O tempo tem passado mais rápido do que tenho condições de acompanhar, as vezes fico tão preso ao passado, às coisas que jamais voltarão a ser porque a época da inocência acabou. Eu não sou mais um menino ingênuo e, embora saiba que ingenuidade pode ser fatal hoje em dia, sinto falta dos dias em que ainda era possível acreditar nas pessoas.
Eu costumo de muito transparente e isso me prejudica, muitas vezes sou tachado de mentiroso pelas minhas histórias e sentimentos como se fosse impossível sentir e viver como eu. É possível existir falsidade no conteúdo de um frasco de vidro? Não, o que está lá dentro é visível, sem disfarces, sem enganação. E mesmo assim há quem acredite que tudo o que eu sou, e o que mostro é falso, é teatro.
Pois bem, não é. Jamais consegui disfarçar meus sentimentos, quanto mais demonstrar algo que não fosse totalmente real. Se as pessoas acreditam nisso ou não já é outra história. Não posso convencê-las que existe alguém genuinamente sentimental, mas me fere toda vez que vejo como é distante da realidade a imagem que tantos tem de mim. Mas enfim, que diferença faz? Por que me importo com o que certas pessoas pensam de mim?
Quisera eu ter essa resposta. Devia ficar satisfeito que meus muitos amigos sabem quem eu sou e que, principalmente, eu sei quem eu sou, conheço meus ideais de meu caráter. E durmo muito tranqüilo à noite carregando como único peso a hipocrisia dos outros nos julgamentos injustos que vejo acontecendo o tempo todo, não só comigo.
Eu não poderia mesmo esperar outra coisa, querer ser exceção, afinal, dou a cara ao tapa, devia saber que seria estapeado. Não me escondo, não escondo o que eu sinto e o que eu penso, e, principalmente, deixo que meus aliados ajudem a curar minhas feridas, mas não permito que lutem comigo; uma guerra já é estúpida por si só, não tenho porque colocar nela as pessoas que não quero que saiam feridas.
E por que estou aqui dizendo essas coisas? Eu mesmo me perguntei algumas vezes, pensando em apagar e começar outra vez, mais alegre e otimista. Bom, podem até não acreditar, mas estou sendo deveras otimista, afinal, falo de tudo aquilo que me machuca por estar errado exatamente em um feriado religioso que representa a ressurreição. Não sou religioso, tenho formação cristã como a maioria, mas tenho minha fé particular, segundo aquilo que tenho condições de acreditar. E não acredito na ressurreição.
Como um homem letrado, acredito na metáfora, e tenho como minha verdade que a bíblia é nada além de um livro de fábulas (e depois teve alguém que me veio alegar que a verdade é sempre só uma... quanta ilusão) belamente escrita e com lindas lições bravamente distorcida pelos homens seguindo o que lhes seria mais conveniente, como aquela palhaçada de que a mulher é demoníaca só porque o infeliz não consegue controlar seus hormônios quando está diante de uma.
A ideia não é discutir religião, afinal, como defendi há pouco, cada um tem sua própria verdade e a minha é individual, ninguém é obrigado a acatar, aceitar ou concordar, assim como ninguém me provará que estou errado. Mas em um feriado de páscoa, certos questionamentos vem à mente como uma avalanche de sentimentos que me faz parar para pensar o que exatamente acontece na minha vida.
Como disse, não acredito na ressurreição, ou pelo menos não como ela é contada nas milhares de peças teatrais da sexta-feira santa. Eu não acredito que Cristo voltou do mundo dos mortos no terceiro dia em seu corpo castigado e ferido, até porque ainda sou muito mais da ciência e da biologia nesse caso; mas admiro o significado disso.
Ressuscitar significa morrer e voltar a viver; segundo esse conceito, poderia dizer que todos ressuscitamos várias vezes na vida, a morte não precisa necessariamente ser literal. Dizem os místicos que a morte é somente uma passagem para outro tipo de existência e ela só se tornou uma palavra pesada e dolorosa porque representa algum tipo de perda. Todas as nossas fases de vida se encerram com algumas perdas, elas são totalmente inevitáveis, algumas mais fáceis e outras mais difíceis de aceitar.
Eu já “morri” diversas vezes, e, a cada vez, pessoas e momentos deixaram de existir na minha vida para residirem na minha memória; outras vezes momentos e pessoas provocaram a necessidade de “morrer”. Claro que, ao contrário da morte biológica, a morte metafórica pode ser revertida, desfeita, e podemos legar pedaços da fase encerrada para a “vida nova”.
Na verdade, creio que falo tudo isso porque estou passando por isso, morrendo para renascer, morrendo para ressuscitar. Ok, renascer e ressuscitar são conceitos diferentes, nascer novamente é voltar à vida com outro corpo, outro contexto social, e ressuscitar é retornar à vida de onde ela parou, no mesmo corpo, no mesmo contexto. Embora eu costume explorar minha licença poética e em geral use “renascer”, ressuscitar não apenas combina com a ocasião como de fato é o termo certo.
Então, como eu ia dizendo, aproveito um período de reflexão tão pouco explorado pela maioria justamente para analisar minha vida, ver onde poderia ter feito melhor, onde poderia ter sido mais forte, onde poderia ter sido menos sensível e, principalmente, avaliar quais pessoas merecem minha lealdade.
Muito além do chocolate e da velha e gasta piada do coelho com rabo fofinho, da cenoura e dos ovos, a páscoa serve para refletir, mesmo que não se acredite totalmente no significado religioso dela, como é meu caso. Não sou a favor que se fique em casa orando ou olhando para o horizonte, eu não faço isso, mas o questionamento deve existir de alguma maneira. Todo mundo erra, portanto, todo mundo precisa tirar um tempo para olhar para si mesmo e tentar corrigir seus erros. Pelo menos tentar.
É justamente por a páscoa ter alcançado esse status de reflexão que sinto saudades dos tempos em que meu coração saltava empolgado quando acordava no domingo com o reflexo colorido pelo sol batendo nas embalagens dos ovos de chocolate na cestinha que meus pais montavam. Lembro de colocá-la no colo para verificar o que o “coelhinho” tinha deixado pra mim e correr para o quarto das minhas irmãs com a cesta na mão.
Eram tempos mágicos, não havia nada além daquela emoção infantil no domingo de páscoa, nada além da crença no coelho e das peças religiosas na escola. Tínhamos problemas, como todo mundo tem independente da faixa etária (e as pessoas costumam ignorar que crianças têm problemas também), mas mesmo assim os tempos eram outros, a mentalidade era diferente, as pessoas eram diferentes.
Lembro que aprendi que a cada geração o homem evolui mais, cresce mais. A minha geração não é nenhum exemplo de evolução, ao contrário, mas observo que a coisa se perde cada dia mais. Salvo exceções, que sempre tem, parece que as novas gerações, os novos jovens que pretendem mandar no mundo no futuro estão cada dia mais irresponsáveis, inconsequentes, verdadeiros delinquentes emocionais que primam por sua diversão acima do sentimento do outro, mas que se sentem também intocáveis: “posso fazer o mal, mas ninguém tem o direito de fazer o mesmo comigo”.
Anda fácil demais apontar o dedo. Isso é assustador.
Não sou a favor de vinganças, nem da justiça com as próprias mