dor</title><content type='html'>Era final de semestre, não tenho como esquecer certos detalhes. Renan era um estudante de fisioterapia que me chamava a atenção há algum tempo, ele e seus cachos negros próximo aos olhos. Embora o prédio da comunicação na faculdade fosse diferente da área da saúde, cruzávamos sempre na espera pelo ônibus, infelizmente nunca pegávamos o mesmo.&lt;br /&gt; Ele tinha toda aquela pinta de homem maduro, devia ser mais velho que eu, na verdade a idade dele eu nunca cheguei a descobrir, mas eu era um moleque de 22 anos, baixinho, loirinho de olho claro, com a famosa cara de bebê. E sério, não tem coisa mais irritante para um homem, gay ou não, do que ser chamado de fofinho ou meigo. Pior ainda quando a pessoa vem apertando a bochecha como se eu tivesse 3 anos de idade!&lt;br /&gt; Mas enfim, Renan me gritava aos olhos, era impossível não reparar no aparente corpo perfeito que escondia por trás das roupas esportivas. Eu sabia que além do curso, ele ainda praticava algum esporte por ali, junto aos alunos de educação física, mas ainda não sabia ao certo qual. Até que apareceu o folhetinho no prédio da comunicação.&lt;br /&gt; Claro que a essa altura eu sequer imaginava o nome dele, mas vi um anúncio convocando meninos para um time de futebol, a ideia era fazer joguinhos simples, celebrando o começo das férias. Eu cruzei com ele quando entrava no prédio e estranhei sua presença ali, mas o folhetinho não me deixou dúvidas de que aquele protótipo de homem dos sonhos era o tal Renan que tinha assinado o anúncio.&lt;br /&gt; Anotei o número de contato e esperei o fim da aula para ligar. Era ele, a voz não deixava dúvidas, já tinha o ouvido falar com colegas na parada de ônibus.&lt;br /&gt; - Renan? Olá, meu nome é Erich, sou da publicidade e me interesso pelo time de futebol, o que devo fazer?&lt;br /&gt; - Olá, Erich, faça o seguinte, semana que vem nos reunimos no campo atrás do prédio da Educação Física, na terça feira, às 14h, podes estar lá?&lt;br /&gt; - Claro, estarei!&lt;br /&gt; Depois de desligar o telefone de vibrar por aproximadamente 30 segundos, me dei conta do óbvio: eu era e ainda sou péssimo no futebol. Aliás, eu nunca gostei nem de jogar e nem de ver futebol. Eu tava ferrado, não tinha dúvidas.&lt;br /&gt; Passei o resto da semana pensando em como ir a esse encontro para conhecê-lo melhor e me livrar de entrar no time. O que eu não imaginava era que essa dispensa aconteceria da melhor maneira possível.&lt;br /&gt; Cheguei ao encontro inseguro, eu sequer podia afirmar que Renan também era gay, ele não demonstrava em nada e bom, ao contrário do que alguns pensam, não existe um radar gay, pode acontecer de a gente se enganar, não seria a primeira vez pra mim. Ele estava lá, de regata mostrando os músculos dos braços, e os cachinhos quase sobre os olhos. Minha primeira reação foi sorrir, a segunda foi me sentir o perfeito idiota porque eu claramente não podia pertencer ao grupo dos machões fortões do time que se formava.&lt;br /&gt; O Renan sorriu pra mim, veio em minha direção e me guiou pelo ombro até os demais rapazes, que me olhavam num misto de incredulidade e deboche; pelo menos dois deles já me conheciam e, se não for complexo de perseguição, sabiam da minha orientação sexual. Eu tava ferrado. Um deles imediatamente se afastou de mim como se eu tivesse envolto em algum tipo de gosma, mas isso não me afetou, infelizmente ainda é uma coisa comum na minha rotina. &lt;br /&gt; - Suponho que você seja o Erich. – Disse-me ele.&lt;br /&gt; - Acertou. Como sabia? &lt;br /&gt; - Você foi o último a chegar. E Erich, não sei se cheguei a comentar, mas esse encontro  não é uma reunião, a ideia é que fosse o primeiro treino.&lt;br /&gt; - Ah, sim, eu entendi dessa forma.&lt;br /&gt; - Então onde está sua mochila?&lt;br /&gt; - Mochila? Como assim?&lt;br /&gt; - O gel no cabelo é até aceitável, mas você não pretende jogar futebol de calça jeans, camisa e sapato social, pretende?&lt;br /&gt; Ok, agora não tinha mais meios de me escapar da sensação de imbecilidade. Eu de fato havia passado um tempão arrumando o cabelo, escolhendo a roupa, havia passado perfume e lá estava eu, num campo de futebol, com os trajes ideais para uma inauguração. Renan percebeu, e não só ele, alguns dos outros rapazes riam discretamente, somente aquele que havia se afastado me olhava com reprovação.&lt;br /&gt; - Não se preocupe, posso lhe emprestar um uniforme. – Falou ele, ainda segurando meu ombro.&lt;br /&gt; E foi assim que iniciamos o treino, eu usando um uniforme que me era grande, Renan era um homem grande, másculo, e eu me senti um garotinho dentro daqueles trajes que ainda conservavam um cheiro hipnotizante de loção pós-barba. Tive pequenas esperanças de ficar no banco de reservas, mas o time era pequeno, estávamos no número exato de titulares, e Renan não jogava, somente coordenava o time.&lt;br /&gt; Até hoje não sei dizer em que posição eu joguei, até porque não “sobrevivi” até uma partida oficial, nosso time era dividido em dois para permitir o treino e eu ficava basicamente correndo feito um idiota pelo campo. Eram duas semanas de treinos diários que acabavam comigo e meu precário condicionamento físico. Por causa disso, Renan se ofereceu para me dar um auxílio após os treinos, e eu aceitei.&lt;br /&gt; Nosso trabalho físico durou exatamente 3 dias, antes do meu pequeno acidente provocado por terceiros. Nesse tempo tivemos realmente a chance de conversar e nos conhecer melhor, nada muito íntimo, mas descobri que gostávamos das mesmas bandas, por exemplo. Estávamos no meio da segunda semana de treino, faltando somente quatro dias para o primeiro jogo de verdade quando um dos rapazes que nãos gostaram da minha presença me procurou pouco antes de entrarmos em campo.&lt;br /&gt; - Erich, o que afinal você está fazendo aqui?&lt;br /&gt; - Eu? To me trocando de roupa para treinar, exatamente como você.&lt;br /&gt; - Você sabe do que estou falando. – Ele me prensou contra um dos armários e o socou, fazendo um forte estalo no meu ouvido. – Desde quando bicha joga futebol?&lt;br /&gt; - Ah, qual é, amigo! Você realmente acredita que nenhum homossexual joga futebol?&lt;br /&gt; - Qual é a de vocês, hein? Parem de se meter onde não devem, caramba!&lt;br /&gt; - Não posso, tenho ordens superiores. É o seguinte, nós somos uma raça diferenciada e invadimos o seu planeta com a intenção de escravizar os humanos. – Eu sabia que aquilo não terminaria bem, mas eu precisava aproveitar o momento. – Ah, colega, francamente! Te cantei? Tentei te agarrar? Não né? Então por que você não para de pensar na minha vida íntima e vai fazer algo por você? – Cheguei a sentir o vento do punho fechado dele em direção ao meu rosto quando Renan entrou.&lt;br /&gt; - O que está acontecendo aqui?&lt;br /&gt; - Nada Renan, ele só queria me conhecer melhor. – Falei rindo enquanto o garoto espumava.&lt;br /&gt; - Isso não fica assim. – Falou ele baixinho antes de sair do vestiário.&lt;br /&gt; Bom, de fato não ficou. Durante o treino meu querido colega rompeu os ligamentos do meu pé direito. Mas sabe de uma coisa? Foi a melhor coisa que podia ter me acontecido naquele momento. Saí de campo apoiado em Renan, tão entorpecido em seu perfume que quase fui capaz de não sentir dor.&lt;br /&gt; Ele me levou a um hospital e cuidou de todos os detalhes enquanto eu era atendido e tinha meu pé engessado. Achei lindo o jeito como ele agiu, com tanto cuidado que cheguei a pensar como seria se fosse meu namorado. Na verdade foi a primeira vez que eu de fato acreditei que pudesse estar em seus braços.&lt;br /&gt; Depois de todo o processo, tudo resolvido, ele me levou pra casa e escandalizou meus vizinhos me levando no colo para dentro do meu apartamento, onde ganhei uma massagem no outro pé, com a justificativa que havia forçado a musculatura ao apoiar todo meu peso nele. Eu não sei bem que movimentos ele fez, só sei que eu fiquei completamente encantado e entregue às suas mãos firmes e quentes.&lt;br /&gt; Fechei meus olhos e me deixei levar. Poucos minutos depois, Renan beijava-me a boca. Com meus dedos, me perdi em seus cachos enquanto ele cuidadosamente beijava meu pescoço. Eu estava suado do treino, e logo estávamos ambos banhados em suor por uma série de outros motivos que incluíam minha passagem de ida sem escalas ao paraíso.&lt;br /&gt; Naquele dia não houve dor que me impedisse de rir sozinho, não é todo dia que um homem como aquele corresponde a um menino com carinha de órfão como eu. Eu queria entender como eu o havia atraído daquela forma, a ponto de virarmos um só com todo o cuidado do mundo por causa do meu gesso ainda molhado.&lt;br /&gt; Tentei não nutrir nenhum tipo de esperanças, mas o destino resolveu que queria ser meu amigo e no dia seguinte recebi nova visita dele, ele já chegou me beijando a boca e nos sentamos como um casal no sofá da sala, com ele me envolvendo em seus braços fortes, tratando-me como um menino que precisa de cuidados.&lt;br /&gt; - Nunca pensei que um cara como você olharia para mim. – Comentei entre beijos.&lt;br /&gt; - E por que não olharia?&lt;br /&gt; - Não sei, você tem todo esse jeito de atleta e eu sou tão... não sei, com um jeitinho de criança... – Ele riu e beijou-me a testa.&lt;br /&gt; - Não fale que tem jeito de criança porque parece doentio, mas é justamente esse seu jeito desprotegido que mexe comigo, eu quero cuidar de você, eu quero confortar você, eu quero... eu quero você.&lt;br /&gt; Não movi um único músculo, deixando que ele me manipulasse como um fantoche, me despisse com um gentileza e sutileza inesperada diante de seus músculos e se tornasse novamente o meu remédio para todas as dores. E foi assim por duas semanas, o tempo que permaneceria imobilizado, falhando somente no dia do jogo, em que tentou me convencer de assistir, mas pensei que poderia ser ruim para ele, que ainda tentava manter alguma aparência até para manter o respeito do seu time de futebol.&lt;br /&gt; E assim como entrou, Renan saiu da minha vida. Foram as duas semanas mais bizarras da minha vida, que terminaram no instante em que ele me largou em casa, depois de tirar o gesso. Eu entendi exatamente o que aconteceu: eu já não precisava mais de cuidados. Claro que no começo estranhei, senti falta, mas sabia bem que era uma etapa superada, ele era simplesmente o melhor remédio para dor que eu poderia ter, e sem dor, eu também já não necessitava do remédio.&lt;br /&gt; Cheguei a encontrá-lo mais umas duas vezes no campus, ele piscava para mim, querendo dizer que fui especial, mas cada um seguiu sua vida, ele se formou e se transformou em um fisioterapeuta respeitado, um dos melhores da região. Mas lembrando daquelas duas semanas, confesso que às vezes tenho uma certa vontade inventar um problema qualquer para contratá-lo... e exigir atendimento à domicílio...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-6677775842764951365?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/6677775842764951365/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/11/remedio-para-dor.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/6677775842764951365'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/6677775842764951365'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/11/remedio-para-dor.html' title='Remédio para dor'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-4080732802326143132</id><published>2009-11-21T19:16:00.000-02:00</published><updated>2009-11-21T19:17:29.182-02:00</updated><title type='text'>Querendo não fazer sentido</title><content type='html'>Existe algo extremamente cansativo: fazer sentido. Sério, fazer força para sempre fazer sentido é algo estranho, tão pouca coisa no mundo pode ser logicamente explicada sem um título de doutorado que fica esquisito nós, reles mortais, termos que sempre fazer sentido. Vejamos: faz sentido a injeção letal necessitar de uma agulha esterilizada? Faz algum sentido passar a vida toda economizando dinheiro para os herdeiros se matarem por ele depois? Faz sentido não viver com medo de morrer?&lt;br /&gt; Ahá, cheguei num ponto interessante. É a mais pura verdade que muita gente se priva das melhores coisas da vida por medo, os mais diversos tipos de medo, em especial o de morrer. A má notícia é que a morte é a única certeza que podemos ter, portanto, ela vai te encontrar onde você estiver: curtindo a vida ou escondido em baixo da cama.&lt;br /&gt; Eu tenho medos, muitos deles, a Aninha que o diga, andei infernizando ela com meus medos, não é à toa que recentemente ela me deu um “chega pra lá” (e depois, pra minha alegria e alívio, voltou pra cá!), não que ela não tenha, eu chego a acreditar que muitas vezes ela tem mais do que eu, a nossa diferença é que ela raciocina e eu sou completamente guiado pelas minhas emoções.&lt;br /&gt; Mas se tem algo do qual não tenho medo é de viver. Já fiz minhas pequenas loucuras e lamento não ter feito muito mais, passei uma parte da minha vida me segurando, me prendendo em mim mesmo. Claro, por medo. Mas essa fase passou e eu cada vez me sinto mais um espírito livre.&lt;br /&gt; Não que eu seja efetivamente livre, ninguém é. Eu gosto de defender que meu pensamento é livre, outra grande ilusão, porque mesmo que a gente não perceba, estamos sempre nos policiando dentro das normas sociais. Mas quando a gente alcança um sonho, não o grande sonho, mas um pequeno, uma realização que faz a vida ganhar mais cor, a gente estranhamente se sente capaz de tudo. &lt;br /&gt; Eu venci uma batalha, eu conquistei algo que almejava, por esforço próprio, nesse momento é impossível alguém me convencer que não irei conseguir todo o resto que desejo. Quer saber? Fodam-se as pessoas que fazem sentido. Por que sou obrigado a andar na linha reta se o que me faz feliz são as curvas? &lt;br /&gt; Recentemente conquistei algo pelo qual lutei muito. A sensação da conquista, da vitória, é algo que mesmo eu, contador de histórias, sou incapaz de descrever. Num repente, todas as coisas chatas da vida deixam de fazer... sentido! Mas francamente, por qual razão iria eu tentar explicar quase tecnicamente uma sensação que pertence somente ao coração?&lt;br /&gt; Eu poderia dizer que é uma sensação de euforia, que você se sente pequeno para o tamanho da alegria, que parece que sua pele vai se romper e que seu verdadeiro eu, alguém muito maior e mais pleno que você, vai saltar fora e jogar na sua cara que todos os períodos de descrença foram uma imensa perda de tempo.&lt;br /&gt; Mas faz sentido explicar? Claro que não! Eu poderia ocupar páginas e páginas tentando descrever, o único jeito de você, leitor, saber como eu me senti, é passando por isso também. Simples assim. E francamente, é plenamente possível.&lt;br /&gt; Então, pra quê tanto esforço para fazer sentido se as melhores coisas da vida não podem ser explicadas? Não, não podem mesmo, experiências de vida são coisas que a gente conta para as pessoas sem esperar que elas percebam o real tamanho de cada uma. A proporção com que cada momento é sentida é algo tão individual que nem outra pessoa que viveu o momento com você se sentirá da mesma forma. Fato.&lt;br /&gt; Ou pelo menos é o que a Aninha vive me dizendo. Sim, ela me puxa a orelha com frequência, afinal, alguém tem que me trazer pra vida real. Não que seja bem uma boa ideia, mas enfim, eu vivo na vida real e não dentro das histórias que eu crio. Já vivemos muitas coisas juntos e eu sempre enxergo como uma coisa mágica e ela como uma coisa corriqueira.&lt;br /&gt; Bom, não vou dizer que é horrível ser como eu sou, mas sentir demais as vezes pode de fato ser um peso difícil de carregar. Mesmo com o Ale, a cada reencontro, a cada beijo, carinho, nada disso vira rotina pra mim, cada beijo dele me arrepia como se fosse o primeiro, cada momento que vivemos juntos é uma nova aventura que representa um item importante na minha lista de coisas que realmente valem a pena.&lt;br /&gt; Já teve gente que me falou: “é lindo isso, Erich, ter um coração tão grande”. É, bom, pelo menos psicopata eu sei que não sou. Não consigo ser frio (hum, sou quente, baby), não consigo ser seco, não consigo simplesmente não me importar. Claro, a vida ensina, eu não estou aprendendo a sentir menos, estou aprendendo a lidar com a frustração de as pessoas sentirem tão menos que eu e, muitas vezes, não entenderem exatamente como funciona essa coisa na minha cabeça.&lt;br /&gt; Pois vou dizer mais, minha vida é uma gangorra, uma montanha russa emocional. Seria hipócrita da minha parte dizer que sou só mais um na multidão, na verdade eu divido meu jeito de ser com apenas 2% da população mundial, mas não vou me ater nesses detalhes, já que estou aqui hoje para não fazer sentido.&lt;br /&gt; É, super coerente falar dos meus sentimentos e como funciona isso na minha cabeça num texto concebido para ir do nada ao lugar nenhum! Mágico! Não que isso seja uma metáfora da maneira como funciona meu coração, não acho que meus sentimentos sejam assim tão descartáveis pra dizer que não levam a nada. Eles, na verdade, são super complexos, complexos o suficiente para não valer a pena entrar em detalhes.&lt;br /&gt; Não quando escrevo um texto dançando! É impressionante que o mundo dá voltas mesmo, eu tive uma semana tão pesada, tão ruim e de repente o sol voltou a brilhar! Embora estejamos passando por uma temporada de chuvas e desastres naturais por aqui, embora eu esteja contando moedas por culpa da irresponsabilidade alheia (incapacidade total de cumprir tratos e respeitar prazos, mas novamente sem detalhes) e claro, mesmo tendo levado mais um puxão de orelha da Aninha há pelo menos 10 minutos.&lt;br /&gt; Bom, pelo menos ela é dotada de uma paciência quase divina, até porque não é nenhum pecado ou crime digno de castigo amar pessoas... é? Seja como for, eu resolvi que hoje não quero fazer sentido porque a maioria das pessoas não entende o que se passa pela minha cabeça ou consegue mensurar a maneira como as coisas são vivenciadas no meu coração.&lt;br /&gt; Então depois de muito me auto-analisar e ouvir o que as pessoas próximas de mim tinham a dizer (sim, eu escuto mesmo), eu conclui que eu não faço sentido. Claro que pra mim eu faço, mesmo admitindo que não tenho explicações lógicas para nem metade do que eu sinto e da forma como eu costumo agir. Mas enfim, quem tem?&lt;br /&gt; Mesmo conversando com pessoas “normais”, e por normais me refiro às pessoas que se comportam de forma semelhante ao resto da sociedade, o que definitivamente não é meu caso (leia “Aquela Semana” e entenda o que eu quero dizer), percebo que ninguém se entende completamente, todo mundo tem questões pendentes consigo mesmo, então pelo menos na não compreensão de mim mesmo eu sou... normal.&lt;br /&gt; Ok, admito, lutei a vida toda pela tal normalidade, mas quer saber? Acho um tédio. Eu sei que minha personalidade “non-sense” me coloca em muita situação tensa, sei que já perdi amigos por isso (amigos?) e sei que já coloquei a paciência de muita gente no limite, e novamente a Aninha e o Ale que o digam, mas não fazer sentido também não me transforma num ser desprezível. Bom, talvez exatamente o contrário.&lt;br /&gt; Eu sou o cara das mil e uma histórias (e que fique claro que nos contos eu misturo realidade e ficção, mas fora da literatura, é tudo história real, para quem já conversou comigo) simplesmente porque já vivi os mais diversos tipos de situação. Eu sei que sou uma pessoa fascinante, eu sei como encantar e fazer alguns olhinhos brilharem, acima de tudo eu sou bom no que eu faço e parte disso é saber como contar uma boa história. A parte ruim é que meu fascínio é esporádico. Eu sou o cara das histórias divertidas, emocionantes, assustadoras, mas não sou o cara da mesa de bar. &lt;br /&gt; Não que eu não queira isso, não que eu tenha me conformado por isso, mas porque eu não faço sentido. As pessoas têm a necessidade de ordenarem as coisas, de concluírem coisas, de compreenderem as coisas, eu também gosto de lógica, eu também gosto de ter pensamentos e ideias organizadas, e na minha cabeça isso funciona relativamente bem, mas não para quem está ao meu redor.&lt;br /&gt; O que você, caro leitor, pensaria de uma pessoa que abriria mão dos seus sonhos em prol dos sonhos de um amigo, uma pessoa amada? O que você pensaria de uma pessoa que vê seu mundo desabar quando uma pessoa amada lhe disse algo não tão bom quanto essa pessoa gostaria de ouvir? O que você pensaria de uma pessoa que sente que seu dia foi perdido se o atravessou sem saber notícia nenhuma da pessoa amada?&lt;br /&gt; Louca, demente? Exagerada, assustadora? Faça seu próprio julgamento, o meu é: devotada, dedicada, leal (e sem um pingo de amor-próprio, mas ignoremos essa parte). Mas ok, desde criança eu sabia que não existiam dois de mim, pelo menos não por perto. Deixando de ser hipócrita, ainda bem que não convivo com mais ninguém como eu, ou viveríamos envoltos em uma aura shakespeareana entediante e completamente irreal. Já mencionei que eu preciso sempre que alguém me puxe pra vida real? &lt;br /&gt; Mas enfim, que tal ir direto ao ponto? Que ponto? Vejo esse texto mais ou menos como uma ponte que me leva para o depois. Não que o “antes” não fosse bom o bastante, até porque a ponte foi justamente o reconhecimento da qualidade do “antes”, mas sei lá, talvez esse fato tenha me dado mais confiança, mais liberdade de criar, de viajar na maionese, e mais vontade de levar todo mundo comigo.&lt;br /&gt; Se eu pudesse transformar minhas emoções em objetos palpáveis ou momentos que podem ser vividos por todos, eu certamente os convidaria para embarcar em algo psicodélico, colorido, florido... um clima ameno, um arco-íris, canções de amor sem pieguice, músicas para dançar, e eu daria a mão a vocês para guiá-los entre jardins onde não precisaríamos usar os pés, flutuaríamos como se não houvesse gravidade. Gravidade nenhuma, nem do ar, nem da vida.&lt;br /&gt; Talvez nesse mundo encantado em que por hora me encontro pelo tamanho da minha alegria, nada poderia ser suficientemente grave, suficientemente baixo para me arrancar o sorriso do rosto. Quando a gente vive muito tempo no escuro, a luminosidade nos cega, e pelo menos por enquanto eu não tenho a menor intenção de abrir os olhos para o mundo real.&lt;br /&gt; No fim das contas acabei fazendo sentido. Acho. Mas ainda estou lutando pelo objetivo de fazê-los não embarcar numa história, teremos tempo e espaço para isso, mas embarcar numa sensação. Imagine a brisa suave refrescando um dia de calor intenso, ou um calorzinho expulso da beleza do fogo (com uma lareira, duas taças de vinho e uma boa companhia) em um dia de muito frio.&lt;br /&gt; Imagine que seu coração bate mais forte, que os pelinhos dos braços e da nuca se levantem como que dizendo “isso é bom, isso é muito bom”, imagine um friozinho na barriga e uma dorzinha peculiar no maxilar que faz você perceber que está há horas sorrindo. Imagine um balão de gás no formato de um coração sendo carregado por uma criança de pernas e braços gordinhos e somente quatro dentinhos na boca. &lt;br /&gt; Imagine brincar de esconde-esconde com a turma do bairro, como se nada mais importasse, ou jogar bexiguinha com água em uma guerrinha nos dias de verão. Imagine se jogar em uma pilha de folhas secas no outono e ouvir o suave ruído das folhas se quebrando. Ou passar horas à toa estourando as bolinhas do plástico bolha.&lt;br /&gt; Que tal um sundae da época que era um sundae de verdade, e não um pode com sorvete tipo italiano e uma cobertura artificial? Que tal voltar a acreditar naquilo que tornava tudo tão mais legal naquela época em que ainda éramos inocentes?&lt;br /&gt; Talvez eu nunca tenha saído de lá. Talvez eu ainda tenha dentro de mim toda a força de uma criança descobrindo o mundo, por ser assim tão capaz de me emocionar com coisas pequenas, que para a maioria passa despercebida. A vida não perde a graça, cada emoção é única, cada momento é exclusivo, como se fosse sempre a primeira vez.&lt;br /&gt; Sinceramente? Eu posso estar errado, é possível que a maneira como eu sinto a vida me cause mais tempo de sofrimento do que alegria, mas quem não invejaria minha capacidade de me sentir verdadeiramente feliz, de não me conter de contentamento, com uma frase elogiosa? Quem não gostaria de sentir plenamente as pequenas conquistas, as pequenas alegrias?&lt;br /&gt; Fico pensando no vazio que fica quando a pessoa vive um momento de grande felicidade e não percebe, porque aprendeu a encarar aquilo como algo normal. Não que não seja normal, é até bom que seja, mas tantas sensações boas ficam escondidas sob o disfarce do cotidiano que me entristece ver pessoas incapazes de sentir plenamente seus bons momentos. A felicidade é feita de momentos, se não forem aproveitados como devem, a pessoa leva uma vida... bege.&lt;br /&gt; Foi bom falar em cores, minha vida funciona assim: ou é monocromática em preto, ou um arco-íris de cores gritantes. Não tenho degradês, nem semi-tons. Não defendo isso como o ideal, longe disso, só eu sei os prejuízos que isso me causa, e não são poucos, mas será que os momentos de colorido intenso não são fortes o bastante para anular o preto? &lt;br /&gt; Por mais estranho que possa parecer, sou um otimista incorrigível, e, acima de tudo, sei enxergar com uma clareza formidável aquilo que tem o potencial de ser eterno na minha memória e no meu coração. Todo mundo precisa de um acervo de bons momentos, para não deixar de acreditar, e eu construo o meu com bases sólidas. E justamente por viver intensamente é que me torno um eterno guerreiro pela felicidade, eu sei como é bom ter fortes emoções, alegrias que não podem ser mensuradas, e eu quero sentir isso de novo, e de novo, e de novo, como um vício.&lt;br /&gt; Eu sou viciado em bons momentos, é por isso que não me acomodo, é por isso que não me permito parar de sonhar, é por isso que mergulho no meu mundinho mágico onde tudo é possível, porque nele só entra quem merece, e não tem lugar pra quem quer me “puxar o tapete” ou pra quem gosta de propagar o pessimismo e o desânimo.&lt;br /&gt; Eu sei que andei nas trevas recentemente, que permiti que meus olhos fossem cobertos por um manto negro de tristeza e falta de perspectiva. Mas o que me torna digno de ser feliz é não me acomodar. Não foi a primeira vez que afundei, e certamente não terá sido a última. Porém, a cada nova pedra no caminho, eu, você e qualquer pessoa disposta a isso, ganhamos mais força, como se nossas pernas ganhassem músculos extras e nossos ombros se tornassem ainda mais capazes de carregar o peso da nossa cruz.&lt;br /&gt; Sim, porque todos temos nossa cruz pra carregar, a diferença entre cada um é o peso que atribuímos a ela. Eu admito que essa coisa de sentir intensamente pode ser altamente prejudicial nesse aspecto, porque seguido transformo minha cruz em chumbo e a deixo quase impossível de ser carregada. Quase. Porque mais importante do que se manter de pé é saber levantar depois da queda.&lt;br /&gt; Então nessas horas é que a humildade deve gritar aos ouvidos, para que eu possa reconhecer que Aninha e Ale são 50% das minhas conquistas, pela paciência, pela amizade e por me puxar pra vida real. Eu sempre caminhei sozinho, no fundo todo mundo caminha sozinho, mas a estrada parece menos complicada se ao longe tiver alguém importante esperando. Então, meus grandes amores, me aguardem que estou indo. Me aguardem porque eu sei que estou quase chegando.&lt;br /&gt; Ok, depois de uma longa explanação onde deixei minha mente e meus dedos livres para fazer o que quisessem, reassumo o controle sobre minhas ideias, mais leve por essa viagem louca nas emoções, nas sensações, naquele mundinho particular que cada um tem o seu e nenhum é igual ao outro.&lt;br /&gt; Ainda estou entorpecido, ainda estou emocionado, sentindo com força cada pequena sensação que a conquista proporciona. Não sei se me fiz entender ou se alcancei meu objetivo de não fazer sentido, mas uma coisa eu posso dizer com toda a segurança: a vida faz sentido, por mais louca e “non-sense” que ela pareça. Vale a pena se manter firme, se levantar depois da queda, reaprender a sorrir. E como vale.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-4080732802326143132?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/4080732802326143132/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/11/querendo-nao-fazer-sentido.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/4080732802326143132'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/4080732802326143132'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/11/querendo-nao-fazer-sentido.html' title='Querendo não fazer sentido'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-4713692680947297222</id><published>2009-11-18T13:18:00.003-02:00</published><updated>2009-11-18T13:29:09.956-02:00</updated><title type='text'>Boas notícias aos leitores!!</title><content type='html'>Querido leitores!&lt;br /&gt;É com muita alegria que venho nesse post anunciar que nesse blog há um conto premiado!&lt;br /&gt;Isso mesmo! Fui avisada na noite passada que o conto "Erich em Resumo" foi agraciado com Menção Honrosa, sendo o único conto vencedor do XIV Concurso Nacional Literário da Academia C. de Letras. (nome da cidade não citado por questões de segurança).&lt;br /&gt;Além da alegria de vencer um concurso literário nacional, ainda ressalto a importância desse feito para o fim da hipocrisia, com um conto gay reconhecido de forma tão significativa.&lt;br /&gt;Agradeço a vocês, leitores, pelo incentivo de continuar produzindo as histórias do Erich, e pela importância que vocês atribuíram ao nosso querido Lobby.&lt;br /&gt;Para relembrar: http://blogdolobby.blogspot.com/2009/09/erich-em-resumo.html&lt;br /&gt;Forte abraço, com muita alegria,&lt;br /&gt;A autora&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-4713692680947297222?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/4713692680947297222/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/11/boas-noticias-aos-leitores.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/4713692680947297222'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/4713692680947297222'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/11/boas-noticias-aos-leitores.html' title='Boas notícias aos leitores!!'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-6780174567381069129</id><published>2009-11-14T18:57:00.000-02:00</published><updated>2009-11-14T18:59:07.886-02:00</updated><title type='text'>Aquela Semana</title><content type='html'>Não, não é exclusividade minha, nem de ninguém, que tem semanas que o melhor seria riscar do calendário. Para alguns são somente dias, para outros um mês inteiro, e tem gente ainda que vive afundado numa constante maré de azar.&lt;br /&gt; Pra mim, embora não seja exatamente uma criatura abençoada por Deus, poucas vezes mergulhei tão fundo numa maré de azar como naquela semana. Como qualquer outra semana, ia trabalhar cedinho, chegava tarde e exausto em casa, quando não encharcado das chuvas repentinas que teimavam em cair em dias teoricamente ensolarados.&lt;br /&gt; Mas era época de pouco trabalho, isso me daria uma boa chance de sair ainda de dia do trabalho e quem sabe planejar um happy hour com amigos. Que amigos? Tudo bem, não vou dizer que a maré de azar me escolheu aleatoriamente, eu andava num humor terrível e com a auto-estima arrastando no chão aos meus pés. É fato, é só se deixar abater que vem tudo de uma vez só.&lt;br /&gt; A empresa que eu trabalhava ia mal, péssimo planejamento e um amadorismo irritante das pessoas que mais deveriam saber o que estavam fazendo... mas quem era eu pra dizer alguma coisa? Um merdinha de 25 anos, diriam alguns, então eu ia pra lá diariamente fazer o que me cabia fazer, baixava minha cabeça diante do computador com os fones de ouvido quase me deixando surdo, e fazia o melhor que podia.&lt;br /&gt; E foi justamente por causa do trabalho que aquela semana começou estranha. Subitamente não havia muito o que fazer, subitamente passei o primeiro dia assistindo filmes com meus colegas de trabalho. Ninguém estava entendendo, especialmente em época de final de ano, mas as pseudo-férias trabalhadas agradavam. Foi então que tive a ideia de matar a saudade de alguém que amava.&lt;br /&gt;Fazia algum tempo que eu e Aninha não nos víamos, eu morria de saudades dela, mas a vida levou cada um para um lado, ela terminava a faculdade e eu iniciava a pós-graduação, ela com seus namorados e eu ainda totalmente conectado no Ale, que também havia praticamente sumido da minha vida.&lt;br /&gt; Naquela semana resolvi ligar pra ela, marcar de sairmos juntos, de irmos a um cinema ou qualquer coisa do tipo. Foram dois dias de ligações não atendidas. Comecei a me preocupar, fazia meses que não tinha muitas notícias dela e não entendia bem o que estava acontecendo. Mandei mensagens no celular e também não obtive respostas. Na terça fiquei realmente intrigado com aquilo, sentia meu coração se apertando enquanto procurava também pelo Ale, que me fazia mais falta do que ele podia imaginar.&lt;br /&gt; Na quarta feira eu estava nervoso, como poucas vezes na vida havia ficado, tinha algo errado, não podia ser possível que Aninha, minha doce e amada amiga, fosse incapaz de atender ao telefone! Liguei para Pam, a irmã dela, pedindo notícias.&lt;br /&gt; - Pam, é o Erich, tudo bem?&lt;br /&gt; - Tudo, Erich, o que contas de novo?&lt;br /&gt; - Na verdade eu queria notícias da Aninha. – Depois de um breve silêncio, ela enfim respondeu.&lt;br /&gt; - Bom, eu não moro mais com ela e, bem, sabes que ela tem as coisas dela e, enfim.&lt;br /&gt; - Pam, tá tudo bem com ela?&lt;br /&gt; - Provavelmente. Se não tivesse eu saberia.&lt;br /&gt; - Faz tempo que não a vê? – Novo silêncio, perturbador.&lt;br /&gt; - Er... faz...&lt;br /&gt; - Me avisa se tiveres notícias dela?&lt;br /&gt; - Claro, Erich. – Senti em sua voz uma total falta de disposição de me dar qualquer notícia, percebi que não poderia contar com ela para reencontrar Aninha. Na ansiedade dos fatos que me aconteciam, quebrei todos os meus planos e promessas e liguei para o Ale. Se eu pudesse voltar atrás, não o teria feito.&lt;br /&gt; - Ale, é o Erich!&lt;br /&gt; - Não, não é o Ale, é o Maicon, namorado dele. Quem é você?&lt;br /&gt; Eu segurava o telefone na mão sem saber exatamente o que fazer, era inconcebível pensar que meu grande amor que sequer se assumira decentemente até então pudesse estar nos braços de outro. Senti o chão fugir dos meus pés. Desliguei o telefone sem dizer mais absolutamente nada.&lt;br /&gt; Sentado na minha cadeira, olhando para o nada, comecei a perceber que em tão pouco tempo eu via meu pseudo-mundo desmoronar. Eu sabia que Aninha não me atendia por vontade própria, eu havia acabado de descobrir que o Ale não correspondia meus sentimentos, que já havia arranjado um novo amor. E estava eu ali, sentindo-me um completo inútil... e sozinho. &lt;br /&gt;Aninha permanecia sem atender ao telefone, eu sentia meu coração apertado e um desespero inenarrável de vontade falar com alguém que pudesse me ouvir, dividir comigo toda a dor que aquela ligação havia me proporcionado. Alguns colegas ainda tentavam me animar, contavam piadas, mas a total falta do que fazer dentro da empresa também não parecia bom sinal para ninguém.&lt;br /&gt;Naquela noite eu chorei, chorei como poucas vezes na vida. Eu não sabia o que estava acontecendo, o que eu tinha feito para merecer tudo o que acontecia ao mesmo tempo. Dormi cedo, pelo sono das lágrimas e a quantidade de calmantes que havia tomado ao chegar em casa. &lt;br /&gt;Na quinta feira, tudo o que eu queria era que a maldita semana simplesmente terminasse, jurei que nada pior podia acontecer do que perder de vez meu grande amor e ser ignorado pela minha melhor amiga. Mas então comprovei que o velho ditado não podia estar mais certo: sempre pode piorar.&lt;br /&gt;Perto do meio-dia tivemos uma reunião na empresa, éramos em cinco funcionários, e, em questão de minutos, éramos cinco novos desempregados. Cada um reagiu de uma maneira, eu simplesmente não reagi, permaneci apático, sem ter bem certeza do que aquela novidade me fazia sentir. Perder meu amor, minha amiga e meu emprego na mesma semana não era o bem algo agradável, mas eu me sentia fraco demais para esboçar qualquer reação.&lt;br /&gt;Como um robô que eu queria me ternar naquele momento, juntei minhas poucas coisas e saí da empresa quieto, de cabeça baixa. Jaque, a colega da mesa ao lado, saiu comigo, ela estava alegre, queria pedir demissão e com a novidade conseguia o que queria e ainda ganharia mais dinheiro do que imaginava.&lt;br /&gt;- Que cara de velório, Erich! Foi só um emprego! Logo você consegue outro melhor, podes ter certeza.&lt;br /&gt;- Ai, Jaque, se fosse só essa droga desse emprego... – Como um bom ser humano dramático e piegas, me abracei nela e desatei a chorar. Sentamos por um tempo em um banco na entrada do prédio da empresa e contei o que estava acontecendo.&lt;br /&gt;- Bom, você e o Ale estão distantes há anos, não é? – Concordei com a cabeça. – Pois então, ele seguiu em frente como você devia ter feito também. Da Aninha, você não sabe o que pode estar acontecendo, não julgue antes de ter certeza. Ela pode ter perdido o celular, sido roubada, ou pode estar passando por uma semana complicada como a sua.&lt;br /&gt;- Será?&lt;br /&gt;- Você confia na força dessa amizade?&lt;br /&gt;- Claro! Vivemos muita coisa juntos, superamos nossos próprios defeitos, acho que isso pode definir essa amizade como verdadeira, não pode?&lt;br /&gt;- Bom, eu não sou expert no assunto, mas creio que sim. Dê um tempo pra ela, ela vai ver as chamadas não atendidas, ou falará um dia novamente com a irmã, e saberá que a procurou.&lt;br /&gt;- E ficará feliz em saber que a procuro, que penso nela, que me importo...&lt;br /&gt;- Daí eu já não sei.... – A olhei com incredulidade, como assim? Que tipo de pessoa não iria gostar de saber que é importante para outra? – Olha, querido, quase ninguém é como você, as pessoas não dão tanta importância. Eu sei que você tem um coração mole e não consegue evitar, mas se tem uma verdade universal é que cada um se preocupa mais com seu próprio umbigo, o que não é errado.&lt;br /&gt;Permaneci sentado, olhando para o céu enquanto as lágrimas ainda escorriam pelo meu rosto. Meu coração martelava forte, minha vida virada de cabeça pra baixo e eu tendo que encarar que minha doce Aninha, que tão bem me conhecia, não estava exatamente preocupada em como eu iria me sentir se ela simplesmente parasse de falar comigo.&lt;br /&gt;- Erich, precisas entender que cada um tem seus próprios problemas. Pode parecer um pouco egoísta isso, mas ninguém se sente tentado a deixar sua vida de lado para viver a vida dos outros. Então, meu querido, não seria o momento certo para parares de viver a vida deles e voltar a viver a sua? &lt;br /&gt;- Eles fazem parte da minha vida, não vejo como separar uma coisa da outra.&lt;br /&gt;- Eles fazem parte da sua vida, eles não são a sua vida. Você conhece o Ale desde que nasceu, mas vocês passaram muito mais tempo separados do que juntos. Você conhece a Aninha há algum tempo, mas nunca foram assim tão próximos como você se convenceu. Ou seja, tudo o que você é hoje, tudo o que você se tornou, você o fez sozinho. Nenhum dos dois é o diferencial entre sua vida e sua morte. Pode doer ficar longe deles, mas você não precisa deles pra seguir em frente, pra fazer exatamente o que eles estão fazendo. Ou você acha que a Aninha sofreria assim porque você não atendeu ligações dela?&lt;br /&gt;- Eu jamais deixaria de atender a Aninha, caramba! Ela é muito importante pra mim!&lt;br /&gt;- Mas será que tens a mesma importância para ela?&lt;br /&gt;- Como assim? – Arregalei os olhos, embora fosse absolutamente possível, era uma realidade que eu não me sentia pronto para encarar ainda.&lt;br /&gt;- Ora, Erich, tem pessoas do seu círculo de amizade com as quais não tens vontade de conversar o tempo todo, não tem?&lt;br /&gt;- Todo mundo tem.&lt;br /&gt;- E nem por isso deixas de gostar desses amigos, não é verdade?&lt;br /&gt;- Sim, mas a Aninha...&lt;br /&gt;- Você certamente é muito especial pra ela, ela provavelmente gosta de verdade de você, mas não é você que ela procura quando precisa de um ombro, e isso não é por maldade dela, é quase uma questão de empatia. Ela simplesmente te considera um amigo como esses amigos que você tem e não sente vontade procurar todo o tempo, ou não hesitaria em não atender ao telefone se não estivesse afim de falar com ninguém. Você fala dela com um encantamento que não é normal, Erich, eu acredito que ela é uma menina querida e bacana, mas é humana, impossível ser perfeita.&lt;br /&gt;- Eu sei que ela não é perfeita, eu não espero perfeição dela, é que seria tão bom se...&lt;br /&gt;- Se ela agisse da mesma forma com você? Ela não vai, aliás, é provável que ninguém aja dessa maneira com você. E quando diz que não espera perfeição dela, está sendo um pouco hipócrita, se você não esperasse coisas que ela não pode te dar, não sofreria tanto, porque seria capaz de perceber e respeitar que esse é o jeito dela lidar com certas situações.&lt;br /&gt;- Quem ouve acha que você a conhece muito bem... – Sorri em meio às lágrimas.&lt;br /&gt;- Podemos dizer que é uma verdade, né Erich? Ela e o Ale são seus assuntos favoritos, e se você os vê como os descreve, já é uma prova gigantesca que o seu jeito de amá-los não é saudável, nem pra eles nem pra você.&lt;br /&gt;- Eles são fascinantes, Jaque, minha adoração não é gratuita!&lt;br /&gt;- Você também é. Só que na medida em que você os coloca como seres quase divinos, você se diminui. Estarem em posição de superioridade deve incomodá-los porque eles sabem que não são perfeitos e isso gera neles o medo de te ferir porque eles vão errar com você, como todo mundo erra com todo mundo, a diferença é que eles ficarão sempre na tensão de tentar ser as criaturas perfeitas que você idealiza porque eles gostam de você e não querem te machucar. Só que é pressão demais, cedo ou tarde eles precisam se distanciar para poderem ser eles mesmos: pessoas com defeitos. Além disso, você se colocar como inferior também afasta, parece que você só sabe reclamar da vida que leva porque não se julga digno do que já conquistou. Mas você é, você tem muito mais a oferecer do que pode imaginar.  &lt;br /&gt;Respirei fundo, mais lágrimas me vinham aos olhos enquanto ouvia essas palavras dela. Era difícil para mim, assim tão rapidamente, compreender que Aninha, embora certamente gostasse de mim, não me tinha como eu a tinha, como alguém exageradamente especial. Era difícil perceber que eu poderia estar desgastando as pessoas que mais amo no mundo, que meu comportamento poderia lhes ser torturante quando era exatamente o contrário minha intenção. Eu queria que se sentissem como os vejo, especiais, únicos, e sempre achei que meu jeito sentimental era um ponto a meu favor. Bom, não era.&lt;br /&gt;- Então as coisas nunca foram como que achei que eram? – Perguntei já sabendo a resposta.&lt;br /&gt;- Provavelmente não, Erich. Você é um menino criativo e exagerado, você leva sua vida como uma ficção, onde os sentimentos sempre são mais profundos que na vida real. Na vida real as pessoas simplesmente vivem. E tem um bom motivo para não sermos grudados em outros: no fundo todo mundo está sozinho. Na vida real cada um segue seu caminho, luta pelos seus sonhos porque sabe que ninguém fará por ele. Na vida real compartilhamos algumas coisas com algumas pessoas. Veja bem, algumas coisas com algumas pessoas, porque sua vida só diz respeito à você e não é todo mundo que vai se interessar por ela.&lt;br /&gt;- Acho isso egoísmo. Eu me preocupo, eu me interesso pelo que acontece com meus amigos, eu não hesitaria eu mover montanhas para ajudar um amigo ou numa necessidade ou numa realização.&lt;br /&gt;- Em primeiro lugar, você faria isso por todos os seus amigos, absolutamente todos, ou somente alguns em especial? – Levei um susto, era verdade, eu o faria somente por alguns mesmo. – Em segundo lugar, você já deve ter notado que não é exatamente uma pessoa comum, alguém que se encontra em qualquer esquina. Você é diferente da maioria, você sente mais que a maioria. Você sente demais.&lt;br /&gt;- E isso não devia ser bom? Tem tanta gente seca, fria nesse mundo! Eu pelo menos transpareço o que eu sinto, eu não vejo problemas em dizer “eu te amo” para alguém por quem eu de fato tenha esse sentimento, eu não vejo problema em deixar claro o que eu sinto por cada pessoa especial na minha vida.&lt;br /&gt;- Bom, falando assim parece até bonito, mas tem dois aspectos que você não está analisando: primeiro, ninguém aguenta pieguice em excesso; segundo, se a pessoa gosta de você mas não da maneira como gosta dela, você gera culpa nela pela incapacidade de retribuir seu sentimento. E sentimentos são espontâneos, não tem como forçar.&lt;br /&gt;- Culpa? Quer dizer que valorizar uma pessoa pode deixá-la se sentindo mal? Eu não entendo isso!&lt;br /&gt;- É que sua valorização é exagerada, a pessoa sabe que não é tudo o que você atribui a ela, sabe que não poderá lhe devolver isso na medida que você gostaria. É muita pressão, pra qualquer um. Pode até não ser consciente de quem é amado por você, mas todo mundo se sente impelido a ser o que a sociedade espera, a gente aprende a ser o que os outros querem desde que nascemos, só que o que você quer é inatingível.&lt;br /&gt;- Eu não pressiono ninguém a nada, caramba!&lt;br /&gt;- Você acha que não pressiona, mas no momento que liga dezenas de vezes para ela num único dia, não apenas não está respeitando o desejo dela de não falar ao telefone, você a pressiona para fazer aquilo que você espera dela.&lt;br /&gt;- Mas custa tanto assim atender?&lt;br /&gt;- Custa tanto assim respeitar?&lt;br /&gt;- Então se eu quero dividir algo com a minha melhor amiga, eu não posso porque tentar falar com ela pode ser invasão da privacidade dela?&lt;br /&gt;- São momentos e momentos, Erich, você não tem como saber o que ela está sentindo ou pensando no momento que ligas pra ela. Ninguém disse que viver em sociedade é fácil. E claro, eu citei o exemplo do telefone, mas tem tantas outras situações que você fez exatamente a mesma coisa. Eu sei que você queria que ela fizesse o mesmo, eu sei que na sua cabeça estás sendo um amigo leal, sei que iria adorar que ela lhe ligasse também, mas vou te dizer qual é o problema: você quer viver a vida dela, então ficar sem notícias dela faz parecer que você não está vivendo. Se você conseguir olhar pra si próprio, passar a viver a sua vida, que você abandonou quando resolveu viver a dela, boa parte dos seus problemas se resolvem.&lt;br /&gt;- Será?&lt;br /&gt;- Claro! A única pessoa capaz de estar com você todo tempo é você mesmo. A única pessoa que pode ter proporcionar bons momentos, realizações e qualquer outra coisa importante é você mesmo. Ninguém virá te puxar pela mão para viver, ou você se levanta, sacode a poeira e luta por você, ou vai passar o resto da vida se lamentando. E sozinho. &lt;br /&gt;Respirei fundo, ela tinha razão. Eu havia acabado de ganhar uma imensa carga de material para refletir. Aquilo mudaria completamente minha maneira de ver as coisas, pelo menos eu tentaria fazer aquilo mudar algo em mim. Claro que não era errado sentir demais, amar demais, mas o certo seria amar de forma saudável, que não me fizesse sofrer ou sufocasse a pessoa amada. &lt;br /&gt;Sufocar a pessoa amada. Essa era a chave... como poderia esperar que Aninha tivesse vontade de falar comigo se eu não respeitava sequer sua liberdade de não querer falar comigo uma ou vez? Me senti um perfeito idiota, eu, meu amor doentio e minha ansiedade.&lt;br /&gt;Abracei a Jaque e saí de lá me sentindo mais aliviado, disposto a dar à Aninha o espaço que ela precisaria, disposto a me tornar o amigo certo, disposto a parar de sofrer um pouco por algo que a maioria sequer leva a sério. Fui caminhando pelas ruas, observando as pessoas correndo para suas casas ou restaurantes para o almoço, pessoas vivendo sua própria vida; eu não tinha fome, eu não tinha estômago para nada.&lt;br /&gt;Foi então que a avistei, Aninha, no interior de um restaurante, almoçando com Pam. Esqueci instantaneamente todas as minhas promessas feitas somente minutos antes e liguei. A vi olhar o celular, fazer uma careta e recusar a ligação. Vi meu mundo desmoronar outra vez. Ainda com as mãos tremendo tentei mais um, duas, cinco, onze vezes até que ela atendeu.&lt;br /&gt;- Oi, Erich! Aconteceu alguma coisa?&lt;br /&gt;- Oi Aninha, descontando o fato de você nunca atender ao telefone, não. – Eu a observava do lado de fora do restaurante, enxergando sua feição de irritação com as minhas palavras. – Eu estava pensando que podíamos sair pra beber hoje à noite, o que acha?&lt;br /&gt;- Desculpe, Erich, estou de cama, não posso nem pensar em sair de casa, febre alta, sabe como é...&lt;br /&gt;- Aninha, por que não me falas simplesmente que não estás com vontade de me encontrar?&lt;br /&gt;- Por que dizes isso?&lt;br /&gt;- Porque eu estou na calçada, do lado de fora do restaurante, te vendo forte e saudável conversando com a Pam, a mesma que me disse que não tinha notícias suas.&lt;br /&gt;- Ai... Erich... – Desliguei o telefone e saí de lá, tentando andar o mais rápido possível para que ninguém me visse chorar. Pouco depois Aninha me parou.&lt;br /&gt;Eu não a abracei como desejava ardentemente fazê-lo. Eu tinha saudade da Aninha carinhosa que eu conhecia, da Aninha que me fazia me sentir amado e especial. Eu não sabia quanto daquilo ainda existia, se existia alguma coisa, ou sequer se um dia existiu, se não foi tudo só da minha cabeça. Nos sentamos em um café ali perto, eu sentia dela um misto de raiva e pena pela minha lamentável tentativa de me reaproximar dela como era no começo.&lt;br /&gt;- Erich, você precisa entender... tudo o que vivemos juntos foi maravilhoso, eu gostei tanto quanto você, acredite! Mas... caramba, garoto, a vida segue! &lt;br /&gt;- Aninha, o que aconteceu com a gente?&lt;br /&gt;- Nada, Erich, não aconteceu nada, ou pelo menos nada de errado. Você precisa se prender menos ao passado, as coisas nunca são iguais no futuro, mas não por isso são piores! Se você fosse capaz de olhar ao seu redor, se você conseguisse retomar a sua vida, dar o passo seguinte, certamente estaria vivendo momentos tão bons quanto os que vivemos!&lt;br /&gt;- Por que não posso mais viver momentos bons com você?&lt;br /&gt;- Quem disse que não pode, querido? Eu amo você, você é sim alguém importante e especial pra mim, a nossa diferença é que eu valorizo isso na medida certa, você valoriza demais, e isso tem tudo pra terminar mal. Valorize a si mesmo, garoto! Você tem tanta coisa boa para oferecer, mas fica mendigando atenção e amizade! Mendigar amor não é a melhor maneira de consegui-lo! Amor se conquista, você conquistou o meu, mas parece que luta desesperadamente para perdê-lo, porque uma hora cansa, todo mundo tem o seu limite.&lt;br /&gt;Ela era mais nova que eu e tão mais madura... me sentia um menino bobo e imaturo diante daquela imensa verdade. Como eu poderia imaginar minha vida longe dela? Como eu poderia conceber um momento de felicidade sem que ela estivesse junto? Como eu sequer alcançaria a felicidade sem tê-la do meu lado?&lt;br /&gt;- Eu não queria te magoar ou te irritar, mas você me ignorou, você também não foi correta...&lt;br /&gt;- Talvez não, mas Erich, você é todo sensível, será que lhe dizer “preciso de um tempo” não te machucaria muito mais do que uma mentirinha? Eu não quero te ferir, te ferir machuca a mim também, porque eu de fato gosto demais de você, mas você é tão... frágil... entenda o meu lado, não é fácil pra mim, eu não tenho estrutura para medir todos os meus atos com medo que uma bobagem qualquer possa partir seu coração.&lt;br /&gt;- Não meça! Eu não sou tão frágil quanto imaginas, eu posso suportar isso, só o que eu não posso suportar é ver você querendo distância de mim sem eu ter a chance de consertar!&lt;br /&gt;- Então mude. Mas não mude por mim, nem pelo Ale, nem por ninguém mais além de você. Mude por você, mude para ser feliz, tudo vai ficar melhor quando você estiver melhor. E nós, pelo menos eu, quero muito te ver feliz, te ver sofrer me parte o coração, acredite, mas eu não posso fazer nada além de te dar esse conselho. Eu não posso de forçar a mudança, e estar ao seu lado é um conceito muito relativo, tem coisas que precisamos vencer sozinhos.&lt;br /&gt;- É difícil, eu não vou mudar da noite pro dia!&lt;br /&gt;- Nem eu seria louca de esperar ou cobrar isso de você, mas eu tenho minha vida, eu tenho meus problemas e meus próprios conflitos, eu não posso fazer nada por você além de deixar claro que eu gosto demais de você e ainda quero ser sua amiga, mas eu não posso nem quero me envolver mais do que isso.&lt;br /&gt;- Aninha... posso ter esperança de vivermos novas aventuras juntos? Posso ter esperança que isso seja só um momento ruim, que ainda teremos uma linda história de amor de amigos pela frente?&lt;br /&gt;- Pode, sua vida não vai acabar aqui, ela vai recomeçar aqui, e se você mudar, ela tem tudo para ser imensamente melhor. Por você, não esqueça, você tem que ser o foco da sua mudança, é a sua felicidade que está em jogo. E não seja tão dramático e extremista, o que acabou de acontecer é normal, quem não passou por isso vai passar. Confie mais em você e em mim, sentimentos reais não morrem tão fácil, você vive em constante preocupação sobre nós porque quer, esteja certo que se eu não te amasse mais, você já teria ficado sabendo.&lt;br /&gt;Ela se levantou e me deixou ali, refletindo cada uma de suas palavras. Era inegável que ela ainda gostava muito de mim. Era inegável que eu havia cometido meus erros por excesso de zelo, de amor, de egocentrismo. E estava muito claro que se eu não mudasse, estaria condenado a afastar todo mundo que chegasse perto de mim, sugando suas energias para o buraco negro das minhas emoções confusas.&lt;br /&gt;Ninguém quer isso para si, ninguém quer se sugado, ninguém quer perder suas energias por problemas que não são seus. Me coloquei no lugar dessas pessoas que amava tanto e percebi que minha tolerância seria muito menor, percebi que eu sequer me daria ao trabalho de aconselhar, percebi que certamente eu simplesmente sairia de perto e iria viver a minha vida. Todo mundo tem problemas, todo mundo tem confusões emocionais, todo mundo tem bons motivos para sofrer, e ninguém em sã consciência assumiria os problemas de outros para si.&lt;br /&gt;Eu teria um processo longo pela frente, para me tornar alguém não melhor, porque meu coração é imenso, porque sou uma pessoa boa, mas me tornar alguém mais... completo. Talvez o dia que eu não sentir que preciso de alguém pra viver seja exatamente o dia que as pessoas se sentirão livres para ficarem perto de mim, simplesmente porque elas virão para acompanhar um amigo, e não mais para completá-lo. É responsabilidade demais ser a outra metade de alguém.&lt;br /&gt;Cheguei na sexta feira mais aliviado, talvez pronto para recomeçar, talvez pronto para reconquistar as confianças perdidas, e completamente pronto para lutar. Ninguém nunca disse que viver é fácil e nem eu poderia esperar isso da vida.&lt;br /&gt;Saí cedo de casa, parei no parque que costumava ir quando meu mundo estava ruindo. Me deitei na grama debaixo de uma árvore quando começou a chover, uma chuva refrescante, deliciosa, provavelmente o que eu mais precisava para “lavar a alma”. Quando vejo, Aninha sentou-se ao meu lado. Não dissemos nada, ela somente olhou para mim e sorriu, e começou a rir quando o Ale e seus cabelos de fogo se juntou à nós. Somente uma frase foi dita:&lt;br /&gt;- Desculpe o mal entendido, aquele cara é um sacana e não, não é meu namorado.&lt;br /&gt;Rimos os três, nada mais precisaria ser dito, éramos três seres humanos cercados de defeitos e qualidades. Eu sorria, achava difícil parar de sorri, e nós três ficamos ali, deitados debaixo de chuva, de olhos fechados, cada um pensando em sua vida, cada um imaginando seu futuro. Foi então que eu finalmente entendi que não havia perdido nada nem ninguém, havia ganho uma chance preciosa de evoluir, de crescer como pessoa e como profissional. E isso iria acontecer, era só uma questão de lutar, uma questão de querer fazer acontecer.&lt;br /&gt;E eu queria.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-6780174567381069129?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/6780174567381069129/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/11/aquela-semana.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/6780174567381069129'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/6780174567381069129'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/11/aquela-semana.html' title='Aquela Semana'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-7556842098180057606</id><published>2009-11-07T00:17:00.001-02:00</published><updated>2009-11-07T00:19:59.302-02:00</updated><title type='text'>Garotos</title><content type='html'>Viver parece fácil quando seguimos o esquema mecânico de abrir os olhos todas as manhãs, mexer os músculos e respirar. Sem contar as atividades que o corpo executa sem interferência nossa. Mas tirando isso, se manter vivo é um desafio cada vez maior (irônico falar tanto de vida logo depois de relatar minha morte, mas enfim, sigamos em frente).&lt;br /&gt;Estava eu no auge dos meus 19 anos, estudante universitário sustentado pelo pai, fazendo um ou outro bico pra garantir a caipirinha do final de semana quando, numa festa cheia de universitários bêbados, conheci o Francis. Eu estava parado em uma parede de pedra, no pátio do salão, próximo à churrasqueira que transmitia um calorzinho gostoso para aquela época do ano, passando um pouco o mês de agosto.&lt;br /&gt;Fiquei ali, apoiado, observando os casais que se formavam e, pelo efeito do álcool, tive quase certeza que ainda testemunharia uma orgia dos mais avançadinhos. Ri comigo mesmo pensando no quanto os jovens gostam de pensar na faculdade como uma libertação, sem se dar contar que a faculdade é exatamente a estrada para a escravização no mercado de trabalho, afinal, espera-se um futuro no mínimo brilhante de um jovem que teve a oportunidade de fazer um curso superior.&lt;br /&gt;Isso de fato vinha me preocupando. O que seria de mim depois? Mais um suposto novo talento desempregado com um diploma na mão? Mas ali, naquela festa, minha cabeça andava por tantos ângulos que nenhum pensamento permanecia em destaque por muito tempo. Chegou um determinado momento que tudo o que eu pensava era o quanto gostaria de estar com alguém ali, mas não podia correr riscos, podia haver algum homofóbico por ali.&lt;br /&gt;Foi nesse exato momento que ele surgiu. Era um garoto de aparência frágil, olhos tão claros que pareciam não ter íris, somente a pupila negra cercada de nuvens, num azul imensamente suave. Tinha a barba muito bem feita e cabelos negros que lhe vinham no rosto com uma franja no que hoje chama de “emo” (verdade, isso não existia quando eu tinha 19 anos). Era muito pouco mais alto que eu e usava roupas negras. Parecia tão ou mais perdido que eu, segurando um copo de plástico sem em nenhum momento levá-lo à boca.&lt;br /&gt;Éramos os únicos sozinhos, os demais estavam em casais ou reunidos com amigos. Eu não era o melhor exemplo de sociabilidade e em geral terminava as festas completamente entediado. Não havia nada a perder, então me aproximei do garoto.&lt;br /&gt;- Oi. – Falei timidamente e tão baixo que não sei até hoje se ele de fato ouviu. Ele me olhou e sorriu, vi que me observou de modo que me deixou constrangido, e me fez concluir imediatamente que eu não terminaria a noite sozinho. – Me chamo Erich, e você?&lt;br /&gt;- Francis! E eu te conheço. – Levei um susto com a total falta de sutileza dele.&lt;br /&gt;- Mesmo? De onde?&lt;br /&gt;- Ah, não se assuste. – Ok, eu sou péssimo em disfarçar emoções cara a cara. – Eu não sou muito bom com palavras, não deveria começar já dizendo algo assim.&lt;br /&gt;- Não tem problema, só me diga de onde me conhece.&lt;br /&gt;- Daqui da faculdade mesmo. Você na verdade é bem conhecido. – Mais um susto. – Tenho uns conhecidos que são loucos por você. Eles até dizem que com vocês eles nem...&lt;br /&gt;- Nem...?&lt;br /&gt;- Deixa pra lá, só digo que concordo com eles.&lt;br /&gt;- Sobre?&lt;br /&gt;- Eu não tinha te visto de perto ainda, vi de longe uma vez, e eles falam de você como um verdadeiro deus grego!&lt;br /&gt;- Credo, que exagero! – Corei. – Bom, Francis, sua bebida já era a essa altura, deve ter esquentado pela maneira como você segura o copo. – Ele sorriu, parecia uma criança desamparada que acaba de ganhar um presente. Descontando a sensação de objeto que eu tive naquele momento, gostei disso.&lt;br /&gt;- Tudo bem, eu vim para cá tentar ser notado por você, a bebida era uma espécie de um disfarce.&lt;br /&gt;- Disfarce? A ideia era se esconder atrás do copo? Olha, desculpe te desapontar, mas eu te enxergo mesmo com ele na frente! – Sorri meio tímido com a piada boba, mas ele riu, riu com vontade e me deixou encantado com a sua naturalidade. Tive a impressão que sua companhia me faria bem.&lt;br /&gt;- E então, Erich, o que acha de darmos uma voltinha pelo campus?&lt;br /&gt;- Passa da meia-noite, tem mato para tudo o que é lado e iluminação precária, não me parece uma ideia muito segura.&lt;br /&gt;- Não se preocupe, sou muito acostumado a sair à noite assim, por essa vizinhança inclusive. Confie em mim. – Fiquei confuso, sem saber direito se ia ou não, mas seu jeito tão inocente me cativou como poucos.&lt;br /&gt;Atravessamos o salão lado a lado, sem sermos notados ou julgados pelos demais universitários, estavam todos ocupados demais para reparar que ali se formaria um casal gay. Saímos do salão e seguimos por uma trilha de pedras na lateral, que seguia por entre árvores sombrias até um dos prédios do campus. Achei que seguiríamos para lá, o único local iluminado à vista, mas Francis me conduziu por outro caminho, entramos numa outra pequena trilha, dessa vez somente de grama precariamente cortada, e paramos numa casinha de pedras, que servia somente para guardar materiais de construção para os prédios em reforma.&lt;br /&gt;A iluminação era quase inexistente, basicamente uma lua cheia e um ou dois postes suficientemente distantes para ficarmos numa penumbra quase completa. Diante da casa, Francis delicadamente me prensou contra a parede de pedras e me beijou. Ele não me tocava, apoiava-se na parede, e eu fiquei sem saber o que fazer exatamente, além de retribuir o beijo, tão suave quanto tudo o que vinha dele até então.&lt;br /&gt;Ao terminar, me olhou nos olhos e sorriu. Era encantador, tinha um ar angelical difícil de descrever. Dessa vez a iniciativa foi minha, o puxei pela cintura e o beijei do meu jeito, mas ardente, mais intenso. Ele gemeu e me fez perceber que meu toque o agradava. Ao fim do beijo, ele mordeu de leve minha orelha e meu pescoço, e, antes que eu pudesse ter qualquer reação, ele se ajoelhou e abriu lentamente o botão e o zíper da minha calça.&lt;br /&gt;Estava constrangido, porém entregue ao seu movimento, olhava para a lua, ou simplesmente fechava os olhos, mas em nenhum momento o observei nessa ação tão dedicada que me fazia sentir flutuando. Mecanicamente, coloquei as duas mãos em sua cabeça forçando mais velocidade no movimento, ele, porém, interrompeu, providenciou proteção e se levantou.&lt;br /&gt;Naquele momento me senti tão tomado pelo desejo que ele despertara que não hesitei em abrir o seu zíper e puxá-lo contra a parede. Ele gemeu novamente no instante em que eu o invadi. Em geral eu costumava ser delicado com meus parceiros, deveria ter tido ainda mais cuidado com esse garoto de aparência frágil, mas o calor do momento me fez quase um selvagem e demorei um certo tempo para perceber que poderia o estar machucando.&lt;br /&gt;Diminuí o ritmo, o abracei com carinho beijando-lhe as costas e o pescoço, mas para minha surpresa, ele reclamou. Voltei ao ritmo frenético de antes e, em alguns minutos, estávamos ambos satisfeitos.&lt;br /&gt;Na lateral da casa havia dois degraus também de pedra, nos sentamos, ele se encostou no meu peito e ficou acariciando minhas pernas enquanto permanecíamos em silêncio observando a lua que nos iluminava. Eu permaneci assim por realmente não saber o que dizer, jamais tinha vivido uma aventura assim, tão rápida, jamais havia me descontrolado daquela maneira, me deixado levar. Mas seja lá quem fosse o garoto, ele sabia muito bem o que estava fazendo quando me guiou até esse local.&lt;br /&gt;Subitamente esse pensamento me fez me sentir usado. Procurei continuar sendo carinhoso embora estivesse totalmente desconfortável com aquele silêncio. As coisas não funcionavam assim pra mim, não sou muito fã de banalidades. Foi então que ele finalmente falou.&lt;br /&gt;- Gostou, Erich? – A pior pergunta que poderia me fazer naquele momento, em que eu não sabia como reagir a nada. Me vi quase um garoto de 14 anos em seu primeiro beijo!&lt;br /&gt;- Gostei, Francis, e você?&lt;br /&gt;- Eu adorei! – Ele me olhou com um imenso sorriso estampado no rosto, deixando-me ainda mais constrangido. Eu vivia um daqueles momentos em que se torce para que acabe logo, e de preferência, acabe bem. – Você foi absolutamente maravilhoso! Nossa, eu nunca havia visto um... – Me obriguei a interrompê-lo.&lt;br /&gt;- Er... por favor, se puderes evitar detalhes... – Ele permanecia sorrindo como se fosse uma criança que havia acabado de ganhar o brinquedo dos seus sonhos. Falando em criança... – Francis, quantos anos você tem?&lt;br /&gt;- Ah, sim, nem conversamos direito! Eu tenho 18, faço 19 em dois meses. Teve medo que eu fosse de menor?&lt;br /&gt;- Na verdade tive mesmo. – Ele riu, virou-se completamente para mim e começou a me beijar outra vez. Eu permanecia apoiado na parede atrás do degrau, enquanto ele forçava seu corpo todo para cima de mim. Não teria queixas não fosse o fato de que sua mão direita começou a abrir minha calça mais uma vez. – Francis, não. – Falei gentilmente.&lt;br /&gt;- O que foi, Erich? Pensei que tinhas gostado.&lt;br /&gt;- Ter gostado não significa querer passar a noite inteira fazendo isso.&lt;br /&gt;- Ah, me desculpe. – Ele voltou ao seu lugar claramente desapontado. Para mim aquela situação começava a ficar insustentável.&lt;br /&gt;- Está ficando muito tarde, é melhor voltarmos para o salão. Aliás, é melhor eu ir para casa mesmo. – Me levantei e esperei que ele reagisse da mesma forma. – Não vens?&lt;br /&gt;- Não, ficarei mais um pouco por aqui. Boa noite, Erich, foi um imenso prazer te conhecer. Imenso mesmo, prazer pra caramba. – Ele sorriu mais uma vez, e eu corei. Saí dali o mais rápido que pude, louco para interromper o clima ruim.&lt;br /&gt;Passei a noite toda pensando no que havia acontecido. Havia algo diferente nele, para ele parecia perfeitamente normal ir para um canto escuro com um semi-desconhecido com o objetivo de proporcionar-lhe prazer. Tinha sido bom, de fato, ele era claramente muito experiente, e absolutamente encantador, cheguei a me arrepender de não ter conversado mais, o conhecido melhor.&lt;br /&gt;Porém, como o destino adora me pregar peças, o encontrei no campus com alguns amigos no dia seguinte. Os amigos me devoravam com os olhos quando ele veio falar comigo. Eu estava, como sempre, sozinho, e ele veio aos pulos, novamente parecendo uma criança. E eu gostava daquilo.&lt;br /&gt;- Oi, Erich! Que alegria te encontrar! – Para meu choque, ele me beijou rapidamente, somente encostando seus lábios nos meus.&lt;br /&gt;- Francis! Que surpresa! Nunca o havia visto antes e agora nos encontramos outra vez!&lt;br /&gt;- Pois é... podemos nos ver hoje à noite? – Fiquei novamente surpreso com a velocidade com que nossa relação estranha acontecia.&lt;br /&gt;- Bom, pode ser... – Ele nem permitiu que dissesse mais nada.&lt;br /&gt;- Perfeito! Me encontre nesse endereço, às 20h, ok? – Me entregou um cartão com somente seu primeiro nome, uma foto e o tal endereço.&lt;br /&gt;Durante a aula percebi que era colega de um de seus amigos, que não parou de me olhar ao longo do período da disciplina. Eu definitivamente não estava entendendo nada e a história só ficou mais confusa quando, pouco antes de terminar a aula, o rapaz passou por mim e largou sobre a minha classe um cartão semelhante, com um endereço muito parecido, mudando somente o número do apartamento. E nesse caso, o nome, que era Albert.&lt;br /&gt;Saí da aula quando anoitecia, faltava pouco mais de 15 minutos para o horário marcado quando cheguei ao prédio. Era meio decadente, a porta principal estava aberta e havia grande circulação de pessoas. Vi homens com terno e gravata, aliança na mão esquerda, homens de meia idade que aparentavam ser empresários, maridos e pais de família, cada um entrando em um apartamento onde garotos sempre abaixo dos 20 anos os aguardavam.&lt;br /&gt;O apartamento de Francis era no terceiro andar, sempre de escada. O local não tinha um cheiro bom, mas aparentemente o objetivo único era o anonimato, porque nem os garotos, nem os homens que entravam e saíam dos apartamentos, olhavam para os demais, éramos quase fantasmas: ninguém viu, ninguém foi visto. Àquela altura eu já sabia muito bem onde estava, e agora sabia de onde vinha a experiência de Francis.&lt;br /&gt;Assim como todos os outros homens, fui recebido por ele na porta. Entrei e vi que não era bem um apartamento, mas somente um quarto com banheiro, o cheiro era muito mais convidativo que o restante do prédio, e havia pequenas velas decorativas nos poucos móveis do local.&lt;br /&gt;Ele fechou a porta e me abraçou, estando eu ainda de costas para ele no momento que começou a me beijar. Exatamente por saber onde estava, o interrompi para entender melhor o que acontecia ali.&lt;br /&gt;- Você é garoto de programa.&lt;br /&gt;- Sou.&lt;br /&gt;- Desculpe, eu não contrato esse tipo de serviço. – Me virei em direção à porta, quando ele correu e obstruiu meu caminho.&lt;br /&gt;- Não vá, eu lhe peço!&lt;br /&gt;- Estou me sentindo enganado, Francis! Aquilo ontem à noite foi uma espécie de amostra grátis, é isso?&lt;br /&gt;- Não, nem ontem, nem hoje. Não vou lhe cobrar, fiquei com você porque eu queria, te chamei aqui porque eu te quero. – Ele veio na minha direção e me abraçou outra vez, mas não permiti que me beijasse. Me afastei, me sentei na cama e o encarei com seriedade.&lt;br /&gt;- Por que você não me disse nada?&lt;br /&gt;- Você teria ficado comigo se soubesse que sou um garoto de programa? – A pergunta me pegou de surpresa, e ele tinha razão, era pouco provável que eu tivesse ido tão longe na noite anterior. Obviamente minha reação entregou minha resposta, não tinha como disfarçar, certamente uma pequena dose de preconceito seria o bastante para recusá-lo. – Não se martirize, Erich, isso é perfeitamente normal, eu me coloco no seu lugar também.&lt;br /&gt;- Mas por que marcaste aqui? Se sua intenção não é me cobrar, então não é uma ideia muito adequada me trazer ao seu local de trabalho, não acha?&lt;br /&gt;- É, eu assumi o risco de você fugir daqui no momento que percebesse em que tipo de lugar estava entrando, mas hoje é aqui que eu trabalho, não posso me ausentar por muito tempo porque tenho horas marcadas, e queria muito te ver. Então me desculpe te fazer entrar aqui, eu só queria mesmo muito te ver.&lt;br /&gt;- Olha Francis, eu... – Comecei a frase sem saber exatamente onde ela terminaria, mas para minha sorte ele nem me permitiu terminar.&lt;br /&gt;- Desculpe, Francis é o “nome de guerra”, eu me chamo Marcelo. Eu sei que devia ter me apresentado com meu nome de verdade, já que eu quis ficar com você, mas me acostumei tanto que tudo relacionado a sexo eu me apresento como Francis.&lt;br /&gt;- E como você podia ter certeza que terminaria em sexo?&lt;br /&gt;- Porque eu estava disposto a fazer tudo por isso. Eu trabalho na rua também, estou acostumado a pegar cliente andando na calçada e convencê-lo que posso oferecer exatamente o que ele precisa. Essa é a minha arte, a minha profissão.&lt;br /&gt;Sentia-me usado, enganado, sentia-me um perfeito idiota, e mais ainda porque o garoto de fato sabia muito bem o que estava fazendo e como fazer. E novamente, o fez. Se ajoelhou diante de mim, sentado na cama e abriu lentamente o zíper da minha calça, me olhando nos olhos e sorrindo de forma absolutamente encantadora.&lt;br /&gt;Me apoiei em meus cotovelos, deixando meu corpo inclinado enquanto ele abria os botões da minha camisa e me beijava o peito. Com as mãos seguia me despindo enquanto eu permanecia com a cabeça inclinada para cima, com olhos fechados, em êxtase total pela maneira como ele conduzia cada um de seus movimentos. Ao contrário da noite anterior, dessa vez o observei por alguns minutos, enquanto ele permanecia ali, ajoelhado, brincando com meus desejos, ávido por me levar ao delírio.&lt;br /&gt;E levou. Não apenas naquele momento, mas em todos que se seguiram, foram quase duas horas em que exploramos nossa criatividade e fantasias dentro daquele pequeno quarto. E por algum motivo, era a primeira vez que me sentia assim tão livre.&lt;br /&gt;Nos deitamos lado a lado e ficamos nos olhando, como dois velhos amigos, então nesse momento senti curiosidade sobre sua vida, e o perguntei o que o levara a isso.&lt;br /&gt;- Bom, eu moro com meu pai aposentado e minha irmã de 12 anos, minha mãe morreu no parto e meu pai nunca se recuperou da perda. Estudei em escola pública a vida toda, trabalhando no turno invertido, mas nunca consegui tirar um salário decente. Quando passei no vestibular ficou claro que não poderia fazer a faculdade com um emprego simples, eu precisava de um trabalho cuja remuneração me permitisse estudar e ajudar em casa.&lt;br /&gt;- Mas, não existia outra alternativa?&lt;br /&gt;- Não sei, não tive muito tempo pra pensar a respeito, as contas chegam todo mês. Conheci o Albert, na verdade da mesma forma que você me conheceu, ele me seduziu e ficou comigo sem cobrar nada, ficamos um tempo juntos, não como namoro, mas eu topei sair com ele mais umas vezes e ele me falou que conseguiria um lugar pra mim aqui. Eu vim imediatamente. Aliás, tem um quarto que fica vago duas vezes por semana.&lt;br /&gt;- Desculpe, não entendi o teor da informação.&lt;br /&gt;- Você é muito bom nisso, você é bonito, você chama a atenção, poderia tirar um bom dinheiro. – Corei outra vez, ele me sugeria que virasse, como ele, garoto de programa.&lt;br /&gt;- Olha... – Gaguejei – Eu não sei se agradeço ou me ofendo, mas de fato, eu não tenho nenhuma urgência financeira que me leve a isso...&lt;br /&gt;- Tudo bem, certo você! – Ele riu – Mas eu tiro por dia o que antes ganhava no mês!&lt;br /&gt;- Nossa! Mas... você não se incomoda em ter virado praticamente somente um corpo?&lt;br /&gt;- Eu não me orgulho disso, não colocaria isso numa ficha onde pedisse profissão, mas esse trabalho me ensinou muita coisa, inclusive sobre dignidade. Acredite, pouca gente segue esse caminho porque gosta, eu sairei dele assim que me formar e me colocar no mercado, mas enquanto isso, tem muito pai de família rico que não se assumiu e nos procura para ter o que a vida os privou. Para eles é um investimento barato em nome do que eles queriam como forma de vida.&lt;br /&gt;- Pais de família? Como assim, o que a vida os privou?&lt;br /&gt;- Ora, meu caro, se você tivesse nascido há 50 anos atrás, era muito pouco provável que você pudesse assumir. Se você sabe que não pode beijar na boca em público pra não arranjar confusão em pleno século XXI, imagina como era antigamente. A maioria esmagadora dos nossos clientes são esses homens cuja pressão social os levou a casar, ter filhos, ter uma fachada imaculada de família perfeita. Tenho clientes semanais, com hora marcada confirmada, é o único momento que eles são eles mesmos.&lt;br /&gt;- E com essa sua realidade, como consegues sorrir tanto?&lt;br /&gt;- Eu poderia estar numa situação muito pior. Tantas horas que eu fico nesse quarto ou em cantos escuros pela cidade me permitindo ser usado como um objeto são compensados pelo sorriso da minha irmã com uma boneca nova, ou com um rancho de supermercado, ou com o livro para uma disciplina. Viver não é uma tarefa fácil, Erich, viver com tristezas e ressentimentos torna tudo ainda mais difícil.&lt;br /&gt;Não falei mais nada, guardei essas palavras comigo, havia aprendido com aquele menino, um garoto de programa, uma lição muito valiosa, e não queria perdê-la. Quando saí do quarto, um homem já o aguardava, ele piscou o olho para mim e recebeu o novo cliente. A saída do prédio foi tão degradante quanto a entrada, mas dessa vez eu olhava aqueles garotos nas portas dos quartos com outros olhos, e aqueles homens de terno e gravata também, todos tinham a sua cruz para carregar.&lt;br /&gt;Depois daquela noite não vi mais o Francis, nem no campus, nem em qualquer outro lugar. Tive vontade de ligar, ou de voltar ao prédio, mas a vida tomou seu rumo, alguns anos se passaram e já nem sabia se Francis permanecia lá. Foi então que essa semana encontrei Albert na rua. Me contou que ele permanece nessa vida, mas que Francis havia se formado em direito e conseguido um emprego em um escritório grande, contato de um cliente por sinal. Estava bem de vida, pagando a faculdade da irmã e completamente distante de sua antiga vida como garoto de programa.&lt;br /&gt;Confesso que fiquei muito feliz com as notícias, nem sempre termina bem a vida desses garotos, e confesso que tê-lo conhecido mudou muita coisa para mim também. Definitivamente, a gente nunca sabe de onde virá a maior sabedoria, e geralmente vem de onde a gente menos espera.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-7556842098180057606?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/7556842098180057606/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/11/garotos.html#comment-form' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/7556842098180057606'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/7556842098180057606'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/11/garotos.html' title='Garotos'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-4163591537010870491</id><published>2009-11-01T03:35:00.000-02:00</published><updated>2009-11-01T03:36:52.734-02:00</updated><title type='text'>Réquiem</title><content type='html'>Engraçado como somos sensíveis ao nosso próprio destino. Por algum motivo inexplicável, a gente simplesmente sabe quando estamos vivendo o último dia de nossa vida. E mais do que isso, sabemos que não há mais nada que se possa fazer. Mas não deixa de ser uma certeza estranha. Talvez porque é sempre difícil aceitar quando uma coisa boa chega ao fim. Porém, tudo tem um fim, cedo ou tarde, e nem sempre é ruim isso.&lt;br /&gt;Mas pulemos a introdução cheia de palavras bonitas, porque estou mais uma vez aqui, com vocês, queridos leitores, para contar uma história. Hoje, entretanto, vou inovar e não vou contar nenhuma história da minha vida, mas sim, a história da minha morte. Antes que se assustem, isso não é um encerramento, porque ainda tenho muita coisa para compartilhar com vocês, e vou continuar a fazê-lo por quanto tempo ainda for capaz.&lt;br /&gt;Então entremos na história. Começou há alguns meses, quando Luciana, minha prima de 15 anos, ocupou o quarto da minha irmã casada, pelo espaço de um ano. Lu não é uma pessoa fácil, muita gente não consegue ficar muito tempo perto dela, ela emana uma energia ruim, e sabe ser má como poucos. Mas não comigo. Não sei se sou mais paciente que o resto da família, mas o fato é que nos damos bem, e eu de fato me importo com ela.&lt;br /&gt;Pouco tempo depois que ela se mudou, ficou amiga de duas meninas com altíssimo potencial para terminar em um presídio feminino. Patrícia e Julia, o nome das diabinhas. Começaram a ir com frequência na minha casa; meus pais não se importavam, mas minhas irmãs ficaram imediatamente desconfiadas, as garotas eram ousadas demais e mais de uma vez as peguei mexendo nas minhas coisas.&lt;br /&gt;Foi então que me descobriram gay. E o pior, foi então que descobriram o Ale e seus cabelos de fogo. Não sei ao certo se motivadas por preconceito ou somente uma diversão perversa, passaram a nos perseguir em todos os sentidos, desde nos seguir na rua até inventarem as histórias mais absurdas sobre nós para espalhar na vizinhança.&lt;br /&gt;Não tardou para que começassem os olhares desconfiados para cima de mim, o Ale já não gostava mais de ir na minha casa com a presença constante delas e suas piadinhas infantis. Pedi certa vez que Luciana as impedisse de chegar perto de mim, ela fez o que pôde quando quis, mas Lu nem sempre respeitava meus desejos. Até que um dia Lu se recusou a atender um dos desejos de Paty, a líder do grupo. Confesso que não sei bem o que aconteceu, só sei que minha vida se transformou num verdadeiro inferno depois disso.&lt;br /&gt;Passei a receber ligações desaforadas, bilhetes largados na caixa do correio que muitas vezes me faziam chorar, e, um dia, sem maiores explicações, o Ale terminou comigo e me proporcionou um sofrimento que não me considerava mais capaz de sentir. Demorei para saber, mas o fim do nosso namoro não foi o encerramento do nosso amor, e sim, uma suspeita exigência de seus pais.&lt;br /&gt;Foi em uma quinta feira que essa história teve seu desfecho. Chego em casa depois de um cansativa jornada de reuniões e encontro uma cena inusitada: meus pais, os pais do Ale, o Ale e as duas meninas. Luciana e minhas irmãs também estavam, mas permaneceram ausentes da sala nos momentos iniciais do maior choque que eu poderia sofrer.&lt;br /&gt;Paty e Julia fingiam chorar, mas conseguiram me olhar com ódio e um sadismo incomum para meninas tão jovens. Quase ao mesmo tempo, meu pai me fuzilou com os olhos, acompanhado do meu ex-sogro e iniciou uma longa sessão de acusações.&lt;br /&gt;- Erich, estou sem palavras para expressar o tamanho da minha decepção. Não lhe faltou nada na vida, onde foi que viraste um monstro? – Meu pai mantinha os dentes trincados, certamente em uma tentativa desesperada de não chorar.&lt;br /&gt;- Do que você está falando, pai? – Imediatamente após terminar de falar, o pai de Alexandre levantou-se em alta velocidade e agarrou-me pela gola da camisa, provocando a intervenção das minhas irmãs, uma vez que meus pais não se manifestaram em minha defesa.&lt;br /&gt;- Seu desgraçado! Você foi desmascarado, seu merda! Hora de assumir seus atos e honrar o que tens no meio das pernas! – Ele tinha o rosto vermelho, seu ódio podia ser sentido no ar.&lt;br /&gt;- Eu... eu não faço ideia do que estão falando! – Olhei para o Ale, que mantinha a cabeça baixa, não sei se sendo conivente com o que estava acontecendo ou temendo sair em minha defesa. Ele simplesmente permaneceu ausente.&lt;br /&gt;Dessa vez foi minha mãe quem tomou o controle da situação, e, usando a calma que lhe é peculiar, me explicou a situação.&lt;br /&gt;- Erich, querido, essas meninas te acusam de ter abusado da confiança delas num sentido nada positivo. – As meninas sorriam discretamente para mim, enquanto ainda simulavam o choro para os demais. – E os pais do Alexandre vieram nos contar que tens mandado fotos comprometedoras e bilhetes aos colegas de trabalho dele, ele pode perder o emprego a qualquer momento por isso.&lt;br /&gt;- Espera um pouco! – Eu estava em choque, não fazia ideia de que isso estava acontecendo, o Ale jamais havia me dito nada, e, por Deus, como meus pais podiam acreditar que eu estava abusando daquelas meninas? – Eu não acredito que pensam que fiz isso tudo! Que tipo de doente vocês acham que sou?&lt;br /&gt;- É realmente de não acreditar que ainda não foram capazes de enxergar a verdade! – Gritou minha irmã gêmea da cozinha, partindo em minha defesa.&lt;br /&gt;- Ah, é mesmo? Vais ter a coragem de negar, seu merdinha? – Falou o pai de Alexandre novamente, sendo segurado pela esposa para não tentar me agredir outra vez.&lt;br /&gt;- Claro que vou negar! Eu sou inocente, caramba! Isso é coisa dessas duas psicopatas que não param de rir pra mim!&lt;br /&gt;- Você passou a mão em mim! – Gritou Patrícia, explodindo em um choro falso em seguida. Olhei para meu pai num tom suplicante, não conseguia entender como duas pessoas que me conheciam como eles poderiam realmente achar que eu seria capaz de tamanha monstruosidade.&lt;br /&gt;- Gente! Que coisa absurda! Pelo amor de Deus, eu sou gay! Eu jamais tocaria numa mulher! Muito menos em uma menina contra a sua vontade! Vocês me conhecem, caramba! Como podem pensar isso de mim? – Olhei para o Ale esperando alguma reação dele, mas nada veio. – E meu Deus, eu amo o Ale mais do que tudo na vida, eu jamais proporcionaria tamanho sofrimento a ele... jamais... eu sou inocente...&lt;br /&gt;Minha voz falhava, eu sentia meus olhos embaçados pelas lágrimas que estavam prestes a escapar. Meu coração batia descompassado, e doía. Consegui ver o momento em que minhas irmãs e Luciana chegaram na sala. Eu estava zonzo, chocado, decepcionado, enquanto ouvia vozes vindas de todos os lados. Me vi no meio de um fogo cruzado; de um lado as meninas me acusando de algo absurdo, algo que vai completamente contra tudo o que acredito e luto, de outro sendo acusado por ataques ao meu amor, ataques feitos exatamente por aquelas duas psicopatas que vieram para arruinar minha vida.&lt;br /&gt;Embora fosse inocente de todas as acusações, o que mais me machucava era que meus pais, os pais do Alexandre e o próprio Ale tivessem acreditado que eu fosse capaz de atacá-lo dessa forma. Eu, que fora devotado e leal ao meu ex-namorado. Eu, que dedicara a maior parte da minha existência a ele, a fazê-lo feliz. Além disso, as acusações das meninas eram vazias, ninguém acreditava nelas de fato, mas a outra colocou contra mim pessoas importantes, e pessoas que jamais poderiam ter desconfiado de uma culpa.&lt;br /&gt;Senti-me sentenciado. Antes de eu chegar em casa já ocorrera meu julgamento. Fui acusado, julgado e condenado sem provas e sem direito à defesa. Olhei ao meu redor e percebi que as coisas mudavam de forma, as cores pareciam empalidecer, e ainda ouvia as acusações enfurecidas como palavras desconexas. “Você me tocou!”, “Você denegriu a imagem do meu filho”, “Você me atacou”, “Você infernizou nossa vida!”. Eu queria desesperadamente dizer que não, que não havia feito nada do que atribuíam a mim, mas me questionava se alguém acreditaria em mim.&lt;br /&gt;Estava sufocado, tantas evidências da minha inocência a serem apresentadas, mas quem me apontava o dedo não estava interessado na verdade, somente na sua convicção de que eu era culpado, tinha que ser eu o culpado. Bom, dizem que pessoas bondosas e até idiotas de tão boazinhas são excelentes bodes-expiatórios, porque pessoas assim não sabem se defender e em geral pedem desculpas para o acusador quando o correto seria o contrário.&lt;br /&gt;As palavras se embolavam na minha garganta, eu sentia como se elas fossem físicas e estivessem prestes a me matar. Tentava falar, mas o som não saía. Arregalei os olhos no mesmo instante que meu peito se apertava numa agonia insuportável, e minha visão se tornou turva, incerta, e, por fim, negra.&lt;br /&gt;É difícil descrever o que exatamente aconteceu, eu me vi deitado, no chão da sala, nos braços do Ale, com todos ao redor, minha irmã mais velha ligava para uma emergência e pude ver que o Ale estava prestes a chorar. A imagem era nublada, como se houvesse uma nuvem, fumaça de gelo seco, eu os via como se fossem irreais, e mais irreal ainda era a minha capacidade de me ver ali deitado. Eu estava pálido. Aos poucos toda a imagem foi desaparecendo e me vi em um cenário todo branco, infinito, esfumaçado.&lt;br /&gt;Olhei ao me redor assustado, o que estava acontecendo? Onde eu estava? Como se fosse capaz de ler meus pensamentos, um homem semelhante ao Ale surgiu de trás de mim e respondeu.&lt;br /&gt;- Você está em um lugar onde nada nem ninguém mais pode feri-lo.&lt;br /&gt;- Ale? Não entendo...&lt;br /&gt;- Não, não sou o Alexandre. Você me vê como ele porque atribui a imagem dele a tudo que é bom para você. E você sabe que estou aqui para lhe ajudar.&lt;br /&gt;- O que está acontecendo? Eu morri?&lt;br /&gt;- Ainda não. – Ao terminar de falar, pude enxergar uma imagem bem nítida de meus familiares me abraçando enquanto minha irmã gritava ao telefone, pela demora do socorro.&lt;br /&gt;- Mas vou.&lt;br /&gt;- É provável. Você tem um coração frágil, não somente no sentido físico, mas no sentimental também. A série de acusações que recebeste foram pesadas demais para você, especialmente você, que jamais faria nada que prejudicasse ninguém.&lt;br /&gt;- Acho que começo a me arrepender disso...&lt;br /&gt;- Não, não se arrependa. Fazer o bem sempre vale a pena. E os que lhe acusam hoje um dia verão a verdade. Não temas pela imagem que passaste aos outros, deixaste uma marca positiva em muita gente.&lt;br /&gt;- Não é justo que eu saia da vida sem provar minha inocência! – Eu começava a ficar irritado quando a imagem se desfez e pude ver somente o belo rosto do Alexandre naquele homem que eu ainda não sabia quem era.&lt;br /&gt;- Pense na sua consciência, pense nas pessoas que acreditam em você, isso devia pesar muito mais do que os motivos que te trouxeram pra cá.&lt;br /&gt;- É tão injusto... tão errado que eu tenha feito tudo certo, jamais tenha prejudicado ninguém e ainda tenha que sair da vida como um... como um... um alguém que não vale nada!&lt;br /&gt;- A vida não foi feita para ser justa, Erich, ela foi feita para ensinar, a justiça reside no tamanho do seu aprendizado, e não no tratamento que recebe dos outros. Tens que lembrar que quem te ofende, quem te ataca ou acusa também é humano, também erra, e certamente, quem acredita no que o acusa, deve se perguntar “como ele foi capaz” tanto quanto perguntas “como acreditam nisso”.&lt;br /&gt;Eu estava confuso, ainda não sabia ao certo o que estava acontecendo, não sabia quem era aquele homem, mas senti o tamanho da paz que me transmitia. Era algo indescritível, e ele andava com uma leveza invejável sobre um chão que eu não enxergava pela fumaça que nos cercava. Ele me indicou para sentar, foi só aí que percebi que havia um suporte, como um móvel, uma mesa, onde eu poderia sentar. Cruzei as pernas e esperei que seguisse suas palavras.&lt;br /&gt;- Existe um ditado que diz que toda a história tem duas versões: a nossa e a verdade. Considerando a realidade, seria a nossa e a mentira. As pessoas têm ideias pré-concebidas, é doloroso para um humano reconhecer que errou com outro. Exatamente por isso, quando sua versão é contestada, você tende a se defender, negar, fugir do assunto. Pense por um momento, não farias o mesmo?&lt;br /&gt;- Mas a minha versão é a verdadeira!&lt;br /&gt;- Ah, isso agora é irrelevante, não interessa qual é a verdade nesse momento, interessa que defenderias a sua versão até o fim, não defenderia?&lt;br /&gt;- Com toda justiça, sim.&lt;br /&gt;- O pai do Alexandre acredita de verdade que você prejudicou seu filho. Para ele essa é uma verdade incontestável, independente de quantas provas de sua inocência sejam apresentadas. E é ofensivo para ele que sua verdade seja contestada.&lt;br /&gt;- Eu não entendo...&lt;br /&gt;- Eu sei, é cedo demais, mas Erich, a vida é uma escola! Quantos jovens aprenderam uma lição depois de ir mal em uma prova? Claro que é desagradável quando algo ruim ou injusto acontece, mas nada acontece por acaso, tudo, por pior que pareça, traz uma rica lição.&lt;br /&gt;- Sinto-me em uma palestra motivacional, com todo o respeito. – Ele permanecia de pé, com um rosto tão sereno que me fez crer que de fato poderia ser um anjo. Ele riu do meu comentário.&lt;br /&gt;- É, faz sentido, estou te motivando a dar o passo seguinte. Você está magoado, ferido por dentro, e isso não é bom para você. Pratique o perdão nesse momento. Não é fácil, eu sei, afinal, está muito ligado à sua vida terrena, e o humano tem a mania de guardar rancores. Olhe, veja o quanto valeu a pena.&lt;br /&gt;Diante de mim uma imagem nítida mostrava trechos da minha vida, coisas que eu já havia me esquecido, momentos felizes, pessoas especiais, dores superadas, desafios vencidos. Tinha certeza de que se tivesse um corpo físico, teria chorado. Aquela história que na hora da morte conseguimos ver nossa vida como um filme é a mais pura verdade, eu estava impressionado com as lembranças que estavam escondidas.&lt;br /&gt;Me levantei do móvel onde estivera sentado e me aproximei da imagem, ajoelhei-me diante dela, era quase tangível cada recordação. Quantas risadas! Quantas alegrias perdidas num passado que por algum motivo me recusara a lembrar! Quantas pessoas passaram por minha vida, e quantas marcas deixei na vida de cada uma...&lt;br /&gt;Até ver ele. Meu Alexandre, naquela noite em que soube que morreria ao lado dele, ele sorria aquele sorriso que só ele tem. Olhei para trás, o homem que assumira as feições do meu amor me observava. Voltei a olhar a imagem, percebendo cada aventura que havia vivido, tantas dores que me deram uma carga valiosa de aprendizagem, os erros que cometi, que não foram poucos, os meus acertos. Que vida plena eu havia tido!&lt;br /&gt;- Muitas vezes as pessoas pensam que não viveram, ou que foram somente alvo de grandiosas injustiças e maldades. Mas tem algo valioso sobre a vida que poucas pessoas conseguem enxergar: você precisa passar pelas dores e pelas alegrias, são parte da experiência humana; cabe a você aprender alguma coisa com as coisas ruins. Todas elas valem a pena se você tiver a capacidade de tirar uma lição. E é esse o grande objetivo da vida. Se você não aprender nada, esses momentos serão somente dor, e se repetirão até que a lição necessária seja aprendida.&lt;br /&gt;- Eu aprendi?&lt;br /&gt;- Muito. És um aluno bastante aplicado. Vieste predestinado a ter uma vida difícil, a precisar lutar sempre pelos seus sonhos, tinhas muito o que corrigir de outras existências, muitas pessoas que feriste no passado que vieram para te ferir. Tua missão era não apenas sobreviver a isso, mas interromper esse ciclo de violência. Você o fez, jamais feriu deliberadamente ninguém, você sobreviveu às suas dores e ainda foi capaz de encontrar alegrias. Chegou o momento do perdão, tens que perdoar de verdade quem te feriu, para que não venhas a feri-las no futuro.&lt;br /&gt;Nas imagens agora podia ver cada rosto que me traumatizara. Cada pessoa que me agredira física ou moralmente, desde as crianças que roubavam meu lanche, passando pela minha experiência mais traumática, os vizinhos que me surraram, os colegas de escola. E revivi cada emoção, toda a dor que sentira naqueles momentos pude sentir outra vez.&lt;br /&gt;- Estou sofrendo outra vez!&lt;br /&gt;- Estás se permitindo sofrer, na verdade. Olhe para dentro de si e perceba que ainda não os perdoou, ou a dor partiria. Ainda é cedo para isso, tens ainda muito a aprender desse lado da vida, sequer estás totalmente desligado do seu corpo físico. Mas é importante, nesse primeiro momento, que percebas o quanto cada um de teus algozes te proporcionou de conhecimento, de crescimento e maturidade.&lt;br /&gt;- Tenho que ser grato aos meus agressores?&lt;br /&gt;- Não diria de forma tão clara, também sei que a intenção deles era somente lhe ferir, mas quando perceberes que cada uma de tuas dores te presenteou com um degrau a mais na sua evolução, elas deixarão de lhe machucar.&lt;br /&gt;Eu estava ajoelhado, eu chorava sem lágrimas na imagem congelada do instante em que o Alexandre partiu. Fazia sentido, mas ao mesmo tempo era demais para mim! Até mesmo eu, alguém extremamente tolerante, teria dificuldades de lidar com isso, com a necessidade de perdoar do fundo da alma aqueles que tanto me fizeram sofrer. Era preciso seguir em frente, eu já tinha consciência de que não voltaria ao corpo físico, que minha vida acabara, mas como fazer? Eu deixaria o Alexandre para sempre e isso me causava ainda mais dor.&lt;br /&gt;- Não, Erich, não o está abandonando como ele não lhe abandonou jamais embora assim tenha enxergado. E almas gêmeas não podem ser separadas, ainda voltarão a se encontrar. E não tenha assim tanta pressa, não há quem espere que se desligue de sua vida tão rápido.&lt;br /&gt;- Ele vai ficar sozinho...&lt;br /&gt;- Ele tem algo a aprender com a sua partida também, e não será condenado a uma existência infeliz na sua ausência. Ninguém está. Além das nossas lições, ainda temos o livre arbítrio, podemos mudar o rumo de nossa vida, para o bem ou para o mal. Acredite, não há um Deus sádico que se divirta com a dor de seus filhos.&lt;br /&gt;Olhei novamente para a imagem, ainda incrédulo com tudo o que ouvia naquele momento. Foi aí que vi um por um dos meus amigos. E pela primeira vez enxerguei que não eram poucos. Eu nunca estivera sozinho, afinal! Como? Como jamais percebi que havia tanto amor dedicado a mim? A cada novo rosto, ou bom momento vivido com esses amigos, sentia uma energia agradável, um alívio, uma sensação maravilhosa de um carinho verdadeiro.&lt;br /&gt;- Não se martirize, Erich, pouquíssimas são as pessoas plenamente capazes de enxergar o quanto são abençoadas, mesmo com as pedras no caminho. Não enxergar a sua importância da vida de cada uma dessas pessoas não te torna egoísta ou cruel, te torna humano. Você não apenas foi como é e será amado por muito tempo.&lt;br /&gt;- Eu marquei mesmo a vida dessas pessoas?&lt;br /&gt;- Claro que sim! Elas seguirão em frente, não estarão no luto para sempre, pode ser que logo sequer mencionem seu nome, mas a marca que deixaste vai além de palavras vazias, está no coração e na história de cada uma delas. Foste um bom amigo, um guia, até líder foste, e um líder que interrompeu ciclos de violência, isso lhe “conta pontos” também. Foste gentil, doce, companheiro e leal, fizeste muita gente sorrir, estiveste presente. Essas pessoas não esquecerão de você. E àquelas que se sentiram agredidas por você também não esquecerão, mas é parte da lição delas também. Perdoas quem te feriu e se redimas com quem feriste e provarás que tudo valeu a pena.&lt;br /&gt;- Eu fui bom para as pessoas, não fui?&lt;br /&gt;- Foi. Com muitas pessoas. Mas não te esqueça que também erraste. E não erraste pouco. – Baixei a cabeça diante da imagem dos momentos em que não fui exatamente uma pessoa exemplar. Não era fácil encarar meus defeitos, e encarar assim tão de frente era no mínimo agressivo.&lt;br /&gt;Ajoelhado e de cabeça baixa, senti a mão do meu guia, o homem com as feições do Alexandre, tocar meu ombro. Senti uma dor absurda no peito e tive a impressão que sua mão no meu ombro visava exatamente tentar evitar tanta dor.&lt;br /&gt;- O que... o que está acontecendo? – Nesse momento me vi em uma cama de hospital, meus familiares desesperados ao redor, meu corpo pálido e um aparelho ligado a mim enquanto um médico me aplicava choques no coração. Era dos choques que me vinha a dor. E o monitor não indicava diferença, o traço verde e contínuo, reto, e o alarme enfurecido de que meu coração não mais batia.&lt;br /&gt;- Está na hora. – Falou-me ele. Vi que um belo e fino cordão me ligava ao corpo, e vi o exato momento em que o cordão se rompeu. Entendi que não havia volta, eu estava oficialmente morto. Com o rompimento, senti-me leve, em paz, como se tivesse me livrado de uma tonelada de coisas que me esmagavam até ali. Ao meu redor, vi que o Alexandre chorava muito, meus pais, minhas irmãs e Luciana. Um pouco mais afastados estavam os pais do Alexandre e as duas meninas, que me pareceram bastante abaladas.&lt;br /&gt;- Hora do óbito: 23h25min. – Anunciou o médico enquanto devolvia as pás ao desfribilador. O monitor ainda exibia o traço contínuo e seu alarme quando uma enfermeira o desligou. Estava acabado, eu deixara de pertencer a esse mundo.&lt;br /&gt;Minha mãe desabou, sendo segurada por meu pai e minhas irmãs, que pareciam não acreditar no que estava acontecendo. Baixei a cabeça, não queria ver o sofrimento dela, era doloroso demais. Será que podia ter lutado pela minha vida? Será que podia ter feito mais? Será que podia ter feito melhor?&lt;br /&gt;- Sempre podemos fazer mais ou melhor, não o fazemos porque nos boicotamos, nos enchemos de impedimentos para justificar a falta de esforço. Mas não foi esse o caso. Lutaste bravamente em outras ocasiões, mas não tens como lutar contra o que é para ser. Esse era o seu momento de partir.&lt;br /&gt;Assenti, mesmo que não concordasse, não havia de fato mais nada a fazer. Os laços estavam rompidos, a vida acabara, e eu e as pessoas que tanto me amaram teríamos que aceitar e conviver com isso. Fiquei imóvel por uma fração de segundos, meu guia respeitou e permitiu que permanecesse ali por mais um tempo. Eu refletia.&lt;br /&gt;Me virei, olhei em seus olhos e finalmente enxerguei seu rosto, e não mais o de Alexandre. Aquilo de alguma forma me fez perceber o quanto o amor podia ser inquebrável. Ver o rosto do meu guia me mostrou que eu não precisaria mais ver o Ale onde quer que eu fosse, ele estava dentro de mim, sua essência e seu amor residiam em mim, ele podia me surgir com qualquer rosto, com qualquer aparência e ainda assim eu o reconheceria, em qualquer tempo, em qualquer lugar. Pela primeira vez eu entendi o que é o amor.&lt;br /&gt;Passei por ele e beijei seu rosto. Se ele sentiu algo talvez eu jamais saberei, mas trocamos energias como somente as almas-gêmeas são capazes de trocar.&lt;br /&gt;Amparado pelo meu guia, segui para um caminho desconhecido. Eu estranhamente sentia uma grande satisfação ao seguir esse caminho contrário à vida que eu conhecia. Estava satisfeito, orgulhoso de mim mesmo, por ter sido íntegro até meu último minuto de vida, por ter sobrevivido e aprendido com a dor, por ter sido intensamente feliz em alguns momentos, por ter vivido a vida que tive. Dolorosa ou não, era a minha vida e fiz o melhor que pude com ela. Eu era apenas um humano, afinal, mas sei que fiz um bom trabalho.&lt;br /&gt;Sorri, respirei fundo e dei meu primeiro passo para a eternidade. Onde aquele caminho me levaria eu não fazia ideia, mas me sentia pronto. Eu era um guerreiro, disso não podia mais duvidar. Agora finalmente eu sabia quem sou eu e do que sou capaz. Não há desafio que não possa ser vencido, não há dor que não possa ser superada, não há amor que possa ser desfeito. Se eu aprendi alguma coisa com a vida que tive foi que tudo valeu a pena, mas que teria valido ainda mais sem a mania humana de se julgar incapaz. O poder esteve dentro de mim o tempo todo, fui tolo ao não ver, mas fui, acima de tudo, um humano e alguém que fez alguma diferença. E isso já é o bastante. Que venham os próximos desafios, estarei esperando por eles, e estarei pronto para vencê-los.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-4163591537010870491?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/4163591537010870491/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/11/requiem.html#comment-form' title='19 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/4163591537010870491'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/4163591537010870491'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/11/requiem.html' title='Réquiem'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>19</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-3383755453869353631</id><published>2009-10-25T02:54:00.000-02:00</published><updated>2009-10-25T02:55:25.738-02:00</updated><title type='text'>Nos braços de Morfeu, ao som do rei.</title><content type='html'>Queridos leitores, antes de iniciar essa história, eu queria me desculpar pela demora. Talvez muitos não saibam, não tenham acompanhado, mas essa foi uma das semanas mais loucas da minha vida! Muita coisa aconteceu e tudo mudou, pra quem me conhece do Orkut deve ter percebido que não estou mais lá. Não vou fazer desabafos por aqui, pelo menos não agora, não é sobre meus sentimentos que essa história fala.&lt;br /&gt;                A questão é que, enquanto eu via minha pseudo-vida virar de cabeça pra baixo e eu ser colocado numa posição de decisões rápidas e definitivas, eu ainda precisava trabalhar e conquistar o pão nosso de cada dia. Mesmo com a minha cabeça explodindo e meus olhos procurando desesperadamente a placa de “Exit”, eu ainda tinha que ser criativo e seguir entregando aos meus clientes um trabalho de qualidade. Pra completar, meu trabalho triplicou com mais dois clientes nessa semana. Ótima notícia, claro, mas tornou mais urgente que eu conseguisse me focar.&lt;br /&gt;                Era quarta-feira. Eu sentia dor muscular em absolutamente todo o corpo, havia voltado de uma festa de aniversário onde não havia me divertido nada, especialmente com as pessoas me perguntando do Ale, que estava há dias sem me dar notícias. Me joguei na minha cama com uma dor de cabeça daquelas de enlouquecer até o mais paciente dos seres, e liguei o mp3, depois de dois comprimidos pra dor e um pra acalmar a alma.&lt;br /&gt;                Elvis Presley encheu meus ouvidos imediatamente com a voz mais espetacular da história da música e, em poucos momentos, eu simplesmente me senti flutuar. Meu mundo ficou imediatamente em preto-e-branco e me vi elegantemente trajado em um terno de risca de giz.&lt;br /&gt;                Memphis, dizia a placa na entrada do bar. Não um bar, um pub, beira de estrada, uma televisão muito antiga estava desligada atrás do balcão enquanto homens e mulheres usavam roupas que eu só vira em filmes. E que lindas mulheres, com suas piteiras resgatando o glamour que há muito não existe na vida real para o ato de fumar, e seus penteados invejáveis me deixaram fascinado. Eu definitivamente não estava no meu tempo.&lt;br /&gt;                Fiquei parado na porta um tempo, observando o ambiente. Colorido somente as roupas e batons das mulheres, nós, homens, estávamos na mesma escala de cinzas de todo o ambiente. E mesmo assim era lindo de se ver. Observei as mesas, com bebidas em garrafas estranhas, poltronas que quase me fizeram rir.&lt;br /&gt;                Uma dessas mulheres se aproximou e me puxou para o balcão, forçando-me a pagar-lhe uma bebida. Mulheres da vida! Claro, havia esquecido que estava em um bar de beira de estrada. Avistei um espelho e notei que ostentava um topete estranho com tanto gel que meu cabelo dourado ficara num tom de cobre escuro que não me agradou. Ao lado do espelho um calendário. Enquanto a mulher passava a mão nos meus braços, eu prestava atenção nos números. Era outubro, definitivamente era outubro de... 1952.&lt;br /&gt;                Eu ri, imagina se não riria! Em 1952 nem minha mãe era nascida! Mas eu estava lá. E foi assim que o vi. No fundo do bar, sentado em uma poltrona na penumbra quase total, envolto na fumaça de cigarro dos homens ao seu redor, o Alexandre sorria para mim. Ele estava com os cabelos curtos, escondidos por um chapéu, usando trajes parecidos com os meus. Eu não me lembrava mais como era seu rosto sem estar emoldurado pelos longos cabelos.&lt;br /&gt;                Desculpei-me com a moça e fui ao fundo do bar. Ele se levantou e veio na minha direção, abraçando-me com vontade. Que saudade eu estava daquele abraço! Ao mesmo tempo, um rapaz ocupou um pequeno espaço próximo de nós com um violão na mão. Música ao vivo. Estranho termos música ao vivo em um bar decadente da década de 50.&lt;br /&gt;                - Demoraste, Erich. – Falou ao meu ouvido.&lt;br /&gt;                - Não sabia que me esperavas.&lt;br /&gt;                - Eu jamais deixarei de estar perto.&lt;br /&gt;                - Eu tenho me sentido tão só... por que partiste?&lt;br /&gt;                - Eu não parti, eu posso não estar mais a te abraçar e te beijar sempre que precisas do meu carinho, mas eu não parti, eu jamais te deixaria na completa solidão.&lt;br /&gt;                - Eu não posso mais dormir ao aroma do teu perfume, eu não sinto mais o toque de tuas mãos ou o sabor dos teus lábios. O frio que invade a madrugada castiga meu corpo por não estares mais comigo.&lt;br /&gt;                Alexandre sorriu, estávamos próximos o bastante para falar baixo, mas não podíamos estar tão próximos quanto eu gostaria, imaginava que um casal de homens não seria bem visto em um bar nessa época.&lt;br /&gt;                - Exageras, meu querido, como sempre, exageras!&lt;br /&gt;                - Sinto sua falta de forma que sou incapaz de descrever. Juro-lhe pelo coração que me bate fraco no peito. – Ao terminar a frase, percebi que falávamos corretamente demais, até para o meu padrão! – Meu adorado amor, explica-me, por qual motivo falamos dessa forma?&lt;br /&gt;                Ele riu mais, riu com vontade enquanto o jovem músico se ajeitava no banquinho e testava os primeiros acordes com seu violão. Ao ligar o microfone e iniciar a primeira canção, senti minhas pernas tremerem. O Alexandre percebeu minha surpresa e riu ainda mais.&lt;br /&gt;                - Você está a brincar comigo! Vejo-te elegante, sem suas longas madeixas, falo de forma exageradamente correta e tu retribuis tamanha correção, me vejo no interior de um bar em 1952 em Memphis, vejo tudo em preto-e-branco, diga-me que minha audição me engana e que esse jovem músico não é...&lt;br /&gt;                - Ora, meu adorado Erich, estás vivendo no interior de um sonho, tudo é possível! – Até estar novamente com ele, pensei. – Estás há tantas décadas passadas que teu linguajar é perfeitamente natural, o que poderia te impedir de estar comigo ao som de Elvis Presley?&lt;br /&gt;                O jovem Elvis tocava seu violão, soltava sua voz impecável quando Alexandre estendeu a mão em minha direção. Estávamos sozinhos no bar, era escuro, somente Elvis permanecia em um canto precariamente iluminado. Não havia mais homens fumantes, mulheres da vida e suas piteiras, havia duas pessoas que se amavam, no centro de um salão vazio, sem poltronas, mesas ou cadeiras.&lt;br /&gt;                Unidos pela força do amor e da física, dançamos ao som suave de uma canção romântica. O som não parecia ao vivo, parecia sair de uma vitrola antiga, de um disco de vinil gravado quase artesanalmente em algum porão da cidade que revelou o rei do rock.&lt;br /&gt;                Eu viajava ao som dos acordes, mais ainda ficava desconfiado da situação. O que pensaria o rei ao ver dois homens dançando ao som de sua música? Como se fosse capaz de ler meu pensamento, Ale respondeu.&lt;br /&gt;                -Relaxe, meu amor, nada disso é real, e Elvis ainda não é um astro da música, ele não há de pensar mal de nós.&lt;br /&gt;                Eu me deixei levar pelo seu perfume, pelo seu carinho e seus braços que me envolviam. Sim, era o momento perfeito. E foi nesse momento que Alexandre me beijou. Não sabia bem como reagir, mas senti com tanta perfeição aquele beijo que me recusei a acreditar que era somente um sonho. Não era justo comigo que fosse somente um sonho. E se fosse, desejei não acordar jamais. Não poderia haver no mundo sensação melhor do que estar ali, em um lugar onde não devíamos explicação a ninguém, onde podíamos simplesmente ser nós mesmos, embalados por uma música que nos tocava o coração, enquanto podíamos simplesmente nos amar.&lt;br /&gt;                Fechei meus olhos, queria deixar para minha pele o privilégio de guardar aquele momento para sempre. Uma lágrima solitária escorreu pelo lado direito do meu rosto, eu transbordava de emoção, de alegria e de amor. Eu sentia que minha vida chegava a um momento crucial, onde eu poderia deixar de existir a qualquer momento. E se o paraíso fosse daquela forma, eu aceitaria meu destino sem hesitar.&lt;br /&gt;                Foi durante o beijo que vi o cenário se transformar, estávamos magicamente em um lugar iluminado, era dia, havia uma praia por perto, eu podia ouvir o som das ondas. Mulheres distribuíam colares havaianos e havia milhares de pessoas ao redor. “Honolulu International Center”, li numa placa próxima dali.&lt;br /&gt;                - Hawai? – Perguntei incrédulo.&lt;br /&gt;                - Ahan! – Respondeu Ale, já com os cabelos longos. As roupas eram radicalmente diferentes. As pessoas eram diferentes, suas atitudes, o jeito de andarem e falarem, era diferente de 1952, e diferente do ano em que eu vivia minha conflituosa vida real.&lt;br /&gt;                No chão, um jornal pisoteado anunciava o “show do século”, primeiro show a ser transmitido via satélite. Eu ri, não havia outra reação para o momento. Eu participaria de um momento histórico, algo tão improvável quanto mágico.&lt;br /&gt;                - O que está acontecendo, Ale?&lt;br /&gt;                - Estamos em 14 de janeiro de 1973, no show histórico de Elvis Presley.&lt;br /&gt;                - Mais Elvis?&lt;br /&gt;                - Nisso eu preciso te agradecer, por você ter dormido ouvindo Elvis e não algum funk!&lt;br /&gt;                Ambos rimos, ele com seu sorriso que sempre me tirava do sério, e eu novamente entorpecido pela situação toda. Mesmo para um sonho parecia perfeito demais. Entramos no local e, quando percebi, estávamos muito próximos do palco. Elvis já não se parecia tanto com o garoto de topete do bar, mas ainda era um homem de beleza admirável, usando seus trajes característicos. Em dado momento ele parecia sem fôlego. Ale novamente parecia adivinhar meus pensamentos.&lt;br /&gt;                - Ele já não é mais o mesmo.&lt;br /&gt;                - É possível perceber isso.&lt;br /&gt;                - É Erich, a vida é uma estrada, uma hora ela acaba.&lt;br /&gt;                - Mas se estamos em 1973, ainda faltam alguns anos para ele morrer!&lt;br /&gt;                - Não é dele que estou falando. Mas veja bem, acho que encontramos uma comparação muito boa, talvez um tanto exagerada, mas válida. Elvis morreu alguns anos antes de nascermos, mas sua fama perdurou, as pessoas não deixaram de amá-lo, não esqueceram tudo o que ele representou, tudo o que ele significou. Ele morreu, mas não no coração e na lembrança de quem o amava, e de quem o amou sem sequer o conhecer.&lt;br /&gt;                - Eu ainda não entendo onde está indo essa conversa...&lt;br /&gt;                - Vais acabar entendendo, basta que não se esqueças que tudo precisa ter um fim, cedo ou tarde, nada foi feito para durar para sempre. Mas o fim não significa uma ruptura definitiva. Tudo o que chega ao fim passou por um durante, construiu uma história, e essa história pode não deixar registros, mas não é apagada, ela sobrevive na memória e no coração de quem a viveu, de quem a testemunhou e de quem a conheceu de alguma maneira.&lt;br /&gt;                Olhei ao redor, ninguém parecia notar nossa existência ali, pessoas choravam emocionadas e me perguntei quantas delas poderiam imaginar que estavam vivendo um dos momentos mais importantes da história do rock? Quantas poderiam imaginar que dentro de tão pouco tempo, somente 4 anos, o seu grande ídolo não mais existiria?&lt;br /&gt;                - Ídolos são ilusão, Erich, são somente uma maneira de nos vermos como inferiores, quando na verdade os nosso ídolos não são melhores do que nós. Ídolos morrem.&lt;br /&gt;                - Morrem, mas duram para sempre.&lt;br /&gt;                - Verdade, e morrem quando tem que morrer. Não falo somente do ciclo da vida, mas o que no garante que se Elvis tivesse vivido mais 20 anos, ele seria o ícone que é hoje? As vezes o melhor momento para morrer é exatamente quando as coisas ainda são boas, é chance que os ídolos dão aos seus fãs de guardarem para sempre a melhor lembrança.&lt;br /&gt;                - Isso não me parece tão adequado. Não penso que morrer no auge seja uma forma de presentear.&lt;br /&gt;                - Elvis não morreu no auge, mas morreu antes da total decadência. E poucos são os ídolos que não caem de seus pedestais. Observe o show, estás diante de um homem que se tornou mito, e como mito virou eterno. Ele mexeu com a vida das pessoas, tem coisa mais incrível do que você saber que fez alguma diferença?&lt;br /&gt;                - Então por que não viver bastante? Por que morrer no auge ou tão perto dele?&lt;br /&gt;                - Porque existem fases na vida, todas acabam. Ninguém consegue sustentar uma condição, uma situação por um tempo demasiadamente prolongado, e nem para o ídolo, nem para o fã, a fase da decadência é uma experiência agradável. As pessoas seguem suas vidas, elas precisam continuar sua caminhada, elas não serão tocadas pelo ídolo a vida toda, somente naquela fase. E quando a fase acaba, o ídolo perde a razão de ser.&lt;br /&gt;                - Ou seja, o ídolo é descartado.&lt;br /&gt;                - Não seja extremista, meu querido, o próprio ídolo segue em frente, a vida segue seu curso, querendo ou não. Mas o que lhe soa melhor: um ídolo caído ou um ídolo eterno?&lt;br /&gt;                - Um ídolo eterno, mas acho isso meio óbvio.&lt;br /&gt;                - Então, as vezes é importante saber o momento de sair de cena, de abandonar os palcos, de apagar as luzes.&lt;br /&gt;                - Elvis não decidiu sair de cena, ele morreu!&lt;br /&gt;                - Muitas coisas interferem na sua vida, muitas decisões não são totalmente suas, o que não significa que não sejam tão ou mais positivas que aquelas que você tomou conscientemente. Olhe ao seu redor, aposto que não vais querer esquecer disso. – Ale parou de me olhar e passou a olhar para o rei, nova música para começar e o público completamente entorpecido pelo que se passava diante de seus olhos. Eu me entreguei às sensações junto às milhares de pessoas que viviam aquilo que para mim não era real.&lt;br /&gt;                No palco Elvis emocionava. O show parecia estar perto de terminar. Tocava “American Trilogy” com o poder da voz do rei e cantores de apoio. “Glory, glory, aleluia”. Me soou como uma oração enquanto os instrumentos do palco faziam meu coração bater mais forte. Ou seria mais fraco? Eu não sabia dizer, mas o olhar do Alexandre me deixou apreensivo.&lt;br /&gt;                No momento em que a música juntava forças e explodia com instrumentos de sopro, ele segurou minha mão e me beijou. Um beijo simples e rápido, mas cheio de um sentimento real.&lt;br /&gt;                - Está na hora de você voltar ao nosso tempo, está na hora de acordar, mas não se esqueça do que vivemos aqui, e do que lhe falei. Será útil.&lt;br /&gt;                - Alexandre, estou ficando realmente assustado.&lt;br /&gt;                - Não fiquei, meu anjo, nenhuma mudança nos agrada no começo, mas vai dar tudo certo. Eu não vou te abandonar, acredite. Não tenha medo, acontecerá o que tiver que acontecer, nada além disso. E você merece que seja para o seu bem.&lt;br /&gt;                Ele me beijou a testa e soltou minha mão. Como num susto, despertei do sono com lágrimas nos olhos. No mp3 ainda tocava Elvis, era madrugada e eu estava banhado de suor. Chorei, mesmo sem entender bem o que suas palavras queriam dizer, eu chorei.&lt;br /&gt;                Sempre tivera medo de mudanças, mas tudo ao meu redor indicava que elas viriam com ou sem a minha vontade. E elas vieram. Mas isso é assunto para outra história, porque o novo dia seria longo, mais longo do que eu poderia imaginar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-3383755453869353631?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/3383755453869353631/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/10/nos-bracos-de-morfeu-ao-som-do-rei.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/3383755453869353631'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/3383755453869353631'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/10/nos-bracos-de-morfeu-ao-som-do-rei.html' title='Nos braços de Morfeu, ao som do rei.'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-7349692824664837315</id><published>2009-10-16T23:19:00.000-03:00</published><updated>2009-10-16T23:20:15.852-03:00</updated><title type='text'>Avalanche</title><content type='html'>Tardes de verão costumam trazer boas surpresas. Ou pelo menos é o que se espera quando se está numa casa cheia de amigos naquele que dizem ser o dia mais quente do ano. Aninha era a dona da casa, uma casa de madeira extremamente modesta, mas bem aconchegante e em uma prainha minúscula, parecia só ter nós por lá. Era verão de 1999, estava entrando no último ano de escola e dividia quarto com o Marcos, um garoto bissexual que se dividia entre eu e a Pâmela, irmã mais velha da Aninha.&lt;br /&gt;                Aninha é até hoje a minha amiga mais doce e especial, e naquela ocasião eu descobri o que é verdadeiramente dar a vida por um amigo. Naquele verão quase foi necessário. A casa ficava em uma encosta, longe pra caramba do mar, longe pra caramba de quase tudo, a gente basicamente se transportava pela redondeza de bicicleta, éramos todos garotos na faixa dos 17 anos, exceto a Aninha que ainda tinha 15.&lt;br /&gt;                Não ficaríamos muitos dias, não chegava a 10, exatamente porque a casa precisava de reformas urgentes, mas a gente não abria mão da diversão. Embora todos fôssemos menores de idade, era muito fácil conseguir bebida alcoólica, especialmente com o Marcos junto, um garoto alto e forte, que enganava facilmente, chegava a abusar da sorte alegando ter 26, 27 anos. E nunca deu errado, chegamos a ir em um show os quatro usando ele como o maior responsável. Bom, tirando a Aninha, ele nos “usava” também.&lt;br /&gt;                Certo dia, no meio das nossas curtas férias, o tempo nublou e começou a chover, bem devagar. Jogamos cartas e bebemos quase todo o dia. Marcos, campeão de arrotos e o maior conhecedor de palavrões entre todos nós, começou a provocar.&lt;br /&gt;                - Depois que eu fizer 18, só vou pegar mulher, Erich.&lt;br /&gt;                - E? – Respondi.&lt;br /&gt;                - Você vai sentir falta dos meus beijos.&lt;br /&gt;                - Quem disse? – Aninha e Pâmela riam com as cartas na mão. Só Aninha estava sóbria, Pâmela não e deixava beber.&lt;br /&gt;                - Ah, não vai?&lt;br /&gt;                - Nem é tão bom assim! – Comecei a rir, não era verdade, ele era ótimo na arte de beijar.&lt;br /&gt;                - Te faço mudar de opinião agora, garoto! – Marcos saltou da mesa em cima de mim, derrubando cartas, bebidas e tudo o que estivesse no caminho. Caímos ambos no chão e ele me beijou. As meninas aplaudiam enquanto eu flutuava com a maneira como ele me beijava.&lt;br /&gt;                Ele começou então a me beijar o pescoço e puxou minha camiseta, foi então que elas protestaram, a sala não era o lugar mais adequado para o que ele pretendia fazer. Nos levantamos e fomos para o quarto, sob o som da chuva que aumentava gradativamente. Ainda podíamos ouvir o som delas rindo na sala e limpando a sujeira que Marcos havia feito.&lt;br /&gt;                Eu ainda estava um pouco tímido, Marcos era muito mais experiente que eu, mesmo tendo exatamente a mesma idade. Logo depois de trancar a porta com uma alavanca decadente de madeira comida por cupins, ele me prensou contra a parede, de costas, e foi beijando meu corpo enquanto me despia. O cavanhaque dele tornava ainda mais interessante, fazendo cócegas nas minhas costas.&lt;br /&gt;                Eu me mantinha de olhos fechados, somente ouvindo os sons, sem me mover da parece umedecida pela chuva que castigava a rua. Ele se afastou um pouco, e eu permaneci imóvel, embora não o olhasse, sabia que ele buscava proteção. Ouvi o som da embalagem se rompendo, ouvi seus movimentos e senti forte o exato momento em que ele me invadiu.&lt;br /&gt;                Perdi o fôlego, imediatamente após a invasão. Ele me pressionava com força contra a parede e sou capaz de jurar que vi estrelas exatamente como nas histórias em quadrinhos. A parede balançava ao nosso movimento e cheguei a pensar que acabaríamos caindo no quarto das meninas.&lt;br /&gt;                - Pode... ser... um... pouco... mais... delicado? – Perguntei fazendo força para respirar, ele parecia tão empolgado que esqueceu que eu não era a Pâmela, uma menina experiente que certamente não tinha mais problemas com esse tipo de dor.&lt;br /&gt;                - Ai, desculpe... – Por ser muito mais alto e forte, com seus braços, me tirou do chão e, sem sair de dentro de mim, me levou para cama. Eu permaneci deitado de costas, muito mais confortável que antes, sem dúvida, sendo capaz de nos enxergar pelo reflexo do vidro da janela. Foi o primeiro momento que esqueci a dor e me diverti vendo as caretas que ele fazia.&lt;br /&gt;                Sem dizer nada, ele me virou de frente pra ele e acabou com a minha diversão. Eu já estava começando a ficar irritado ao perceber que eu seria passivo ao extremo nessa história, ainda não havia tido a chance de nenhum tipo de iniciativa, e ele aproveitava a força para manipular meu corpo como quisesse. Mas a essa altura as minhas sensações eram outras e eu já nem me importava mais.&lt;br /&gt;                Satisfeito, ele se jogou na cama dele e adormeceu rapidamente. Não gostei da atitude, faz parecer tudo muito superficial. Me vesti e fui à sala reclamar com a Aninha, que ouvia música por lá. Ela estava sozinha, a Pâmela havia ido dormir também, e permanecemos nós dois sentados na varanda vendo a chuva, cada vez mais forte.&lt;br /&gt;                Mais abaixo de nós haviam outras casas na mesma condição. Frágeis. Mas a nossa era a única habitada da redondeza. Não fosse o tamanho do Marcos, tenho minhas dúvidas se teria coragem de ficar tanto tempo por lá.&lt;br /&gt;                Eu e Aninha ríamos, eu gostava de mexer nos seus cabelos longos e lisos, castanhos, dizia morrer de inveja deles, me lembravam um certo menino que não via há algum tempo nessa época. Aninha o conhecia também, não muito, mas sabia que quando eu mexia demais no seu cabelo, era um jeito que eu encontrava para lembrar dele.&lt;br /&gt;                - Como você consegue pensar nele depois de transar com o Marcos?&lt;br /&gt;                - Ai, florzinha, acho que bateu saudade exatamente por isso. Você sabe que eu e o Marcos não tem futuro, nem sequer presente, não sabe?&lt;br /&gt;                - Ai, Erich, você é muito bobão, deixa de ser tão romântico! Eu e a mana sentimos pelo movimento da casa que o negócio foi bom, curte isso e esquece o resto, oras!&lt;br /&gt;                - Aninha, honey, não é assim também...&lt;br /&gt;                - Vocês dormem no mesmo quarto, podem repetir mais tarde, você tem tudo pra se divertir muito, pra quê ficar pensando num cara que você nem sabe onde está?&lt;br /&gt;                - Não sei. Amor, talvez?&lt;br /&gt;                - Hum, desculpe, não acredito muito nessas coisas.&lt;br /&gt;                - Você é nova demais pra não acreditar mais em amor...&lt;br /&gt;                - Ah, mas pensa bem, o Marcos já disse pra Pam que a ama, que quer ficar com ela pra sempre, mas foi com você que ele transou há pouco.&lt;br /&gt;                - Foi só sexo, nada a ver com sentimento. Aliás, eu não recomendo, por sinal. E acredito que ele a ame. Na verdade a maneira como ele me... a maneira como ele agiu, aposto que ele não quis transar com ela exatamente para preservá-la do ímpeto selvagem dele... – Eu mesmo corei com o comentário, Aninha ainda era muito jovem para falar certas coisas, eu me constrangia.&lt;br /&gt;                - Ai, que emocionante! Conta mais!&lt;br /&gt;                - Tá maluca! – Eu ri e me levantei da varanda decadente da casa, foi nesse momento que avistei que do alto do morro o barro descia em alta velocidade com a chuva forte. – Aninha, tem barro descendo o morro...&lt;br /&gt;                - Ah, normal. Tá chovendo!&lt;br /&gt;                - Aninha, tem muito barro, e já tem goteira por toda a casa, se começar a descer pro nosso lado, a casa não agüenta!&lt;br /&gt;                - Bobagem, fica tranquilo. Vamos fazer uma pipoca?&lt;br /&gt;                - Vamos!&lt;br /&gt;                A confiança dela não se repetiu em mim. Entramos para preparar a pipoca e percebi que algumas partes da casa já apresentavam os primeiros sinais de alagamento. Eu vi pelo reflexo do rosto dela na panela que sua calma era forçada, ela também estava com medo.&lt;br /&gt;                - Erich, podes pegar o casaco pra mim? Ficou na varanda.&lt;br /&gt;                - Claro! – Solícito, fui à rua e percebi que a situação estava prestes a se agravar. Foi quando ouvi o grito de Aninha. Entrei novamente na casa e me deparei com uma cachoeira invadindo a casa, foi quando o barro me derrubou, no instante que tentava correr ao seu encontro.&lt;br /&gt;                Foi tudo rápido demais, em pouco mais de um minuto a casa simplesmente não existia mais. Eu podia sentir o gosto de barro na boca, eu estava com boa parte do meu corpo submerso na lama, mas ainda podia me mexer. Tentei ser o mais rápido possível, antes que mais barro me impedisse se fazer algo. A chuva estava forte demais, eu não ouvia nem Aninha, nem Marcos e nem Pâmela, que estavam nos quartos que não existiam mais.&lt;br /&gt;                A casa havia se transformado em um amontoado de madeira e lama, com móveis escorregando e se tornando um perigo em potencial. Foi aí eu que ouvi Aninha. Tentei correr na direção dela, mas corria sério risco de ser “atropelado” por uma avalanche de barro e móveis, mas naquele momento a única coisa que me passou pela cabeça é que eu não suportaria viver num mundo em que Aninha não existisse mais, era preciso fazer algo.&lt;br /&gt;Havia madeira sobre ela, tinha sangue, ela estava ferida e chorava. Tentei me aproximar e fui novamente jogado para longe, ganhando uma cicatriz no braço, ao cair sobre o que antes era a nossa mesa de jantar. Ouvi mais vozes, pessoas de fora haviam visto que a casa desabara sob a forte chuva e a lama que não parava de cair do alto do morro. Dois rapazes foram ao meu encontro e começamos juntos a procurar novamente por Aninha e pelos meus outros dois amigos, que não havíamos tido sinal ainda.&lt;br /&gt;No meio da nossa busca mais barro desceu e pessoas que acompanhavam de longe gritaram para que saíssemos de lá, mas eu não podia deixar minha doce amiga presa ali sozinha, eu sabia que aquilo podia não terminar bem. Os rapazes se afastaram, mas um deles prometeu voltar o quanto antes, me desejou sorte antes de ele mesmo escorregar na lama e descer o restante do morro sentado praticamente. Aninha estava em uma espécie de buraco, me joguei nele também e puxei uma tábua sobre nós, para a passagem da lama.&lt;br /&gt;O peso da lama sobre a tábua era algo impressionante, parecia que nos esmagaria a qualquer momento. Eu vi a vida passando diante dos meus olhos enquanto tentava permanecer calmo, olhando Aninha, que parecia fazer força para se manter viva. Ela chorava, tinha a respiração irregular e boa parte do seu corpo era coberto por água suja de barro. A chuva havia diminuído um pouco, mas não o suficiente para garantir que não morreríamos afogados enquanto a lama nos prensava no buraco.&lt;br /&gt;Ambos sabíamos que se eu não nos tivesse coberto com a madeira, Aninha teria sido enterrada viva, pois a lama preencheria o buraco antes de seguir seu curso. Tentei acalmá-la, o nervosismo dela atrapalhava demais a respiração, que já era complicada pelo meu peso e peso da lama sobre nós.&lt;br /&gt;A água entrava no buraco e, para nossa sorte, era absorvida pela terra, mas não toda, e, antes que pudesse ter noção do que acontecia na rua e força o suficiente para empurrar a tábua, vi o rosto de Aninha ficar submerso. Não pensei duas vezes, puxei o ar com força e alcancei sua boca, mantendo-a respirando enquanto a água não voltava a diminuir e ela não conseguia manter o rosto fora da água. Eu também estava cansado demais, e, se a chuva não parasse, era possível que ambos ficássemos submersos.&lt;br /&gt;Parte da lama que passava sobre nós chegou a entrar no buraco, deixando-nos ainda mais presos e sufocados. Eu nem imagino quanto tempo passamos lá, ou por quanto tempo precisei passar ar da minha boca para a dela, mas sei que quando a água baixou e ela pôde respirar sozinha, estávamos tão cansados que acredito que adormecemos abraçados, com a lama endurecendo ao nosso redor, mas ainda estávamos vivos.&lt;br /&gt;Fiquei alerta ao ouvir meu nome, havia me identificado para os rapazes que tentaram me ajudar tempos antes. Aninha também estava desperta, porém claramente debilitada. O espaço estava ainda mais apertado e nenhum dos dois conseguia se mexer.&lt;br /&gt;- Calma, florzinha, eles vão nos tirar daqui...&lt;br /&gt;- Por que você voltou?&lt;br /&gt;- Porque eu não te deixaria para trás de jeito nenhum.&lt;br /&gt;- Você pode morrer aqui comigo, Erich! – Ela soluçava.&lt;br /&gt;- Não imagino melhor momento para morrer do que abraçado com você.&lt;br /&gt;- Seu bobo, eu falo sério!&lt;br /&gt;- Eu também, Aninha! Você acha que eu iria conseguir conviver comigo mesmo se não tivesse feito alguma coisa para pelo menos tentar te salvar?&lt;br /&gt;- Você pode perder a vida por isso.&lt;br /&gt;- Eu acho uma causa válida. Por você eu dou mesmo minha vida. Nada mais natural do que arriscá-la tentando te salvar. – Um grito mais próximo foi ouvido por nós, eles estavam quase onde estávamos. – Viu? Vamos ambos viver! – Esbocei um sorriso, mesmo lembrando que provavelmente perderíamos Marcos e Pam.&lt;br /&gt;Consegui gritar uma vez e ouvi a movimentação ao nosso redor, o barulho de pás sobre a lama, devia ter uma camada grande sobre nós, por isso estávamos ambos quase sufocados com o peso que nos oprimia.&lt;br /&gt;Não sei dizer ao certo como aconteceu nosso resgate, lembro de ter visto que estava escuro, não noite ainda, mas estava escuro e a chuva deu lugar à uma garoa fina. Também me recordo que não havia mais nada ao nosso redor, somente restos de casas, como móveis destruídos, tábuas de madeira e muito barro. Já havia mais gente ali, e ambulâncias. Eu consegui sair caminhando, sendo levado ao hospital por precaução, mas Aninha estava ferida, saiu sobre uma maca, sendo prontamente atendida por paramédicos.&lt;br /&gt;Os rapazes de horas antes vieram me cumprimentar pela coragem, pela luta, todos sabíamos que se eu tivesse saído naquele momento, Aninha estaria morta. Mas não me considerava um herói, longe disso, agi muito mais por instinto do que por heroísmo propriamente dito. Eu simplesmente tive noção que não desejaria ficar longe dela, nunca na vida eu suportaria ficar longe dela.&lt;br /&gt;Passei a noite em observação no hospital, meus músculos estavam em frangalhos, mas saí ileso da tragédia. Aninha fraturou uma perna e duas costelas, mas também saiu no lucro, porém, pedi que me prometesse que jamais colocaria a vida em débito a mim ou qualquer do gênero. Posso ser o último romântico, mas acredito na amizade verdadeira e tenho certeza que ela faria o mesmo por mim.&lt;br /&gt;Quanto ao Marcos e à Pam... bom, eu e Aninha fomos padrinhos do casamento, três anos atrás, e agora ambos estão envolvidos nos primeiros passos e Pedro, o pequenino que nasceu no ano passado.&lt;br /&gt;Nunca mais viajamos os quatro, a família das meninas nunca mais reconstruiu a casa e nem Marcos, nem Pam tocam no assunto, até hoje não sei dizer como eles sobreviveram, já que eu caminhei sobre os destroços sem ver sinal deles antes de encontrar Aninha. Mas enfim, o que importa é que sobreviveram, embora se recusem a contar. E ninguém nunca insistiu, não é exatamente um assunto para uma mesa de bar, mas sinceramente, penso que vivemos uma experiência válida, experimentamos alguns limites, vivemos sob uma realidade de luta pela sobrevivência que certamente mudou um pouco do que éramos, e moldou um pouco do que nos tornamos.&lt;br /&gt;E eu acho que nos tornamos pessoas melhores, impossível dizer com certeza, mas sei que valeu a pena. Sempre vale a pena, mesmo as piores experiências, se você está aberto às lições que essa experiência pode proporcionar. A gente percebe que não está sozinho, a gente nunca está sozinho. Mesmo que as vezes seja tão difícil lembrar disso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-7349692824664837315?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/7349692824664837315/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/10/avalanche.html#comment-form' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/7349692824664837315'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/7349692824664837315'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/10/avalanche.html' title='Avalanche'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-590493454415960388</id><published>2009-10-12T14:56:00.000-03:00</published><updated>2009-10-12T15:01:24.132-03:00</updated><title type='text'>Perdido</title><content type='html'>É, parece que o destino de fato gosta de pregar peças. A gente costuma alimentar ilusões de que as melhores coisas foram feitas pra durar pra sempre. E não, não é bem assim, não é nada assim. As coisas boas muitas vezes são tão passageiras que nos deixam a impressão que foram tão somente um sonho. Um sonho bom.&lt;br /&gt;                A minha história com o Ale foi algo assim. Não sei até que ponto isso realmente acabou, acho que no fundo não vai acabar nunca, mesmo que a gente não volte nunca mais a se ver, amores verdadeiros não morrem da noite para o dia. Pelo menos o meu garanto que não vai.&lt;br /&gt;                Encarar a realidade que meu conto de fadas não tinha nada de mágico ou encantador não tem sido uma tarefa fácil. Esconder as fotos, apagar o número do celular e não mais esperar ligações tem sido um desafio deveras doloroso que me leva ao pranto só de pensar. Todo fim de uma história boa causa dor, ela é inevitável. Mas... se era boa, por que acabou?&lt;br /&gt;                Não sei. Não sei sequer se de fato acabou. Talvez fosse boa só para mim, que não sou exatamente um bom parâmetro para a realidade. Eu vivo à margem dela. E não, não estou exagerando, mas isso pode ser assunto para um novo conto, aposto que chocaria muita gente. Só não sei se tenho tanta audácia para me colocar deliberadamente na posição de louco.&lt;br /&gt;                Mas enfim, essa foi uma semana difícil e dolorosa. Eu o perdi. Não sei se para sempre, não sei se ele volta para mim, mas por hora a sensação de abandono e vazio que ele deixou tem sugado todas as minhas energias. Confesso que vivo pelo instinto de me manter respirando, porque levo a vida de um zumbi desde que me deparei com a realidade, que eu não o tenho mais comigo.&lt;br /&gt;                E isso me fez me questionar até que ponto eu de fato o tive. Vivemos coisas lindas juntos, tivemos nossos momentos mágicos, rimos, choramos juntos. E é isso que me dói mais. Eu sinto que entreguei a ele a minha vida e recebi de volta uma parcela tão pequena que posso afirmar que não o conheço de fato. Não vou usar esse espaço para culpá-lo, mas um desabafo julgo necessário: ficaram tantas promessas para trás que perdê-lo foi somente uma parte do problema. Com ele perdi tantas perspectivas, tantos planos, tantas fantasias.... sinto-me não tão somente abandonado pelo meu amor, mas também completamente perdido na estrada da minha vida.&lt;br /&gt;                Já perdi muitas outras coisas nessa vida, já perdi tantas vezes a vontade de continuar que nem teria como citá-las aqui. E lembro-me com perfeição da vez que quase fui presenteado com meu desejo mais antigo: não envelhecer. Aliás, relembrar essa história não podia ser mais adequado! Não apenas quase me matou, como tornou anatomicamente frágil o meu já tão sofrido coração.&lt;br /&gt;                Que eu sou super sensível, todo mundo já deve ter notado, mas em 2006, aos 24 anos, meu coração foi literalmente ferido. Porém, essa história começa meses antes, ainda aos 23, quando driblei a morte pela segunda vez sem saber que ainda a encararia de frente mais uma vez. Ah, sim, como a anterior, essa história é totalmente real, me manterei fiel aos fatos como eles ocorreram.      &lt;br /&gt;                Março de 2006, lembro-me com exatidão que passeava com a minha mãe, estávamos procurando o presente de aniversário do meu pai, que seria uns dias depois. Na época eu era doador de sangue, O -, e aproveitando que estávamos perto do hemocentro, seguimos para lá e fiz a doação do período. Ao fim do procedimento, completo com lanche, saímos de lá e seguimos a pé para casa. Porém, na metade da quadra seguinte, comecei a me sentir mal e percebi que não iria longe. Minha mãe me viu branco como cera e entramos em um bar, onde compraria algo com a ideia de repor o açúcar (hipoglicemia é comum na minha família). Porém, logo ao entrarmos, tive tempo somente de me sentar em uma cadeira antes de apagar completamente.&lt;br /&gt;                Embora em alguns momentos tenha conseguido ouvir e ver algumas coisas (estava de olhos abertos), fiquei um total de 50 minutos desacordado. As pessoas que me socorreram junto à minha mãe chamaram o serviço de emergência da prefeitura que recusou atendimento alegando que eu deveria estar de responsabilidade do hemocentro. A pergunta é como minha mãe, com 1,60m, conseguiria carregar 80kg de “peso morto” por mais de 100m? Sim, porque não havia qualquer possibilidade de eu caminhar desmaiado!&lt;br /&gt;                A confusão toda terminou com meu pai chegando ao local, pouco depois de eu despertar, e me levando de carro de volta ao hemocentro. Lá fui recebido com uma cadeira de rodas, onde desmaiei novamente por mais alguns minutos. Ao medirem a pressão, não havia registro no aparelho, que passa a registrar a partir de 6x4. Abaixo desse número, a chance de óbito é imensa devido à ausência de pressão. Lembro-me da feição das enfermeiras ao constatarem que ultrapassei o tempo de uma hora abaixo do mínimo de pressão para garantia de vida.&lt;br /&gt;                Ali percebi que o fato de estar vivo era algo extraordinário. Porém, a experiência fragilizou minha saúde de modo avassalador, mas eu ainda não fazia ideia disso. Até que...&lt;br /&gt;                No início de setembro tivemos uma nevasca histórica, há anos não nevava com tanta força. Era uma segunda feira, mas não lembro com precisão o dia do mês. Lembro que meus chefes estavam viajando e que a neve começou quando fazia meu caminho pra casa no horário do almoço, algo bastante raro pela distância entre o meu trabalho e a minha casa. Era lindo de ver, e o frio nem era assim tão violento, os três termômetros no meu caminho marcavam 7°, já havia enfrentado temperaturas negativas sem neve.&lt;br /&gt;                Durante a tarde, eu e meus colegas nos divertimos por algum tempo, já que a neve também não foi assim tão duradoura. Foi muito bacana, mas terminei a semana de cama. Foi uma gripe estranha, não pude levantar da cama por 5 dias, para tomar banho precisava ficar sentado no box do banheiro ou desmaiava. Não vou entrar em mais detalhes, mas de fato, nunca havia ficado daquele jeito.&lt;br /&gt;                Em novembro, a sequência de fatos foi realmente interessante: final de ano, excesso de trabalho, fim de curso de pós-graduação e eu invento de ir numa festa em plena quinta-feira. Talvez pra muita gente isso seja perfeitamente normal, mas não pra mim. Eu odeio festas, eu não vou nem quando posso dormir até o meio-dia no dia seguinte, imagina tendo na sexta um dia puxado de trabalho, aula de noite e aula sábado de manhã!&lt;br /&gt;                Mas enfim, foi a primeira vez que convenci um certo amigo a sair comigo, era a festa de aniversário de outro amigo, julguei que o sacrifício valeria a pena. Ok, foi divertido, não vou negar, mas o amigo continuou só amigo (até dois meses atrás, mas isso é uma história à parte). Na sexta-feira, como eu previa, estava acabado. Tudo bem, enfrentei corajosamente o dia todo de trabalho e a noite de aula. Para completar o estresse, teve tiroteio na frente da faculdade onde fazia a minha pós-graduação. Me vi jogado no chão da cantina com meus colegas controlando para não sujar as calças.&lt;br /&gt;                No sábado pela manhã eu me arrastava, iria chegar muito atrasado na aula se no caminho não tivesse cruzado com colegas de carro. À tarde, com a chegada do verão, saí com a minha mãe para comprar roupas, mas estava tão cansado que o programa durou pouco. Fiquei o resto do dia jogado no sofá vegetando, mal conseguia reunir forças para ir ao banheiro.&lt;br /&gt;                Naquela noite, antes das 20h eu já estava dormindo, vindo a acordar somente às 13h no domingo. Também não tinha apetite nenhum, mas acabei saindo com meus pais novamente à procura de roupas novas. Consegui algumas, mas novamente, voltei tão cansado que o reinício da semana me causava pânico. No início da noite acabei sendo levado ao pronto-atendimento do meu plano de saúde, onde fui diagnosticado com “estresse de final de ano”. Ou seja, nada.&lt;br /&gt;                Na manhã seguinte, como o plantão era no meu caminho, passei por lá e medi a pressão, que estava baixa, e segui ao meu trabalho caminhando pesadamente como se carregasse concreto nos bolsos. Por volta do meio da manhã, não tinha forças para digitar no teclado do computador, ou seja, trabalhar era inviável. Acabei pedindo à gerente da empresa que me deixasse sair. Minha intenção era ir para casa, mas ninguém atendia o telefone e não tinha quem fosse me buscar. Do meu trabalho à minha casa era 1,5km de subida.&lt;br /&gt;                Ir da minha mesa à porta da empresa já se mostrou um gigantesco desafio, eu tinha muita dificuldade de respirar, sentia como se alguém pisasse no meu peito, como se precisasse arrancar minhas costelas para aliviar a pressão. Antes que pensem que é exagero, estou sendo totalmente fiel às sensações que tinha.&lt;br /&gt;                Embora não pudesse fazer afirmações até aquele momento, eu sentia que algo não ia bem com meu coração. Uma vida sedentária somada ao histórico familiar, certamente boa coisa não podia ser. Saindo da empresa, segui de volta ao plantão, e foi no caminho que consegui falar com a minha mãe. Nos encontramos na sala de espera, onde eu já fazia esforço para respirar e o peito doía. Acabei sendo atendido com mais rapidez quando foi constatado que minha pressão estava baixa e a oxigenação entrava em níveis preocupantes.&lt;br /&gt;                Fiz um eletrocardiograma e fiquei esperando para fazer o raio x, o qual me fez ficar horas extras no plantão uma vez que o operador havia saído para o almoço. Nesse tempo o eletro havia sido avaliado pelo Instituto do Coração e voltou com resultados questionadores. O médico, então, viu que minhas unhas estavam roxas, indicando problemas na circulação, e pediu exames de sangue.&lt;br /&gt;                Às 16h do dia 13 de novembro de 2006 o médico plantonista solicitou uma ambulância para me transportar ao hospital. Eu ainda não fazia ideia do que estava acontecendo e só o que me disseram era que na minha situação não era seguro ser levado de carro ao hospital, e que lá seria imediatamente encaminhado ao Centro de Dor Torácica, considerada uma pré-UTI para problemas cardíacos.&lt;br /&gt;                Já no hospital, como eu tinha somente 24 anos, o primeiro médico a me atender mandou refazer os exames de sangue e começou a preparar minha alta. Ele estava do meu lado, prestes a me liberar quando os exames chegaram; lembro-me da sua feição de pânico, um dos meus exames estava com o resultado mais de cem vezes maior do que o índice máximo. Eu estava morrendo.&lt;br /&gt;                Às 23h fui levado ao centro de pequenos procedimentos para um cateterismo, um exame em que um cateter é inserido a partir de uma artéria (acho) da virilha e circula do corpo em busca de obstrução. Não havia nenhuma, o que imediatamente descartou um enfarto. Passei as 6h seguinte imóvel, com um peso sobre a virilha no lado direito para evitar hemorragia, e, terminado o prazo, fui encaminhado à UTI.&lt;br /&gt;                Foram dois dias de uma solidão avassaladora, eu podia receber visitas por meia hora de manhã e meia hora no final da tarde. Ao longo desse tempo todo eu permanecia sozinho, inseguro e apavorado. Eu não tinha medo de morrer, eu tinha medo de ser condenado a uma vida de privações, especialmente porque, descartado o infarto, não fazia a menor ideia do que estava acontecendo comigo.&lt;br /&gt;                Fui encaminhado ao quarto na quinta-feira e só então percebi como a minha situação era crítica, sair da cama para ir ao banheiro, há dois metros de distância, me obrigava a horas de repouso pelo cansaço que gerava. Ali meu estado de espírito afundou, eu me vi completamente privado de liberdade, de independência, e passei a temer verdadeiramente pelo meu futuro. E desejei, mais uma vez, estar morto.&lt;br /&gt;                11 dias e dezenas de exames depois, fui diagnosticado com miocardite, uma inflamação na parede do coração que gera um número absurdo de óbitos. É impossível dizer com certeza, mas a probabilidade é que o vírus contraído naquela gripe estranha de meses antes tenha se alojado no coração e gerado uma lesão sem volta. E potencialmente letal.&lt;br /&gt;                Para quem não conhece, miocardite é algo raro, mas que acontece em sua maioria em jovens na faixa dos 20 aos 30 anos, é facilmente confundida com dor muscular e, depois de um prazo de 2 a 3 dias, os sintomas acabam. Aí mora o perigo, porque as dores acabam, mas o coração começa um processo de crescimento que leva à morte por insuficiência cardio-respiratória em aproximadamente dois a três meses. Casos descobertos antes desse prazo podem ter três finais: total normalidade, necessidade de medicação para controlar o crescimento do coração ou necessidade de transplante.&lt;br /&gt;                A partir do meu problema, acabei descobrindo que muitos jovens, em especial atletas, que morrem misteriosamente, acaba-se constatando a miocardite em um processo de autópsia, o que abrange os casos chocantes de jogadores de futebol, por exemplo, que morrem durante os jogos, como andou acontecendo nos últimos anos.&lt;br /&gt;                Depois que saí do hospital, passei por duas semanas de repouso e alguns meses de readaptação à vida normal. O período de controle é de aproximadamente 2 anos, tendo se encerrado em novembro de 2008, quando me vi finalmente livre da medicação destinada ao coração. Sou considerado um caso de sucesso, levo uma vida totalmente normal, alheia aos problemas cardíacos embora esteja condenado a visitas periódicas ao cardiologista e uma vida de poucos abusos sob pena de retornar aos leitos hospitalares, como de fato aconteceu algumas vezes desde aqueles 11 dias.&lt;br /&gt;                Talvez você, caro leitor, esteja se questionando qual a relação entre a miocardite e à grande perda que sofri recentemente. Bom, a relação é simples. Escrevo num momento em que minhas lágrimas secaram de tanto deixá-las escapar, e até peço desculpas pelo excesso de sentimentalismo, mas perder um grande amor é deveras doloroso para que economize nas palavras sofridas e no drama empregado nessa história.&lt;br /&gt;                Como já disse, não sei como será o dia de amanhã, mas hoje, partindo da experiência de ter vivido um problema fisicamente cardíaco, e da dor que carrego pela perda, pelo abandono e pela total falta de vontade de seguir em frente, afirmo que a dor sentimental é muito mais torturante que a dor física. Não há no corpo ponto mais frágil do que a alma. E a minha alma hoje se encontra aos pedaços.&lt;br /&gt;                Eu sobrevivi a uma hemorragia interna na adolescência (história para outro conto), sobrevivi à pressão quase zero, sobrevivi a uma miocardite, mas questiono até que ponto serei capaz de sobreviver ao abandono. Não, não se preocupem, não planejo forçar minha saída desse mundo, e sei que tristeza não é doença terminal, mas é possível morrer por dentro, viver automaticamente, sem estar de fato vivo.&lt;br /&gt;                Minha vida hoje mais parece um imenso buraco negro de onde não tenho forças para sair. Sei que um dia hei de conseguir, mas não é de um dia para o outro que conseguirei juntar meus pedaços e me tornar um homem completo outra vez. Resta muito pouco a dizer por hora, talvez seja de fato o caso de encerrar com algo que não me pertence...&lt;br /&gt;                “Difícil não é lutar pelo que se quer, mas sim, desistir do que mais se ama. Eu desisti, não por não ter coragem de lutar, e sim por não ter mais condições de sofrer...” (anônimo)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                Meu doce e amado Ale, teu lugar no meu coração será para sempre teu. Quando quiseres voltar, estarei te esperando de braços abertos. Te amo, e sei que vou te amar para sempre, mais do que sou capaz de amar a mim mesmo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-590493454415960388?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/590493454415960388/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/10/perdido.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/590493454415960388'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/590493454415960388'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/10/perdido.html' title='Perdido'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-8277725616481906714</id><published>2009-10-09T11:58:00.000-03:00</published><updated>2009-10-09T11:59:43.087-03:00</updated><title type='text'>Mostra o ódio, mas não a cara. Assim é fácil.</title><content type='html'>É, aparentemente os comentários ainda vão me render alguns posts nesse blog. Bom, embora já tenha a brilhante defesa do meu amigo Rodrigo ao imbecil homofóbico que não teve sequer a decência de assinar seu comentário, resolvi fazer a minha parte também.&lt;br /&gt;                Fiz uma pesquisa completa sobre a homossexualidade na história e no reino animal, e o que eu encontrei deixaria o preconceituoso em questão de cabelos em pé. Mas em primeiro lugar, que fique claro que nem aqui nem em qualquer outro lugar, seja na minha vida virtual ou real, defendo o modo de vida homossexual como o ideal, minha função aqui não é tentar trazer mais gente ao lado homossexual, minha função é acabar com essa história de “lados”.&lt;br /&gt;                A única coisa que tento nesse espaço é a redução do preconceito, é tentar construir uma sociedade justa para TODOS independente de orientação sexual, raça, credo, classe social ou qualquer outra merda que gente mesquinha inventa pra se sentir superior. Pois então deixa eu te contar uma coisa: não, você não é melhor do que eu em absolutamente nada. O fato de você se relacionar com o sexo oposto não o torna apto a me julgar.&lt;br /&gt;                Aliás, se o assunto vai ser julgamento, que tal analisarmos os seus comentários? Pois bem, falaste da função do homem, de nascer, crescer, se reproduzir e morrer. E onde entra a porra da evolução? Então viemos ao mundo somente para contribuir para a superpopulação, gerando, por conseqüência mais fome, desigualdade social, destruição dos recursos naturais, para depois repousarmos felizes e faceiros ao lado de Deus?&lt;br /&gt;                Pois bem, se vieste ao mundo para ter filhos e acha que está fazendo grande coisa, seja feliz assim. Eu não, eu vim ao mundo para aprender, evoluir e fazer alguma diferença. E por diferença entenda obedecer a vontade de Deus com muito mais empenho do que qualquer fanático religioso que segue supostamente à risca todas as falsas lições que aprendeu na missa dominical.&lt;br /&gt;                Fique claro que não tenho absolutamente nada contra pessoas religiosas, eu tenho contra preconceituosos que se escondem atrás da religião para justificar a própria ignorância. Como é o caso do anônimo (mais um) que se deu o trabalho de tratar a mim e demais homossexuais como se fôssemos os responsáveis pelas desgraças do mundo. Pois então citemos exemplos interessantes ao nobre amigo:&lt;br /&gt;                George Bush é heterossexual, Alexandre Nardoni é heterossexual, José Sarney é heteressexual. Do outro lado: Leonardo DaVinci era homossexual, Michelângelo era homossexual, Shakespeare era homossexual (e Sócrates, e Platão, e no mínimo dois papas da igreja católica, e mais um monte de gente que certamente fez mais diferença para o mundo do que o comentarista anônimo jamais sonhou em fazer, até porque ele nasceu pra fazer filhos). E então? Será mesmo a homossexualidade o problema do mundo? NÃO! Ser homossexual é tão somente gostar de pessoas do mesmo sexo, não tem qualquer relação com caráter, com conduta!&lt;br /&gt;                Eu, homossexual, não inventaria motivos para guerrear, não mataria uma criança sangue do meu sangue (ou qualquer outra) nem enriqueceria com dinheiro público! Portanto, meu amigo, o problema do mundo está nas pessoas e suas atitudes individuais, o exemplo de conduta que dão, totalmente independente de orientação sexual. Nem todo heterossexual é mau-caráter, nem todo homossexual é um exemplo de comportamento, não confunda as coisas porque não é essa a minha defesa. Todos o que fazem algo de bom, e todos os que fazem coisas ruins, são seres humanos; com quem se relacionam é totalmente irrelevante.&lt;br /&gt;                Não, esse blog não tem o objetivo de incentivar o homossexualismo, são histórias, são contos de amor, de superação, envolvendo seres humanos, e todos aqueles despidos de preconceitos pequenos, baixos e mesquinhos, conseguiram enxergar isso. Me admira (ou não) que uma pessoa que cita a bíblia tenha a capacidade de vir aqui espalhar preconceito. Já ouviste falar em “Ame a teu próximo como a ti mesmo”? Em nenhum momento essa passagem faz ressalvas sobre quem é esse próximo, como “desde que ele se relacione com pessoas do sexo oposto”. Muito conveniente, amigo, citar a bíblia para defender seu ponto de vista sendo que na própria palavra de Deus, o preconceito é pecado.&lt;br /&gt;                Bom, vou tentar não criar ainda mais polêmica religiosa porque eu tenho a minha fé, e o meu Deus prega a bondade, a tolerância e a igualdade, foram esses os valores que aprendi, porque se Deus é amor, há algo errado com esse “Deus” excludente e preconceituoso que algumas pessoas idolatram.&lt;br /&gt;                Mas enfim, no passo seguinte: “defendem homossexualismo como uma coisa natural”. Natural bem de “natureza”. Eu não escolhi ser homossexual, eu nasci assim. Quando os meninos começavam a se interessar por meninas, eu me interessei por meninos, e com 6 ou 7 anos de idade, eu não tinha exatamente uma noção de sexualidade suficiente para optar conscientemente por gostar de outros meninos. Ser homossexual é da minha natureza, portanto, é natural. Tão natural que a homossexualidade foi comprovada em espécies animais, que agem por instinto, que escolhem parceiros de forma “não-sentimental”.&lt;br /&gt;                Estando a homossexualidade presente na natureza de diversas formas, como uma cabeça pensante, um ser supostamente racional como o “anônimo” alcança tamanha ignorância a ponto de afirmar que não é natural? Se somos todos filhos de Deus, se o próprio reino animal comprova que homossexualidade NÃO é uma escolha, ou seja, fomos criados assim (criados por Deus, fique claro), como podes afirmar que homossexualidade não é natural?         &lt;br /&gt;                Como já defendi no começo: nem todo mundo vem ao mundo fazer filhos, aliás, acho um objetivo de vida pequeno e conveniente, fazer um filho é a coisa mais fácil do mundo, complicado é torná-lo um bom cidadão, mas no “multiplicai-vos” da bíblia não fala nada sobre dar boas condições de vida ao filho, então façamos filhos, e mais filhos, e mais filhos, e justifiquemos com a suposta vontade de Deus! Além disso, é cientificamente comprovado, conforme citou meu amigo Rodrigo em resposta, toda vez que uma espécie animal começa a sair de controle, aumenta a população homossexual.&lt;br /&gt;                Considerando que os recursos naturais estão se esgotando, que uma parcela significativa da população vive abaixo da linha da miséria, que a degradação de valores está gerando uma desigualdade social como nunca antes vista, que a violência deixou de ser exclusiva do ambientes urbanos... acho bastante natural que esteja aumentando a população homossexual humana, talvez seja o jeito de Deus de dizer “por favor! Parem de se reproduzir tanto!”.&lt;br /&gt;                Mas como é mais conveniente compreender literalmente um livro publicado há dois milênios (quando a realidade era absurdamente diferente) e cuja publicação foi coordenada por um dos papas mais corruptos da história, ficam esses ignorantes espalhando destilando ódio e falando merda por aí.&lt;br /&gt;                E só para comprovar tamanha ignorância, disse o anônimo (que defendeu mas não assumiu sua posição) que esse blog e outros conteúdos virtuais fazem apologia à homossexualidade. Ok, eu mostro que não somos aberrações, nem demoníacos, nem criminosos, mas não tento convencer ninguém a ser também.&lt;br /&gt;                E apologia me parece um termo tão pesado... acredite, amigo, ninguém irá se tornar homossexual porque gostou de um dos meus contos, porque achou alguma história bonita, porque se emocionou com algo que eu disse. Ninguém vai ler os contos e decidir se atrair pelo mesmo sexo a partir daquele momento. Ninguém vira homossexual do nada, assim como é ilusão achar que alguém possa deixar de ser homossexual.&lt;br /&gt;                A pessoa não escolhe esse ou aquele caminho sobre sua sexualidade. Ela pode tão somente optar por assumir ou não o que ela é, mas ela não deixa de ser o que é por optar esconder isso do mundo. Não há ex-gay, há quem “voltou pro armário” por conveniência, pressão social ou coisa do tipo. Não há ex-hétero, há quem “dançou conforme a música” até assumir sua verdadeira orientação. E claro, não há cura pra homossexualidade, porque não é doença.&lt;br /&gt;                Talvez um dia eu coloque nesse espaço a pesquisa que fiz, da prática homossexual em povos que foram, antes de serem dizimados, muito mais civilizado do que somos hoje, é uma história interessante que não se aprende na escola, e aconselho para quem gosta de conhecimento, é bastante fácil de achar material rico sobre o assunto.&lt;br /&gt;                Ao comentarista anônimo, faço duas propostas: a primeira é que “mostre a cara”, tenha ao menos a dignidade de assinar seu nome; a segunda é que, usando argumentos que não beirem o absurdo, me prove que estou errado. Estou aberto à diálogos, já dei toda minha argumentação racionalmente e tenho muito mais a oferecer, mas primeiro quero saber se o amigo tem de fato algo que derrube minha argumentação que não seja baseada em seu próprio preconceito.&lt;br /&gt;                Também convido aos demais leitores que participem desse debate, acho deveras construtivo quando podemos trocar ideias e conhecer todos os lados de uma questão. Então que iniciemos um debate ao nível desse blog: sem baixarias, racionalmente e intelectualmente exemplar.&lt;br /&gt;                Encerrando esse post, peço desculpas aos meus leitores pelo segundo post consecutivo de resposta à comentários infelizes, estou trabalhando em novas histórias, mas considerei válido ingressar mais a fundo nessa polêmica, e aviso que estou aberto à sugestões de temas a serem tratados no futuro. Afinal, como disse no post anterior, esse não é um espaço homossexual, é um espaço humano, e como felizmente eu penso com a cabeça e não com os hormônios, qualquer ideia pode ser trazida, debatida e comentada aqui.&lt;br /&gt;                Que fique claro, esse blog não é meu, eu sou tão somente uma ferramenta. Esse espaço é nosso, do autor e seus leitores. Eu realmente nunca fui fã de monólogos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;p.s. não deu tempo de revisar, perdoem-me possíveis erros.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-8277725616481906714?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/8277725616481906714/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/10/mostra-o-odio-mas-nao-cara-assim-e.html#comment-form' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/8277725616481906714'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/8277725616481906714'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/10/mostra-o-odio-mas-nao-cara-assim-e.html' title='Mostra o ódio, mas não a cara. Assim é fácil.'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-1781502378484970081</id><published>2009-10-07T01:26:00.000-03:00</published><updated>2009-10-07T01:27:25.141-03:00</updated><title type='text'>Escritor mundialmente... desconhecido</title><content type='html'>Ok, ok. Eu nunca tive exatamente a pretensão de ser um escritor mundialmente reconhecido (mentira, já sonhei com isso sim!), mas quando assumi esse espaço, pensei num objetivo a longo prazo de mostrar aos meus leitores que os gays são pessoas totalmente normais que vivem seus momentos tristes e engraçados, que sonham, choram, se apaixonam e amam. Mas acima de tudo, aqui conto histórias de preconceito, amor e superação, histórias que poderiam ser vividas por qualquer pessoa.&lt;br /&gt;                Talvez aí habite a grande magia do cotidiano: a identificação. Assim como relato os fatos do ponto de vista de um homossexual, uma menina gordinha, um menino baixinho e tantos outros podem se ver na mesma situação. Por que não? Antes de serem fatos da minha vida, são fatos da vida de todo mundo. Ou seja, o fato de terem sido vividas por um homossexual não reduz em nada a possibilidade de ser vividas por héteros, homens e mulheres.&lt;br /&gt;                Então sou obrigado a ver uma crítica anônima que dizia que é muito fácil pegar fatos do cotidiano e entopir de drama pra “encher lingüiça”. Ok, minha defesa vai por partes. Em primeiro lugar, isso é um blog, e não uma biblioteca de clássicos, a minha literatura é fácil mesmo e não vejo nenhum motivo para obrigar meus leitores a ler o blog com o dicionário na mão. Segundo lugar: fatos do cotidiano... ah, esse vai ser divertido!&lt;br /&gt;                Eu não sou um elfo, um duende, um vampiro, um lobisomem, um bruxo nem nenhuma outra criatura mitológica para contar histórias que não sejam cotidianas! Aliás, vamos analisar o que “cotidiano” significa: dia a dia, rotina. Perfeito. Amigo crítico, se esperas histórias não cotidianas, aconselho que procures um blog de fanfics do Harry Potter! (e ainda assim vais encontrar cotidiano por lá também).&lt;br /&gt;                Continuando: histórias cheias de drama. Ok, concordo. Eu sou extremamente sentimental, o drama diz respeito à maneira como me senti em cada situação. Barbara Cartland ficou milionária com dramalhão. Algum problema? Tens o direito, nobre amigo, de não apreciar esse estilo, mas dizer que usei o drama para “encher linguiça” me deixa apto a considerar que sua leitura foi extremamente superficial. São contos. Já fui premiado por um conto de meia página, eu realmente não preciso enrolar meu leitor.&lt;br /&gt;                Ah, sim, teve outra coisa interessante: tentativa de parecer real. Foi isso mesmo, não foi? Confesso que li duas vezes a crítica com a legítima cara de “WTF?”, mas não lembro das palavras exatas. Mas nesse ponto é que achei engraçado, porque deixei claro que há ficção e há realidade. Posso garantir que todos os sentimentos relatados são reais, que alguns fatos não aconteceram da maneira exata que descrevi, mas aconteceram. Então não me sinto na obrigação de fazer grandes esforços para parecer real; quem efetivamente já passou por situações parecidas com certeza sentiu a veracidade dos sentimentos.&lt;br /&gt;                Também comentaste que somente um gay e uma lésbica sabem de verdade como é viver certos fatos. Bom, acho que parte desse absurdo nem preciso comentar (Erich + Alexandre = romance gay...), mas o resto, posso te garantir, amigo, que não são somente os homossexuais que sofrem discriminação. Talvez de fato sofremos mais do que outros grupos marginalizados, embora eu, pessoalmente, tenha absoluto pavor de me colocar no papel de vítima. Já recebi comentários de pessoas com outras características (como citei a menina gorda) dizendo que, mesmo sendo hétero, se identificou com as histórias por ter vivenciado situações parecidas. E então? Ela está mentindo (ela e outros que fizeram comentários parecidos) ou não é preciso ser obrigatoriamente gay para passar por isso?&lt;br /&gt;                Por isso reforço outra vez: eu aqui falo de preconceito, amor e superação, relato a minha realidade enquanto homossexual mas não restrinjo à mim. Existe tanta gente por aí que precisa saber que existe luz no fim do túnel! Eu não achei a minha, mas sei que estou no caminho, e se eu tiver a oportunidade de entreter e passar uma mensagem positiva para qualquer tipo de pessoa, homo ou hétero, terei feito muito mais do que muita gente contra o preconceito que nos atinge.&lt;br /&gt;                Bom, se o nobre colega crítico, ao sugerir que não há veracidade ou da banalidade dos fatos cotidiano, afirma-se alguém... diferente, não há de fato nada que eu possa fazer. Eu não sou, ou pelo menos não acho que minha orientação sexual me torne tão diferente dos demais. Como disse, tenho minha rotina, trabalho, já estudei muito, parei ao fim da pós-graduação, pago meus impostos, sofro, me alegro, me apaixono, namoro... alguém mais se identifica com isso? Enfim, se lutamos contra o preconceito, o primeiro passo é parar de nos julgarmos quase extraterrestres! Ironias à parte, continuo o feliz proprietário de dois olhos, um nariz, uma boca com 32 dentes muito bem cuidados, duas orelhas e pela graça de Deus, muito cabelo!&lt;br /&gt;                 Enfim, também me obriguei a achar graça quando meu estilo foi considerado “hétero feminino”. De fato, não há nada de errado com isso, tenho mesmo uma amiga que me considera uma adolescente apaixonada, e eu confesso que acho isso um mimo. Não me ofende em absoluto o gênero, Nora Roberts, J.K Rowling, Danielle Steel e tantas outras são mulheres heterossexuais e absolutamente fantásticas! Melhor elas do que ser comparado ao bissexual Paulo Coelho, não acham?               &lt;br /&gt;                Acontece que vejo ironia nesse ponto. Na minha época pelo menos não havia língua portuguesa para veados na minha escola. Também não achei em lugar nenhum um livro “Guia Prático de Escrita Homossexual”. Considerando que escrevo com meu cérebro, meu coração e minhas duas mãos (em especial a esquerda por ser canhoto), e não com meus testículos homossexuais ou hormônios masculinos, acho curioso que meu estilo possa ser julgado por meu gênero e orientação sexual. Então cuidem-se escritores que ainda não saíram do armário, vocês podem ser descobertos através da sua literatura!&lt;br /&gt;                Ah, sim, importante isso. Esses contos são literatura, não biografia. Além disso primeiro fui criticado por usar fatos cotidianos depois criticado por falta de veracidade. E então, o que eu escrevo é comum ou é absurdo demais? Da mesma forma, não quero restringir meu público para somente homossexuais ou somente heterossexuais. Na minha humilde opinião os únicos livros que podem ser exclusivos de um público são: Kama Sutra para Gays e Kama Sutra para Lésbicas. E nem assim, conheço várias mulheres e homens héteros com tara por sexo gay.&lt;br /&gt;                Bom, algo que concordo com o crítico, tenho mesmo muito o que melhorar. Como todo ser humano, estou estratosfericamente longe da perfeição. Mas acho que 24 anos de estrada na literatura me ensinaram alguma coisa. Será que não? Eu lamento que o amigo tenha dado opiniões tão contundentes sem assinar seu nome, estou deveras curioso por conhecer seu trabalho e comprovar o quanto estou abaixo de você.&lt;br /&gt;                Mas então, depois de dar a minha opinião sobre as críticas recebidas, aproveito o espaço para agradecer os elogios, que são a imensa maioria. E sem dúvida, aprecio críticas, desde que construtivas. Vou tirar o que de bom possa ter a opinião do amigo anônimo, e vou seguir meu caminho rumo à perfeição absoluta (espero que tenhas pego a ironia aqui).&lt;br /&gt;                Desabafo feito, bom momento para uma historinha. Totalmente real dessa vez, prometo. Desde muito jovem demonstrei interesse pelas artes. Nem meus primeiros desenhos eram rabiscos, e poucas vezes na vida desenhei bonecos-palito. Aos 3 anos de idade, fã da Turma da Mônica, comecei a desenhar histórias em quadrinho; jovem demais para escrever, ditava para minha mãe os diálogos dos personagens. Foi assim que minha história na literatura começou.&lt;br /&gt;                Na pré-escola eu era extremamente descoordenado e tinha sérias dificuldades para usar uma tesoura. Na época não se dava tanta atenção a isso, por isso pouca gente percebeu que eu não tinha problemas neurológicos, eu só era canhoto! Minha falta de aptidão para atividades físicas também chamou a atenção e minhas espertas professoras alertaram meus pais que eu teria sérios problemas de aprendizado porque eu não conseguia me manter em pé sobre um muro de 10cm de largura.&lt;br /&gt;                Perfeito, pânico instaurado, fiz todo o tipo de exame, fui levado à capital e à vários especialistas a fim de evitar que eu me tornasse um verdadeiro retardado. Ao chegar na escola, ainda havia um temor dos meus pais sobre meu cruel destino como um garoto com pouca capacidade mental (!). Mas a estupidez das professoras foi comprovada logo no começo da minha alfabetização. Sim, eu me destaquei pela facilidade de aprendizagem. Engraçado isso.&lt;br /&gt;                Naquelas férias de verão, quando tinha 7 anos e meio, esbocei meu primeiro romance. Não o terminei, mas cheguei bem perto disso. Chamava-se “Amor Eterno” e falava de um jovem casal separado, ambos viveram infelizes até o reencontro. Se acham que hoje sou dramático, de fato não fazem ideia do que foi essa história! Eu já dizia na época que queria ser escritor, mas claro que ninguém levava muito a sério uma criança que tinha acabado de largar o bico!&lt;br /&gt;                Continuei por um bom tempo com minhas histórias em quadrinhos, mas pouco a pouco eu perdia o interesse pelo desenho e adentrava mais ainda nos pequenos contos e constantes tentativas de escrever um romance decente. Aos 10 anos, em junho de 1993, pouquinho antes dos 11 anos, escrevi minha primeira poesia. Bobinha, claro, mas nada de versinhos inocentes, jamais escrevi poesias sobre cachorrinhos, patinhos, gatinhos ou qualquer “inho” que se possa imaginar.&lt;br /&gt;                Até pela minha experiência de discriminação desde cedo, da certeza de ser diferente dos demais, desde novinho meus textos já eram repletos de drama, falando de solidão, tristeza, escuridão, desilusão e outros temas que poderiam ter deixado qualquer um de cabelo em pé por vir de uma criança. Lembro-me quando montei meu primeiro livro de poesias, aos 12 anos, e uma amiga da minha avó me acusou de plágio porque uma criança dificilmente escreveria sobre temas tão pesados. Todos esperavam versinhos meigos que nunca vieram.&lt;br /&gt;                Alguns anos depois foi meu pai que fez a mesma acusação de plágio. Mas enfim. Aos 11 anos, em 1994, aproveitando um trabalho escolar, finalizei meu primeiro romance. Uma história policial chamada “A Vingança”. Lembro do orgulho da minha mãe quando mandamos datilografar (não, não existia computador pessoal na época) e depois encadernamos com o título gravado em dourado sobre o couro azul. Ok, confesso, a história estava longe de ser algo do qual poderia me orgulhar hoje em dia, já adianto que somente um personagem sobrevive e a história tem alguns erros “de continuidade”, além de um vocabulário bem fraquinho, mas, com 11 anos não dá pra esperar uma obra digna de prêmio Nobel!&lt;br /&gt;                Depois do meu querido “A Vingança” lutei feito um louco para escrever o meu sonhado romance adulto. Nesse meio tempo segui me dedicando à poesia, tendo escrito mais de duas mil, das quais a imensa maioria terminou na churrasqueira quando a frustração batia forte. Sobreviveram pouco mais de 100 ao meu ímpeto destruidor.&lt;br /&gt;                Ainda com o romance em mente, comecei a me dedicar com mais vontade aos contos, sempre na esperança que algum me rendesse mais do que poucas páginas. Bom, não aconteceu naquela época. Aliás, por muito tempo o fato de eu ser capaz de escrever poesia durante uma aula de química foi visto como uma espécie de distúrbio mental pelos colegas, e perdi a conta de quantas vezes fui mando à psicóloga da escola pelos colegas supostamente preocupados com a minha sanidade.&lt;br /&gt;                Em 2002, me encaminhando para o final de curso da faculdade, tive uma ideia que poderia, enfim render meu tão sonhado romance. Pra minha frustração, o meu professor favorito da época descobriu o grande segredo do livro ainda no terceiro capítulo. Não foi bem essa a razão, mas o fato é que escrevi 120 páginas e guardei na gaveta. Nunca mais tentei terminar, mas a ideia ainda me assombra, um dia termino.&lt;br /&gt;                Em 2006 fui premiado pela primeira vez em um concurso de destaque com um conto bem baixo-astral, e, em 2007, logo no começo do ano, por algum motivo me baixou o santo e eu finalmente escrevi de fato meu primeiro romance. Inteirinho! Finalizado! Em apenas 3 semanas. Virou meu “filho” e meses depois viajei para entregar em editoras. Entreguei em 3, recebi um não, um sim e um... nada, até hoje. A que aprovou o livro precisava que eu bancasse metade da publicação, então comecei a construir uma proposta comercial para conseguir patrocínios. Consegui depoimentos de pessoas importantes, consegui possíveis patrocinadores, a única coisa que não consegui foi um retorno da editora. Eles simplesmente nunca mais deram sinal. E isso foi em janeiro de 2008.&lt;br /&gt;                Com esses fatos eu me decepcionei e desisti. Até que no começo de 2009 resolvi revisar o livro, acabei ampliando-o em mais de 100 páginas e a história ficou claramente melhor. Fiz capa, transformei em um livro de verdade. E parei. Levei em uma editora somente, que não aprovou e devolveu o exemplar. A ironia é que exemplar não foi aberto. Ninguém leu. Na verdade até hoje ninguém leu a nova versão, que aliás, somente um amigo teve acesso.&lt;br /&gt;                Ainda em 2008 comecei a trabalhar no meu segundo romance (bom, seria o quinto considerando o dos 7 anos, o dos 11 e o que eu não terminei). Ao chegar na página 108 eu, inexplicavelmente, parei. E há duas semanas perdi para sempre o arquivo.&lt;br /&gt;                É, são de fato 24 anos dedicados à literatura. Nenhum grande êxito exceto o conto premiado. Mas literatura não é um mercado fácil de se abrir portas. Especialmente para um ilustre desconhecido de classe média: não tenho dinheiro para pagar, não sou pobre o bastante para entrar em projetos sociais e não sou famoso para ter fila de editora pra publicar qualquer merda que eu escrever.&lt;br /&gt;                Já perdi a conta de quantas vezes anunciei minha aposentadoria precoce, quantas vezes estive realmente disposto a parar de escrever para sempre. Até hoje não tive sucesso nem nisso, porque escrever, infelizmente, é a única coisa decente que eu sei fazer.&lt;br /&gt;                Um dia eu consigo. Ou alcançar os céus da glória, ou me afundar no inferno da desistência. O que cansa é viver constantemente no meio termo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-1781502378484970081?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/1781502378484970081/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/10/escritor-mundialmente-desconhecido.html#comment-form' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/1781502378484970081'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/1781502378484970081'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/10/escritor-mundialmente-desconhecido.html' title='Escritor mundialmente... desconhecido'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-413370910704046922</id><published>2009-10-04T02:29:00.000-03:00</published><updated>2009-10-04T02:30:41.974-03:00</updated><title type='text'>Sob a lua cheia</title><content type='html'>Quando você ouve um “eu te amo” na voz de alguém realmente importante, o seu mundo para. Aquele momento congela e você sabe que vai lembrar disso para o resto de sua vida. Você fecha os olhos e revive, revive quantas vezes a sua memória permitir. Melhor ainda se a memória for constantemente reforçada por novos momentos assim. A gente ganha um repertório delicioso de boas recordações.&lt;br /&gt;                Naquele dia que o Ale foi na minha casa pra me dizer que havia finalmente aceitado sua condição homossexual, eu juro que me senti flutuar. É indescritível o quanto é mágico descobrir que seu amor é correspondido.&lt;br /&gt;                Nessa época eu estava totalmente recuperado dos problemas de sete anos antes. Nunca mais tentei nada contra mim mesmo, mas eu não poderia ser considerado um homem feliz. Eu ainda estava sozinho e, como sempre, perdidamente apaixonado. Ao longo de todos aqueles anos vivi outras aventuras, experimentei outras paixões, mas os cabelos cor de fogo nunca saíram da minha memória.&lt;br /&gt;                Eu estava sentado em minha cama, lendo, quando minha irmã chamou meu nome. Eu sabia que alguém havia batido à porta, mas eu já não esperava ninguém, eu praticamente não esperava mais nada. Sem um pingo de vontade, fechei o livro e saí do quarto, com uma calça surrada, chinelos e uma camiseta velha. A minha aparência não podia estar pior. Mas quando o vi parado na porta, esqueci a minha aparência. Quando o vi sorrindo, esqueci da vida, do mundo, das lágrimas do passado. Eu não tinha como saber o que aquele sorriso significava, mas vê-lo sorrindo já era a melhor coisa que podia me acontecer até então.&lt;br /&gt;                Ele me beijou. Eu senti o coração dele depositado em sua boca. Era o beijo mais doce, puro, honesto e apaixonado que jamais experimentara. Ele assumiu, ele finalmente entendeu que não podia mais fugir da nossa história, que estava há tanto tempo suspensa no ar esperando o ator principal. E ele parecia mesmo um galã de cinema, com seu sorriso perfeito, com seu jeito de menino e seus lábios dignos de um comercial de televisão.&lt;br /&gt;                Eu ouvi dele as três palavras mais incríveis que podia ouvir. É impressionante como elas fazem a diferença da vida de alguém quando ditas com o coração. Ele me ama! Eu vibrava por dentro, não podia imaginar nada de melhor na minha vida do que aqueles poucos segundos que durou a frase mais importante de todos os tempos: “eu te amo”. Queria ser capaz de descrever o que senti naquele momento, quando eu, de olhos fechados, senti seu toque, seu gosto, e ouvi. Mas não existem palavras pra isso, amor não se descreve, amor se vive. E se vive intensamente.&lt;br /&gt;                Ele em geral é mais fechado, não costuma se abrir com ninguém, sabe a hora certa de dar suas opiniões e a hora de calar; sabe a hora de se expor e de desaparecer. E eu invejo isso nele, dá um ar de maturidade que eu me vejo incapaz de alcançar. Mas ele disse que me ama, faço alguma ideia do quanto foi difícil para ele fazer algo tão definitivo. Ele não gosta de coisas definitivas, e palavras ditas não voltam mais, não há como apagar ou disfarçar. Não comigo, pelo menos, eu sou totalmente incompetente na arte de esquecer aquilo que considero relevante. E aquele momento não era apenas relevante, era certamente o momento mais incrível de todos até ali.&lt;br /&gt;                Minutos depois, quando finalmente conseguir retornar das nuvens e formular uma frase com sentido, levei-o ao meu quarto. Não pense bobagens, naquele momento a ideia era conversar, eu queria entender melhor o que acontecia com ele, o que aconteceria com a gente. Sentados na cama, de mãos dadas, ele me contou.&lt;br /&gt;                - Eu não sei dizer ao certo o que aconteceu, Erich, só sei que depois daquele dia eu nunca mais consegui reparar em uma mulher. Bom, sendo bem franco, nem antes. Eu ficava com as meninas, transei com algumas, mas sempre foi algo tão... vazio! E então a gente... bom, eu te confesso que não foi uma experiência boa, eu ainda não sei como deixei aquilo acontecer, naquela época eu não cogitava nada disso. Mas aí você tentou se matar e partiu meu coração de uma maneira que eu não imaginava que poderia acontecer comigo.&lt;br /&gt;                Eu pude ver sua expressão de dor lembrando o episódio. Seria para sempre uma espécie de marca, de cicatriz, afinal, eu já quis morrer por ele. Na verdade ainda morreria por ele, mas em outro tipo de situação. Simplesmente porque eu sempre soube que não suportaria viver em um planeta onde não houvesse o Alexandre.&lt;br /&gt;                - Mas enfim, eu fiquei com aquilo na cabeça, e fui trabalhando isso ao longo dos anos, sem conseguir me envolver com nenhuma outra mulher. Até o dia que beijei outro homem.&lt;br /&gt;                Meu coração quase pulou para fora da boca. Ele havia beijado outro homem! Fiz o que pude para disfarçar a frustração, eu não podia condená-lo por isso, ele não poderia vir correndo para os meus braços antes de entender bem o que estava acontecendo em seu coração.&lt;br /&gt;                - Ali eu entendi que não tinha mais volta. Que durante toda minha vida eu tentei me enganar, acho que tentando não decepcionar meus pais, não sei, mas eu cheguei em um momento que mentir para mim mesmo não funciona mais. E ontem eu te vi na rua. Você não me viu, mas fiquei um tempo olhando para você de longe, eu não conseguia parar de olhar, de reparar como você é bonito, é especial. Eu soube, naquele momento, que se minha vida não pudesse ser ao seu lado, eu estaria condenado à solidão.&lt;br /&gt;                Eu não o deixei continuar, não deveriam mais haver palavras, era um momento em que só gestos poderiam traduzir sentimentos. Passei a mão em seu rosto e beijei seus lábios com muita suavidade, enquanto minhas mãos passeavam pelos seus cabelos. Ele não se moveu, somente fechou os olhos e viveu o momento. Ficamos assim, em silêncio trocando suaves carinhos por um tempo que nem pude calcular, só sei que em certo momento ouvi a porta se fechando, meus pais haviam acabado de chegar.&lt;br /&gt;                Sorrimos, e assim, ainda em silêncio, o puxei pela mão e segui para a sala, onde estavam meus pais e uma das minhas irmãs. Minha mãe entendeu imediatamente o que estava acontecendo, mas meu pai não.&lt;br /&gt;                - Oi, Alexandre! Que surpresa! Como vão seus pais? – Falou meu pai com algum entusiasmo, nem deixei que o Ale respondesse.&lt;br /&gt;                - Pai, mãe, mana, quero apresentar a vocês o meu namorado.&lt;br /&gt;                Minha irmã abriu um sorriso enorme, minha mãe tentou demonstrar alguma alegria, e meu pai nos olhou que se fôssemos dois moleques que haviam acabado de quebrar um vaso de cristal com a bola de futebol. Tive a nítida sensação de que ele podia pegar um chinelo a qualquer momento para nos “dar uma lição”.&lt;br /&gt;                - O que seus pais pensam disso? – Falou ele depois de um tempo em silêncio, olhando somente para o Ale.&lt;br /&gt;                - Provavelmente o mesmo que o senhor. – Falou Ale com uma tranqüilidade surpreendente. Do jeito fechado dele, nunca pensei que conseguiria se dirigir ao meu pai com tanta serenidade depois de assumir namoro com o filho dele. Meu pai não insistiu, não perguntou mais e não falou nada por dias. Podia ter sido pior.&lt;br /&gt;                Ficamos na sala somente eu, o Ale, minha mãe e minha irmã, minha outra irmã ficou sabendo pouco depois, já não vivia conosco nessa época. Minha mãe estava claramente desconfortável, mas tentava disfarçar, fazia o que podia para agir com naturalidade diante do namorado de seu único filho homem. Minha irmã, ao contrário, estava entusiasmadíssima com o cunhado. Não ficamos mais sozinhos naquele dia, ele teve que ir embora antes de provocar problemas em casa. Eu aceitei, mas confesso que não dormi naquela noite pela ansiedade de estar com ele outra vez.&lt;br /&gt;                E chegou o dia seguinte. Na verdade os primeiros dias do nosso namoro foram perfeitos para esquecer. Parecíamos dois pré-adolescentes, corávamos em tocar na mão do outro, era um clima muito desagradável, quase não nos beijávamos e conversávamos pouco. Quando completávamos quase uma semana eu decidi mudar a situação.&lt;br /&gt;                - Ale, somos namorados, não somos? – Ele acenou com a cabeça, mas não respondeu. – Então quem sabe a gente para de frescura e começa a agir como um casal?&lt;br /&gt;                - Como assim? – Perguntou ele, sentado em minha cama.&lt;br /&gt;                - Assim... – Segurei seu rosto com as minhas mãos e o beijei, com força, com vontade, com paixão. Ele se entregou ao beijo e, em segundos, eu estava deitado sobre seu corpo, acariciando suas pernas que me envolviam como se não quisessem que o momento acabasse. Fui beijando seu rosto, seu pescoço e chegando ao seu peito ainda coberto pela camisa. Devagar abri o primeiro botão. Ele mantinha os olhos fechados aproveitando cada momento, até que me interrompeu, empurrando-me e voltando a sentar na cama.&lt;br /&gt;                - Erich, não. Assim não... – ele arfava, claramente sem fôlego.&lt;br /&gt;                - O que foi? – Eu sentia meu coração bater mais forte, temendo que ele fraquejasse nas antigas certezas, temendo que nossa felicidade estivesse com os dias contados.&lt;br /&gt;                - Não se preocupe, não é com você, mas eu gostaria de planejar melhor esse momento, entende?&lt;br /&gt;                - Claro, não tem problema, mas... o que você tem em mente? – Ele estava de costas para mim, virando-se com imenso e lindo sorriso no rosto depois da minha pergunta.&lt;br /&gt;                - Bom... não tenho nada específico em mente, mas estava pensando... podíamos viajar juntos, né? Um fim de semana, só nosso!&lt;br /&gt;                Fui pego de surpresa com o repentino entusiasmo dele. Para mim a ideia da viagem soava perfeita, com certeza viveríamos de tudo nesse final de semana, sem preocupações, somente nós dois. Concordei na hora e começamos a planejar. Com o telefone na mão, o Ale conseguiu um apartamento no litoral emprestado, era do primo dele, e ficava de frente para o mar. Pela época do ano certamente não haveria grande movimento, ficaríamos praticamente sozinhos na redondeza.&lt;br /&gt;                Nos vimos pouco nos dias que antecederam a viagem. Nossos pais, como era de se imaginar, foram contra, mas não deixaríamos nada atrapalhar nossos planos. No dia combinado, o Ale passou na minha casa e seguimos pela estrada rumo ao final de semana perfeito. Tínhamos tudo o que precisávamos: algumas roupas, champanhe, telefone de tele-entrega de pizza, DVD’s e claro, uma boa dose de proteção.&lt;br /&gt;                Chegamos cedo ao destino, largamos as malas no apartamento e saímos para passear. Horas de caminhada por uma cidade quase deserta, muita conversa, muitos fatos inusitados e chegamos ao apartamento suficientemente exaustos para literalmente dormirmos juntos.&lt;br /&gt;                Na manhã seguinte fui acordado com música. Ele estava alegre, cantarolava enquanto preparava um drink para nós. E dançava de um jeito engraçado. Fiquei maravilhando olhando para ele enquanto seus cabelos se moviam como se tivessem vida própria. Eu ria enquanto ele me fazia caretas. Parecíamos duas crianças fazendo guerra de travesseiros, jogando roupas um no outro e correndo pelo apartamento. Foi a manhã mais feliz de que tenho lembrança.&lt;br /&gt;                À tarde passeamos outra vez, mas voltamos mais cedo ao apartamento, tínhamos filmes a assistir e uma noite quente e de lua cheia pela frente. Conforme foi anoitecendo, foi fácil perceber um clima de “o que eu faço agora” entre nós. Com o céu avermelhado, tirei o filme que nenhum dos dois prestava atenção e nos servi champanhe. Com uma música suave de fundo, brindamos sentados na cama, olhando fixamente um para o outro.&lt;br /&gt;                Não havíamos terminado as taças ainda, mas eu precisava aproveitar a coragem e a vontade que se apossavam de mim. Observar os traços do seu rosto, sua expressão, seu sorriso, sua beleza única, estava me deixando louco, não poderia esperar mais. Peguei as taças e coloquei na mesa de cabeceira. Ele não se moveu, embora eu quase fosse capaz de ouvir seu coração batendo forte. Eu ouvia ainda o barulho do mar e as súplicas da minha alma para tomá-lo para mim, para fazê-lo feliz. Eu o queria mais do que nunca, eu o queria para sempre.&lt;br /&gt;                Me aproximei dele e o beijei, como fizera pouco tempo antes, no meu quarto. Ele correspondeu dessa vez, me abraçando forte, enquanto suas mãos bagunçavam meus cabelos naturalmente rebeldes. Ele também queria, estava claro para mim pela maneira como suas mãos me apertavam. E foi ele quem tomou a primeira iniciativa, puxando minha camiseta, gentilmente embora eu fosse capaz de sentir a ansiedade na parte dos seus dedos que tocavam minha pele.&lt;br /&gt;                Fiz o mesmo com ele, puxando a camiseta, e depois, beijando-o a boca, o rosto, o pescoço, o peito, e me coloquei sobre ele. O tempo parou ali, não havia mais mundo ao nosso redor, somente duas pessoas apaixonadas, independente de gêneros. Coração não tem sexo, amor não escolhe por partes íntimas. E ali havia amor, puro e verdadeiro.&lt;br /&gt;                Não tardou para virássemos um só (protegidos, que fique claro), eu beijava suas costas e cheirava seus cabelos, e ele parecia querer me puxar, me ter mais perto, me tornar mais parte de si mesmo. Eu o fazia carinho, procurava ser o mais gentil que pudesse, não queria que o momento dele fosse menos perfeito do que era pra mim. E era mesmo perfeito.&lt;br /&gt;                A cada movimento, a cada toque, uma onda de prazer e paixão nos invadia. Não pude ver seu rosto todo o tempo, mas percebia pelas reações do seu corpo que estávamos compartilhando o que havia de mais precioso: nós mesmos. Sentia o arrepio na pele, o suor que se misturava com a adrenalina de viver algo tão intenso. Eu o possuía, não poderia haver sensação melhor nesse mundo. Quando nos dividimos outra vez, sabíamos que aquele momento ficaria marcado para sempre, aquela seria nossa verdadeira primeira vez, nossa primeira noite de amor.&lt;br /&gt;                Cansados, mas felizes como nunca, nos deitamos um de frente para o outro, abraçados, sorrindo, trocando confidências e juras de amor silenciosas. Ali não cabiam palavras, o sentimento ocupava todo o espaço em nossas almas. E assim, lentamente adormecemos, envoltos na certeza de que a vida nunca mais seria a mesma. Éramos um do outro e nada nem ninguém seria capaz de mudar isso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-413370910704046922?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/413370910704046922/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/10/sob-lua-cheia.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/413370910704046922'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/413370910704046922'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/10/sob-lua-cheia.html' title='Sob a lua cheia'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-1713356222600633596</id><published>2009-09-30T22:20:00.000-03:00</published><updated>2009-09-30T22:22:02.081-03:00</updated><title type='text'>Estupidez, insensatez e um coração partido</title><content type='html'>Recordar aquela manhã é tão doloroso quanto cravar uma adaga no peito, mas não se tem como fugir dos fatos a vida toda. Ainda lembro do cheiro dos lençóis com o perfume habitual que ele usava. As taças de vinho da noite anterior vazias na cabeceira da cama. Não vou dizer que a noite havia sido e melhor experiência de todas, nenhum dos dois sabia bem ao certo o que fazer, mas estávamos tão entregues que aquilo nem fez diferença.&lt;br /&gt;                Passei a mão pela cama e notei imediatamente a ausência dele. Abri os olhos temendo que tivesse sido somente um sonho. Não, não fora somente um sonho, mas eu estava prestes a entrar em um pesadelo. Olhei ao redor, tentando me acostumar com a claridade, embora as janelas ainda estivessem fechadas. Um feixe de luz iluminava uma parte do seu rosto, seus olhos estavam vermelhos, estivera chorando.&lt;br /&gt;                Eu ainda tentava me concentrar nos beijos, nos carinhos, em toda aquela demonstração de amor que havíamos vivido na noite anterior quando a realidade acertou em cheio o meu coração. Ele não me olhava, estava encolhido da cadeira como se quisesse se defender de mim a cada palavra que dizia, do que não podia ter acontecido, de sua certeza tão frágil de que não era igual a mim. E o momento em que me mandou ir embora.&lt;br /&gt;                Levantei-me da cama, ainda nu, percebendo que isso o incomodava mais do que devia pelos momentos vividos, e recolhi as roupas que foram jogadas nos caminho, provando que havíamos nos entregado com paixão, não havíamos planejado nada daquilo, isso devia ser o suficiente para provar que os sentimentos eram reais.&lt;br /&gt;                Enquanto recolhia, vestia peça por peça sentindo meu coração despedaçar. Na última, estava ao seu lado, enquanto ele permanecia de costas para mim. Toquei seu cabelo, e ele, na maior velocidade que pôde, desviou-se de meu carinho. Eu fui embora, deixando com ele um pedaço de mim, e eu soube no instante em que alcancei a rua, que aquele pedaço jamais seria meu de volta, mesmo que ele voltasse para mim.&lt;br /&gt;                Uma ferida aberta pode cicatrizar, mas deixar uma marca que nos acompanha para o resto da vida. Eu tinha uma ferida que certamente demoraria para cicatrizar, se fosse capaz de se fechar um dia. Eu o amava mais do que podia suportar. E a dor que eu sentia era certamente a mais insuportável que se pode ter na vida.&lt;br /&gt;                Fiquei apático, deixei de acreditar no quanto poderia ser amado um dia. Não era a primeira vez que me sentia indigno de viver, mas agora eu tinha certeza. O mundo tornou-se subitamente preto e branco, aquele era definitivamente um bom momento para deixar de viver.&lt;br /&gt;                Fui andando pelas ruas, encontrando um desprezo imaginário da parte de todos que passavam por mim. Eu era nada mais do que um pobre coitado com o coração partido. E chorei, chorei por horas, por dias, e cada lágrima parecia ácido escorrendo pelas minhas faces. Eu pensava mil e uma maneiras de desaparecer, sempre tendo a certeza de que ninguém notaria se eu simplesmente sumisse.&lt;br /&gt;                Algumas pessoas tentavam me ajudar, me estendiam a mão para me tirar do buraco onde eu me via preso, o buraco da desilusão e do sofrimento, mas a única mão que eu puxaria não estava estendida para mim. Não me interessava mais se haviam pessoas que se importavam comigo, ele não estava lá, já era o suficiente para que eu me sentisse a pessoa mais sozinha e desprezada do mundo.&lt;br /&gt;                No dia que completou uma semana daquela noite, eu me vi sozinho em casa. Tentei ligar para ele, mas ele não atendeu. Eu nem sabia ao certo o que poderia dizer, eu queria falar como eu me sentia, mas sabia que começaria a chorar e isso doeria nele também. Suportar a minha dor já era difícil, fazê-lo sofrer ultrapassaria do meu limite.&lt;br /&gt;                Olhava pela janela com os olhos inchados, pesados pela semana que havia enfrentado. Toda noite dormia de tanto chorar, tinha pesadelos que o via ferido, o via me implorando socorro e eu simplesmente não podia fazer nada. E todos os dias eu buscava meios de revê-lo, de falar com ele, mas ele permanecia incomunicável. Ele sofria, talvez mais do que eu, porque nossa noite de amor se converteu em nosso martírio, e ele ainda tinha que conviver com a vergonha por ter vivido algo inadmissível para um homem que não se aceita.&lt;br /&gt;                Ele certamente se sentia humilhado, devia estar me odiando, culpando-me pelo seu suposto erro, sentindo-se sujo e ao mesmo tempo culpado por me odiar. E não tinha nada que eu pudesse fazer, absolutamente nada. Eu me sentia um inútil, eu daria minha vida pela dele, mas estava ali, chorando, me lamentando enquanto ele sofria também.&lt;br /&gt;                E foi no vazio da solidão, da culpa e da falta de perspectiva de ser feliz outra vez que tomei a minha decisão: era hora de desistir, era hora de libertá-lo de mim. Ele merecia ser livre e feliz novamente, mas para isso eu deveria deixar de existir. O sentimento que tomou conta de mim me fez perceber que não existe nenhum tipo de sensatez em querer tirar a própria vida. Por mais que fosse uma pessoa inteligente e instruída, aquele vácuo que me invadia me cegava, me impedia de pensar racionalmente. E esses momentos são perigosos, porque podem ser definitivos.&lt;br /&gt;                O único pensamento racional que tive foi sobre o que fazer para aliviar a dor; eu me julgava um altruísta por abrir mão da minha existência em nome da falsa libertação do meu amor, em nome da ilusão que morrer resolveria algum problema. Ninguém nessa situação se percebe egoísta, embora tirar a própria vida seja a maior prova de egoísmo e covardia que uma pessoa possa demonstrar aos que se importam. Nessas horas a gente esquece quantas pessoas poderão sofrer com uma decisão dessas, nessas horas a gente esquece que a certeza de que não faremos falta é apenas mais uma das ilusões alimentadas por um coração ferido. E naquela hora a minha decisão estava tomada.&lt;br /&gt;                Minha irmã mais velha trabalha na área da saúde e, nessa época, ainda vivia conosco, deixando as amostras ganhas dos laboratórios em uma gaveta do seu quarto. Eu jamais havia mexido nas coisas dela, mas eu não podia mais suportar o vazio e a dor que se apossavam de mim de forma avassaladora.&lt;br /&gt;                Com uma garrafa de água na mão, fui ao seu quarto, puxei a gaveta e comecei a abrir todas as caixas e potes que estavam lá. Não me importei com rótulos, bulas ou dosagem, fui somente botando todas aquelas cápsulas na palma de minha mão e jogando-as na boca, aos montes, empurrando-as pela garganta com goles de água, e fazendo isso com a maior velocidade que podia, para que não me sobrassem chances de permanecer nesse mundo.&lt;br /&gt;                Cada vez que engolia as inúmeras cápsulas e comprimidos, uma lágrima escorria e me vinha à mente os olhos vermelhos, a expressão de dor, de culpa e arrependimento que ele mostrava no rosto naquela manhã. Eu sabia o tamanho da estupidez do que estava fazendo, mas é muito difícil pensar racionalmente quando se está em pedaços.&lt;br /&gt;                Não demorou muito para que uma dor absurda tomasse conta do meu corpo. E como doía, sentia-me esfaqueado e me contorcia no chão do quarto, envolto pelas embalagens das amostras que iam me matando aos poucos. O mundo foi escurecendo, eu ainda podia sentir as lágrimas correndo pelo meu rosto, e não tinha mais força para reagir. Antes de perder a consciência, eu pensei mais uma vez nele.&lt;br /&gt;                Eu caía. O tempo todo minha sensação era de queda, de um grande abismo. E dor, a dor não me dava tréguas. Eu estava absolutamente exausto quando abri os olhos e vi que meu nariz e minha boca estavam cobertos por uma máscara de oxigênio. Eu percebia movimento, paredes brancas, lâmpadas florescentes. E vi minha mãe. Ela chorava muito e segurava minha mão.&lt;br /&gt;                Quando consegui tomar maior consciência da minha situação, percebi que estava no hospital. Meu pai também estava lá. E minhas irmãs. Eu não as via, mas ouvia a voz das duas, discutindo. Minha irmã mais velha misturava a revolta por eu ter acabado com o estoque de amostras e revolta pela minha decisão.&lt;br /&gt;                Ela se aproximou de mim, foi então que percebi a fúria no rosto dela, e as lágrimas secas, e falou:&lt;br /&gt;                - Erich, seu imbecil! Por que você fez isso, hein? Seu merda de uma figa, quase mata a mãe do coração! E ainda usa os meus remédios! O que você queria? Que eu carregasse a culpa da tua morte pro resto da minha vida?&lt;br /&gt;                Eu não podia responder, não apenas pela máscara, mas pela náusea, pela dor e, principalmente, porque ela tinha razão. Eu de fato não pensei em ninguém, só na minha dor, e não me dei conta quantas pessoas eu afetaria com a minha decisão. A mãe fez sinal para ela parar. Ela parou e saiu furiosa do quarto. E ficou duas semanas sem falar comigo.&lt;br /&gt;                Eu dormi novamente, estava muito cansado e debilitado para me manter alerta. E a dor não parou de me acompanhar. Eu devia estar com uma aparência horrível pela cara de pena que as pessoas faziam para mim. Primos, tios, avós, todo mundo foi ao hospital mesmo sabendo que teria alta logo. Parecia plano da minha mãe para mostrar o quanto as pessoas se importam. Mas no fundo sabia que estavam todos me julgando, e condenando, pela minha insensatez. Mas o que fazer quando a vida simplesmente perde o sentido?&lt;br /&gt;                Simples: dar a volta por cima. Mas isso não é uma lição que se aprenda da noite para o dia. Só sei que me vi sozinho no quarto por um momento e pude refletir o tamanho da bobagem que havia quase conseguido fazer. Eu pensava nele quando vi seus cabelos cor de fogo. Ele estava na porta, e estivera chorando. Ficou um tempo lá parado, entrou no quarto e me olhou, com os mesmos olhos vermelhos de tristeza daquela manhã.&lt;br /&gt;                Sem dizer nada, se virou e saiu do quarto. Eu senti a primeira lágrima escorrendo pelo rosto quando o vi voltar. Ele parou do meu lado, chorando também, e demonstrou pelo olhar o quanto sentia raiva de mim naquele momento.&lt;br /&gt;                - Quer saber? Não vou te poupar porra nenhuma! Meus pais pediram pra pegar leve com você porque ninguém tenta se matar porque está feliz demais. Mas não vou ser delicado não, você fez uma merda gigantesca, merece ouvir sim! Está com problemas? Foda-se! Todo mundo tem problemas! Eu tenho problemas e você sabe bem disso! O que você acharia se eu resolvesse me entopir até o cu de remédio, hein? Aposto que você me odiaria por isso!&lt;br /&gt;                - Ale, eu...&lt;br /&gt;                - Cala a boca que agora você vai ouvir! Você só pensou na porra do seu umbigo, não foi? O que você queria afinal? Matar tua irmã de culpa? E eu? Ou você acha que eu não sei que você fez isso por minha causa? É isso que você chama de amor? Pois eu te dou um conselho, meu caro, reflita muito bem sobre esse teu amor, porque tem algo muito errado aí. Não atribua sua estupidez ao amor. E não tenha a cara de pau de falar essa palavra de novo, porque você não ama ninguém, nem a si mesmo. Se amasse não teria...&lt;br /&gt;                Ele teve a voz trancada pelas lágrimas que estavam por vir. Percebi a dificuldade que tinha para controlar as próprias palavras, com a garganta claramente dolorida. Eu o havia feito sofrer. Eu havia provocado nele exatamente a dor que eu tanto que evitar.&lt;br /&gt;                - Ale, mas você me disse que... eu não entendo o seu sofrimento...&lt;br /&gt;                - Deixa de ser idiota, Erich! Eu sei o que eu disse, mas caramba, a gente é amigo desde criança, a gente praticamente nasceu junto! Você realmente achou que eu não sentiria a sua falta? Você realmente achou que eu não me importo com você? Eu não quero que você morra, caramba!&lt;br /&gt;                Ele estava perto de mim, quase o suficiente para eu tocá-lo, e não sabia se devia, se podia, mas sabia o quanto queria sentir novamente a postura de sua pele. Eu toquei, com a ponta dos dedos, no seu braço. Ele se afastou, fechou com força os olhos, secou uma última lágrima e falou:&lt;br /&gt;                - Não, Erich. Desculpe, mas... não... – Baixou a cabeça e foi para a porta. – Só por favor, não faça mais isso... – Falou sem me olhar e saiu. Eu sabia que não o veria tão cedo, e tinha medo de não vê-lo nunca mais.&lt;br /&gt;                Eu chorei, chorei o que ainda restava de lágrimas em mim. Eu sentia dor das lavagens que passei por causa da intoxicação, eu tinha dor na alma e no coração. Eu cheguei a lamentar ter sobrevivido, mas a feição de dor dele me fez eu me sentir o perfeito idiota por ter tentado. Eu o amava sim, tinha certeza disso! Mas... será? Ele podia estar certo, e o meu amor não ser tão puro quanto costumava defender.&lt;br /&gt;                Eu voltei pra casa e encontrei um clima horrível. Minha irmã levou anos para confiar em mim novamente para deixar as amostras em casa. Aliás, acho que nenhum deles conseguiu voltar a confiar em mim como era antes. O meu coração ferido machucou as pessoas que mais me amavam no mundo. Meu egoísmo me cegou, e meu arrependimento passou a ser meu companheiro inseparável.&lt;br /&gt;                De fato, o Alexandre se afastou, certamente numa tentativa de auto-preservação, e eu não tinha o direito de julgá-lo. Hoje eu sei que aquilo pode ter atrasado nosso “final feliz”. Hoje eu sei do que a dor, a desilusão e um coração partido são capazes de fazer em uma pessoa que já havia sobrevivido ao inferno tantas vezes antes. Mas não há no mundo sofrimento maior do que aquele causado por amor. A má notícia é que ninguém está livre.&lt;br /&gt;                Mas por pior que seja, eu ainda prefiro sofrer por amor do que não amar para evitar o sofrimento. No fim das contas acaba valendo a pena. Quase sempre.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-1713356222600633596?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/1713356222600633596/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/09/estupidez-insensatez-e-um-coracao.html#comment-form' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/1713356222600633596'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/1713356222600633596'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/09/estupidez-insensatez-e-um-coracao.html' title='Estupidez, insensatez e um coração partido'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-8843598253328620372</id><published>2009-09-28T18:23:00.001-03:00</published><updated>2009-09-28T18:27:06.812-03:00</updated><title type='text'>Boneca de porcelana</title><content type='html'>Na minha época, aos 13, 14 anos a gente ainda brincava de esconde-esconde, e não me refiro se esconder atrás da moita acompanhado, que fique claro. Mas obviamente sempre tem os mais avançados. Eu fui um desses que tentou prolongar a infância até onde pôde. Foi um pouco antes disso que comecei a virar alvo de piada para os colegas.&lt;br /&gt;                Eu era (e ainda sou) muito branco, loiro, ou castanho claro conforme a época, com os olhos verdes e um rosto razoavelmente delicado, não tardou para virar a “boneca de porcelana” da classe. Mas a pior parte não foi essa, foi o fato de que ganhei o apelido de uma professora super bem intencionada. Eu tinha os cabelos compridos, extremamente andrógino, não era difícil ser confundido com uma menina.&lt;br /&gt;                Bom, considerando o conflito que eu começava a viver, com as dúvidas que vinham na minha cabeça e a constante saudade do A (o Alexandre, o chamo de A), ser visto como uma menina não me ofendia completamente, até porque eu me dava muito bem com as meninas da turma.&lt;br /&gt;                Logo depois dos 14 anos, ainda mais interessado no meu vídeo-game do que com qualquer outra coisa, fui convidado para a festa de 15 anos de uma menina da turma que repetia o ano. Eu e toda turma, claro. Bom, foi a primeira vez que usei traje social e confesso que fiquei ridículo. O problema é que eu já era a “boneca de porcelana” nessa época, e o que eu não sabia é que havia um plano para me “desmascarar”.&lt;br /&gt;                Claro que com 14 anos eu sabia que era diferente, sabia desde criança, mas ainda não tinha certeza, não tinha como assumir nada ainda, e não teria coragem de fazê-lo mesmo assim, não convivendo com tanta gente cruel. Adolescente sabe ser cruel. E aqueles adolescentes eram mestres na arte de humilhar alguém.&lt;br /&gt;                O líder do bando era o Rafael. Todo mundo desconfiava que ele a e Margot, a menina aniversariante, tinham um caso tórrido de amor púbere. Eu achava a suposta experiência sexual dos dois extremamente exagerada, mas Margot não parecia uma adolescente, mas uma mulher com alguma quilometragem. O Rafael também não era um menino como eu, que mal tinha penugem no rosto, ele já dava os primeiros sinais de barba, e a maioria dos meninos invejava essa disfunção hormonal dele.&lt;br /&gt;                Sendo ou não amantes, o plano deles era que Margot me agarrasse para que pudessem, com a minha recusa, confirmar minha condição homossexual. Só que aí haviam dois agravantes: eu era extremamente tímido, não podendo agir com naturalidade ao ataque de uma mulher, e ela era, supostamente, a garota do líder, beijá-la na frente dele equivalia a uma tentativa de suicídio.&lt;br /&gt;                Pois então, estava eu num canto do salão, esperando o momento certo de correr para um telefone público (não existia celular – sim, faz tempo) e pedir para meu pai me buscar quando a festa de fato começou. As luzes foram apagadas e substituídas por uma miscelânea de cores que me davam dor de cabeça, e os adultos foram saindo e deixando um bando de adolescentes enlouquecidos começarem a formar os pares.&lt;br /&gt;                Como eu nunca fui muito adepto das festas, me surpreendi com a maneira com as coisas eram conduzidas. Claro que eu não podia beijar alguém em público àquela altura, ou ambos seríamos linchados antes de o beijo terminar, mas mesmo se eu gostasse de meninas, pelo menos o suficiente para disfarçar minha orientação, não conseguiria agir daquela maneira tão... depravada.&lt;br /&gt;                Mas eu estava em um canto escuro, longe daquela bagunça, observando a saída mais próxima para sair sem ser visto, quando a melhor amiga da Margot me puxou pela mão e me guiou até o centro do salão. Eu tremia feito um franguinho ciente do abate. Aquela gente nunca havia tomado conhecimento da minha existência antes, era óbvio que havia algo errado nessa gentileza repentina.&lt;br /&gt;                E não tardou para me ver cercado de meninas, eram quatro, todas passando a mão em mim. Aquilo começou a me revirar o estômago, mas o pior ainda estava por vir. Margot, com um vestido colado, mostrando que em matéria de corpo ela realmente não parecia tão somente uma adolescente, se aproximou demais. Tentei recuar, mas fui segurado pelas meninas (não me condene, eu era fraquinho e elas eram várias), ali eu senti que estava perdido, se não apanhasse por ser gay, apanharia por ter beijado a garota do Rafael.&lt;br /&gt;                Margot me beijou. Mas o instinto falou mais alto que o número de meninas que me seguravam. Ao sentir o batom dela nos meus lábios, a sensação desagradável foi tão forte que num impulso consegui me livrar das meninas e empurrei Margot, sem violência, só o suficiente para impedir que aquele beijo se tornasse uma tortura ainda maior.&lt;br /&gt;                É, virei o “viadinho”. Ser chamado de veado, bicha, boiola e qualquer outro termo que tenha a intenção de me diminuir, realmente não é ofensivo. Não é incomum que um gay chame outro assim sem qualquer maldade, mas naquele contexto era impossível encarar isso tudo como uma brincadeira. Ali havia desejo de humilhação mesmo. Me vi cercado novamente, dessa vez os meninos me seguravam também, enquanto Rafael e Margot se revezavam na humilhação.&lt;br /&gt;                Antes de sair da casa de eventos, precisei lavar o rosto com força, ele havia me maquiado com batom vermelho e sombras escandalosas. Ah, claro, alegavam que um travesti combina com maquiagem pesada. Absolutamente nada contra os travestis, mas será tão difícil entender que ser homossexual e ser travesti não são a mesma coisa? Nem todo gay lamenta ser homem, caramba! Eu gosto de ser homem, não trocaria de sexo, nem jamais tive a menor vontade de me vestir de mulher.&lt;br /&gt;                Mas enfim, eu sabia que muita coisa ainda estava por vir. Segunda feira marcou o início de uma nova era de piadas e isolamento. Logo na chegada na escola, fui recepcionado em minha classe com uma cinta-liga, batons e um par de sapatos de salto. No segundo dia foi um baby-doll, no terceiro foi um vestido, no quarto foi uma lingerie e no quinto, para terminar aquela primeira semana, um chocolate em forma de pênis e o VHS do desenho Bambi.&lt;br /&gt;                A partir daquela semana nunca mais meu nome foi ouvido naquela sala de aula, nem na chamada, sempre havia algum colega que gritava “veado” mais alto do que o professor conseguia pronunciar “Erich”. Em geral era o Rafael quem fazia isso, mas eu nunca tive coragem de observar quem mais gritava. E o interessante é que ninguém nunca chamou a atenção deles.&lt;br /&gt;                Penso que até os professores tinham seu grau de preconceito. A questão da diversidade, da tolerância, do respeito e informações sobre homossexualismo jamais foram abordadas em sala de aula. E não era só uma questão de re-estabelecer o respeito, mas eu era um menino ainda. Com 14 anos éramos todos crianças descobrindo a vida adolescente. Eu ainda estava muito confuso, precisando de orientação. Mas ao contrário disso, vi a escola se abstendo de qualquer responsabilidade e pais extremamente irresponsáveis; mais de uma vez o Rafael me insultou na frente do próprio pai, e este, por sua vez, parecia apoiar enquanto me olhava como se eu fosse uma aberração.&lt;br /&gt;                Perdi a conta de quantas vezes voltei para casa chorando. Eu perdia lentamente a minha identidade, já não importava se eu era o Erich, o menino estudioso, apaixonado por literatura e história, na escola eu era somente o gay. Eu me resumi à minha orientação sexual, que sequer era assumida na época, sequer era uma certeza para mim ainda.&lt;br /&gt;                Eu não tenho vergonha do que sou, mas eu não sou tão somente um gay, sou um homem íntegro, viciado em música, profissional reconhecido, homem romântico e apaixonado, eu sou muito mais do que tão somente um homossexual, isso é apenas uma parte de mim. Mas percebi também que não é somente comigo que isso acontece. Já vi gordinhos, baixinhos, e por aí vai, perdendo a própria identidade para tornarem-se somente aquilo que os coloca como alvos de preconceito.&lt;br /&gt;                Mas querem saber o que é mais interessante? Ser gay não é um defeito, não me torna menos digno de absolutamente nada, mas... e ser hipócrita? Pois é, hipocrisia é uma característica sutil e discreta, ninguém vai ser humilhado na escola por ser hipócrita, ninguém vai receber presentes desagradáveis ou perder sua identidade em nome de sua hipocrisia. Não deveria ser muito pior?&lt;br /&gt;                Então chegamos ao ponto que eu realmente queria contar. Eu já estava com 26 anos quando comecei a me envolver com a “comunidade” e fui às primeiras festas gays. Já havia ido em bares, mas tudo muito esporádico, era a primeira vez que eu, homem adulto e bem resolvido, sentia realmente vontade de me divertir.&lt;br /&gt;                No meu primeiro final de semana na casa gay mais nobre da minha cidade tive a surpresa mais interessante e, digamos, engraçada que podia esperar. Eu ainda estava meio “duro”, não tinha o hábito de dançar em público, por isso fui direto para o bar, atrás de um pouco de coragem, leia-se álcool. Não fazia 15 minutos que eu estava na boate quando um rapaz se aproximou. Eu não o vi chegar, só percebi quando ele segurou meu braço e se aproximou do meu ouvido.&lt;br /&gt;                - Oi, nunca tinha te visto por aqui. – Falou ele tentando fazer uma voz sedutora. Eu sorri imediatamente enquanto meu cérebro assimilava a frase. – Eu te vi na porta e resolvi vir falar com você... você me deixou louco, garoto, estou muito perto de beijar a tua boca.&lt;br /&gt;                Dessa vez eu ri, não pela cantada ridícula, mas porque a voz, mais a imagem dele refletida no espelho decorativo do bar me deram grandes motivos para rir. Antes que ele conseguisse me beijar, me virei, olhei nos seus olhos e respondi:&lt;br /&gt;                - Oi Rafael, lembra de mim? O Erich, o veadinho da escola. – Ele soltou meu braço, arregalou os olhos e estava prestes a gaguejar quando eu completei. – E não, você não vai me beijar, a bonequinha de porcelana aqui merece coisa melhor.&lt;br /&gt;                Sorri, pisquei o olho e saí de alma lavada. Eu já nem precisava mais do álcool, me soltei, extravasei na pista de dança e levei mais algumas cantadas. Não fiquei com ninguém, não queria que nada substituísse a minha sensação de vitória. Demorou para acontecer, e foi o destino que me deu esse presente sem que eu precisasse fazer nada, eu havia ganho a vingança perfeita.&lt;br /&gt;                É por isso que não reajo às agressões corriqueiras, todo mundo tem o que merece, mais cedo ou mais tarde. Deve ter sido muito mais difícil para ele quando se descobriu gay, e eu ter a chance de dispensá-lo tornou tudo ainda mais mágico. Eu vivi muita coisa bacana naquela boate, fiz muitos amigos, ganhei pretendentes. O Rafael? Nunca mais o vi. Nem faço questão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-8843598253328620372?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/8843598253328620372/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/09/boneca-de-porcelana.html#comment-form' title='22 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/8843598253328620372'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/8843598253328620372'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/09/boneca-de-porcelana.html' title='Boneca de porcelana'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>22</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-2590717592987097001</id><published>2009-09-25T12:01:00.001-03:00</published><updated>2009-09-25T12:03:12.808-03:00</updated><title type='text'>Erich em resumo</title><content type='html'>Fomos crianças na mesma época, tínhamos somente 3 dias de diferença, mas parecia que tínhamos nascido em planetas diferentes. Eu o olhava as vezes e tinha inveja de sua normalidade. Para ele tudo parecia tão simples que eu me questionava o que havia de errado comigo. Tínhamos uns 6 anos quando o olhei de um jeito diferente. Ele era todo bonito, tinha aqueles cabelos cor fogo e os olhinhos verdes como os meus. Eu não precisei de muito tempo para entender que o amava, eu só não era capaz de entender de que forma me vinha esse amor.&lt;br /&gt;                Éramos dois moleques que jogavam bola na rua num tempo em que isso ainda era possível na cidade grande. Eu jogava porque meu pai tinha grandes ilusões sobre seu único filho homem, enquanto invejava minhas irmãs, uma gêmea e outra mais velha, que podiam ficar dentro de casa com suas bonecas, sem machucar o joelho, sem morrer de medo de chorar. Mas os jogos tinham suas vantagens, ele fazia gol e me abraçava, esse era o melhor momento do meu dia, todos os dias.&lt;br /&gt;                Tínhamos o mesmo nome composto, Erich Alexandre, a mãe dele gostou do meu nome e o registrou da mesma forma. Como sou mais velho, fiquei conhecido pelo primeiro e ele pelo segundo nome. Ter nomes iguais e sobrenomes parecidos tornou a nossa relação ainda mais divertida. Éramos dois meninos que não se desgrudavam, o ruivinho e o loirinho, com esmeraldas nos olhos, ele com sardas e eu com meus cílios longos que irritavam minhas irmãs na adolescência.&lt;br /&gt;                Mas quis o destino que nossas vidas fossem separadas. Tínhamos 12 anos e eu sabia que era diferente dos outros meninos da escola. Ele me encantava muito mais do que as meninas, e enquanto nossos amigos esboçavam as primeiras tentativas de beijar da boca delas, eu me pegava distraído, perdido nas madeixas vermelhas que ele deixava crescer. Eu não tinha coragem de falar com ninguém, imaginei que a reação das pessoas não seria a melhor, e tinha medo de perder a companhia do meu amigo inseparável. Mesmo sem dizer uma palavra, foi isso que aconteceu. Sua família partiu e eu fiquei sem ele.&lt;br /&gt;                Trocamos algumas cartas, mas nada podia se comparar às tardes de futebol, ou às vezes que conseguia sentir o cheiro de seu xampu enquanto ele falava das meninas da turma. Eu sentia falta dele como um amor perdido e me escondi do mundo. Eu tinha vergonha, vergonha por ser diferente, vergonha por amar o meu amigo de infância, vergonha por não conseguir beijar uma menina.&lt;br /&gt;                Vinham as festinhas, eu começava a chamar a atenção com meu rosto delicado de quem se desenha para se tornar um homem pouco masculino, meus olhos verdes e meus cabelos loiros rebeldes. Não tardou para que os meninos começassem a pegar no meu pé, eu já nem conseguia disfarçar que não haveria nem menina nem mulher nesse mundo que seria tocada por mim.&lt;br /&gt;                Com 15 anos minhas irmãs já desconfiavam que não teriam uma cunhada jamais, meu pai preferia não ver e eu preferia não mostrar. Eu tentava entender o lado deles, não é fácil para um pai aceitar que seu único filho homem... mexe com a tal honra masculina dele. Mas já era claro que eu não era um menino comum.&lt;br /&gt;                Estávamos perto do verão quando, acompanhado de amigas, encontrei aquele que me proporcionaria a certeza do que sou, e do que serei para sempre. Lembro que estávamos em um bar, tocava uma música ruim quando fui ao banheiro e vi que ele me seguiu. Gostei da ideia, ele parecia muito bonito de longe. O banheiro estava vazio, até porque o próprio bar não estava cheio. Ele se aproximou e, muito gentil, começou a conversar.&lt;br /&gt;                - Eu o vi com umas meninas, alguma delas é sua garota? – Corei com o comentário, estava muito claro que ele saberia exatamente o que eu estava prestes a dizer.&lt;br /&gt;                - Não, são somente amigas.&lt;br /&gt;                - Eu sei, queria somente ter certeza. – Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele tocou meu rosto. Eu fechei os olhos, estava confuso, mas sabia que precisava viver aquilo para acalmar minhas dúvidas. Quando senti seus lábios encostando nos meus, quando senti o seu gosto da minha boca, senti meu coração se encher de coragem. Eu não era mais um garoto estranho, eu acabara de me descobrir, e decidi que jamais teria vergonha por jamais ter esquecido os cabelos cor de fogo do meu amigo de infância.&lt;br /&gt;                Naquela semana mesmo, tendo beijado somente um rapaz em toda a minha vida, resolvi contar à minha família. Estava muito seguro, jamais havia permitido uma garota tocar em mim e havia apreciado o beijo dele, não poderia haver dúvidas. Não que eu esperasse qualquer reação efusiva da parte deles, mas jamais imaginei que minha mãe choraria mais do que se tivesse recebido a notícia da minha morte, nem que meu pai ficaria um mês sem falar comigo, e muito menos que a primeira coisa que ele me diria seria a convocação para visitar uma prostituta na semana seguinte.&lt;br /&gt;                Bom, a visita não aconteceu, por força de minhas irmãs, que não permitiram, mas ninguém foi capaz de me salvar da surra que levei dos meninos do bairro depois que uma vizinha ouviu meu pai aos berros me chamando de “bicha”. As notícias corriam rápido por lá e não foi difícil para que me pegassem desprevenido, afinal, eu não era uma bicha, como meu pai meu chamou, eu era um homossexual, sem escândalos, sem trejeitos, eu era somente um menino que preferia meninos, simples assim.&lt;br /&gt;                Acho interessante que os garotos se sentiram grandes machões vindo em um bando com mais ou menos 8 garotos contra um indefeso. Alguns ossos quebrados, cicatrizes e dias de hospital depois, meu pai, como todo bom pai, aceitou o filho gay, talvez pelo pânico de ver o jeito que fui deixado ao lado do campinho de futebol. Pouco mais de um mês depois do incidente, mudamos de casa, de bairro aliás, não podíamos continuar vivendo em um lugar onde as pessoas me olhavam como um criminoso ou um portador de alguma doença transmissível. E eu mudei de escola, porque mal voltei às aulas depois da surra e novas violências se desenharam com recados “simpáticos” e ameaças.&lt;br /&gt;                Foi aí que deixei de me aceitar, deixei de me amar, porque onde quer que eu fosse, o preconceito insistia em me acompanhar. Aos 16 anos fui apresentado “à vida adulta” da forma mais brutal que consigo imaginar. Desisti de viver. Eu me sentia sozinho no mundo, vivendo e revivendo na minha cabeça cada ameaça, cada demonstração de desprezo, cada ofensa, e ainda tentando imaginar como estaria meu amigo de infância.&lt;br /&gt;                Aos 17 anos eu o reencontrei. Eu oscilava entre a infelicidade extrema, o desejo de morrer, e a esperança de um futuro melhor. Eu já não sabia se tinha vergonha ou não de mim mesmo, eu não sabia o quanto era ou não digno de respeito. Era com freqüência tratado como inferior. Mas tudo isso ficou tão pequeno perto dos cabelos cor de fogo. Ele estava lindo, com cabelos longos e os olhos tão verdes quanto os meus. Fiquei imensamente feliz quando ele me reconheceu e correu na minha direção com aquele sorriso que me tira o fôlego.&lt;br /&gt;                Com os cabelos ao vento, ele se jogou nos meus braços; era um abraço amistoso, mas eu senti o tempo parar enquanto me entorpecia em seu perfume e tocava as partes de seu corpo que a etiqueta permitia. Um beijo no rosto e o rubor tomou conta de mim. Passamos horas conversando, relembrando nossa infância, relatando nossas aventuras ao longo da juventude. Ele me contava suas aventuras com meninas e a cada nova história eu sentia como se uma faca me atravessasse o peito, eu tive certeza que passaria o resto da minha vida lamentando não poder ser uma mulher, a mulher que o teria para sempre.&lt;br /&gt;                Mas o destino tem suas surpresas e, pouco mais de duas semanas depois do reencontro, fomos com nossas famílias a uma chácara, nos arredores da cidade. O tempo estava instável, mas insistimos em passear em uma área distante da casa, com uma cascata e um pequeno córrego. Falávamos todo tipo de futilidade quando começou uma chuva bastante forte, ele me puxou pelo braço para corrermos, poucos metros à frente fomos vítimas da lama, e eu caí sobre ele.&lt;br /&gt;                A chuva era cada vez mais forte e as gotas do meu cabelo caíam em seu rosto. Eu senti que sua respiração ficou pesada e seu coração, como o meu, disparou, mas ele não esboçou qualquer reação. Por um impulso, resolvi arriscar e o beijei. Ele me abraçou com força durante o beijo, não deixando que me afastasse um centímetro sequer. Foi um beijo longo e apaixonado, foi muito além dos meus sonhos mais otimistas.&lt;br /&gt;                Quando nos levantamos, seus cabelos estavam cobertos de lama. Sem dizer uma palavra, nos jogamos no córrego, já estávamos encharcados de qualquer forma. Nadando debaixo de chuva forte, ele tomou a iniciativa, me beijando com força, como se temesse que eu pudesse partir.&lt;br /&gt;                - Não tinha certeza se não me odiaria por isso. – Comentei quando voltávamos para a casa, tempo depois.&lt;br /&gt;                - Não te odiaria, eu tinha muita curiosidade de experimentar. Mas então você é mesmo gay? – Me perguntou, deixando-me surpreso e confuso.&lt;br /&gt;                - Sim, sou, você não é?&lt;br /&gt;                - Não, não sou. Como eu disse, só queria experimentar. – Naquele momento senti meu mundo desabar, depois de criar tudo o que é tipo de ilusão, depois de imaginar que entraríamos abraçados na casa avisando que formaríamos um casal a partir de então.&lt;br /&gt;                Depois daquele dia começamos a nos falar cada vez menos, eu tinha certeza que meu destino de solidão e amor não correspondido estava selado. E tive que aceitar encontrá-lo nas poucas festas que fui sempre acompanhado de mulheres. Aquilo me partia o coração de tal modo que resolvi me fechar em casa, era melhor que encarar a dolorosa realidade.&lt;br /&gt;                Dois dias depois do aniversário de 20 anos dele, ele me procurou, estava confuso, não sabia o que fazer, não sabia o que sentia. Ele estava sozinho em casa e pediu que eu fosse vê-lo. Eu fui sem ilusões, não queria mais me machucar. Bebemos um pouco, relembramos bons momentos e relembramos a tarde chuvosa da qual eu sabia cada detalhe. Ele sorriu, era o primeiro sorriso da noite, passou a mão nos meus cabelos e se aproximou do meu rosto.&lt;br /&gt;                - Por favor, me perdoe por todos esses anos... – Falou baixo no meu ouvido, beijando suavemente meu rosto até alcançar a minha boca. Eu não ofereci resistência, mas tinha medo de me machucar mais ainda.&lt;br /&gt;                Como um adolescente irresponsável, me deixei levar pelo vinho e pelo amor que ainda sentia por ele. Naquela noite nos amamos pela primeira vez. Era minha primeira noite de amor de verdade e a primeira vez que ele se entregava à sua realidade, que ele tanto insistia em negar. Quando acordei na manhã seguinte, ele estava sentado em uma cadeira, diante da cama; pensei em sorrir, mas ele não parecia feliz.&lt;br /&gt;                - É melhor você ir agora. – Falou ele sem olhar para mim. Meu coração se partiu outra vez.&lt;br /&gt;                - Aconteceu alguma coisa? – Perguntei incrédulo.&lt;br /&gt;                - Como assim “aconteceu alguma coisa”? – Ele chorava. – Que pergunta idiota, Erich! Claro que aconteceu!  &lt;br /&gt;                - Sim, Ale, eu sei bem o que aconteceu, eu pergunto se aconteceu algo errado.&lt;br /&gt;                - Olha só. – Disse ele levantando-se e ficando de costas para mim. – Você é gay, mas eu não!&lt;br /&gt;                - Vai falar de novo na curiosidade de experimentar? – Eu começava a ficar irritado.&lt;br /&gt;                - Eu sei das coisas que te aconteceram, não quero isso pra mim.&lt;br /&gt;                - Você não pode ir contra a sua natureza a vida toda, caramba!&lt;br /&gt;                - Quer apostar?&lt;br /&gt;                - Ah, legal, você acabou de admitir que a sua natureza é a mesma que a minha, você é gay e você gosta de mim! Vai fugir até quando? – Eu começava a gritar.&lt;br /&gt;                - Isso é problema meu, vai embora!&lt;br /&gt;                Eu não disse mais nada, peguei minhas roupas, me vesti o mais rápido que consegui e saí batendo a porta. Estava ainda mais irritado com a vida, o meu sonho podia ser real, ele era igual à mim e me amava, mas tinha medo, e eu não lhe tirava a razão, mas tudo o que eu queria era ser feliz ao lado do meu amor, por que era tão difícil tornar isso uma realidade?&lt;br /&gt;                Nos afastamos novamente, terminei a faculdade e me joguei de cabeça no meu trabalho, lutando dia após dia para tira-lo da minha cabeça e do meu coração. Encontrava às vezes ele no campus, dessa vez sozinho, nunca mais o vi na companhia de mulheres. Ele me cumprimentava de longe, mas não vinha falar comigo, e eu fazia questão de ficar longe, eu não podia ser novamente a pessoa em que ele descarregava suas vontades reprimidas, aquilo já era demais para mim.&lt;br /&gt;                Entretanto, depois dele, nunca mais conheci ninguém, eu sabia que não amaria mais ninguém como o amava, não me valia a pena arriscar aventuras que só me trariam mais sofrimento. Cheguei num ponto que meu pai quase acreditou que eu pudesse mudar de ideia, já que não levava rapazes para casa, mas o preconceito ao meu redor não deu a mesma trégua e o acesso irrestrito à internet me tornou alvo fácil. Eu não buscava namorado, mas me recusava a me esconder, a ter vergonha de ser quem sou. Não tem nada de errado com o meu jeito de amar, é amor tanto quanto qualquer outro, e meu coração estava tão partido quanto ficaria o coração de qualquer outra pessoa.&lt;br /&gt;                Mas a vida é um ciclo, tudo tem volta, é só esperar o tempo certo para que isso aconteça. Não muito tempo atrás minha irmã abriu a porta e gritou meu nome. Fui à sala esperando qualquer coisa, menos o que estava por vir. Era ele com seus longos cabelos cor de fogo. Ignorando a presença da minha irmã, ele me beijou, ali mesmo, na sala, sem sequer se certificar de que não teria qualquer outra pessoa.&lt;br /&gt;                - Acabo de assumir para minha família. Acabo de avisá-los que te amo e que farei o que for para você ser genro deles. – Disse ele, sorrindo, com as duas mãos ao redor do meu rosto.&lt;br /&gt;                - Você disse que me ama? – Perguntei quase sem ar.&lt;br /&gt;                - Sim, eu disse que te amo, Erich, porque eu te amo mesmo. E digo mais, eu sempre te amei, a vida toda, e agora estamos bem grandinhos, acho que com 27 anos tenho todo o direito de ser macho o suficiente para assumir que amo outro homem. – A cada poucas palavras, eu ganhava um novo beijo dele.&lt;br /&gt;Naquela noite o apresentei como meu namorado à minha família. Meu pai foi o que ficou menos contente, minhas irmãs vibraram por me ver feliz pela primeira vez em anos, se não fosse a primeira vez na vida! Ele é filho único, o que dificultou um pouco mais as coisas e mais de uma vez tive que ouvir breves grosserias do meu sogro, me acusando sutilmente de ter desviado o filho dele do bom caminho.&lt;br /&gt;                Mas quer saber? Eu nem imagino como vai ser o amanhã, só sei que hoje nós nos amamos o suficiente para termos certeza que nascemos um para o outro. A gente ainda não pode sair na rua como o casal apaixonado que somos, a sociedade é hipócrita demais para isso, mas estamos felizes, e não há nada mais importante que isso. Simples assim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-2590717592987097001?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/2590717592987097001/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/09/erich-em-resumo.html#comment-form' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/2590717592987097001'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/2590717592987097001'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/09/erich-em-resumo.html' title='Erich em resumo'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7791660507059625913.post-4793622961954453581</id><published>2009-09-24T15:34:00.001-03:00</published><updated>2009-09-24T16:05:06.027-03:00</updated><title type='text'>Um começo</title><content type='html'>Bom, pessoal, já estava na hora de eu ter um espaço para me expressar melhor, certo?&lt;br /&gt;Pois bem, esse é o espaço. Aqui quero liberdade total para misturar o real e o imaginário, para fazê-los viajar na minha vida e na minha imaginação.&lt;br /&gt;Aqui também quero mostrar coisas que me interessam, aqui quero falar do que gosto e do que odeio. E pra quem me conhece do orkut, aqui também poderá ser um espaço livre para quem quiser, basta falar comigo e dar ideias.&lt;br /&gt;Serei o personagem das minhas histórias, mas aqui tudo pode acontecer, então se quiseres dar sugestões para novas histórias, as relatarei aqui com muito prazer!&lt;br /&gt;Como já reforcei, não considere tudo ao pé da letra, vou misturar muito realidade e fantasia, aqui não é o meu diário, é um espaço de expressão.&lt;br /&gt;Ah, claro, esse será um cantinho também para que gosta de slash, porque HT aqui não entra!&lt;br /&gt;E o primeiro post é uma história de amor, a minha história de amor... será ela real? =D&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7791660507059625913-4793622961954453581?l=blogdolobby.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://blogdolobby.blogspot.com/feeds/4793622961954453581/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/09/um-comeco.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/4793622961954453581'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7791660507059625913/posts/default/4793622961954453581'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://blogdolobby.blogspot.com/2009/09/um-comeco.html' title='Um começo'/><author><name>Lobby</name><uri>http://www.blogger.com/profile/10333437589564365753</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
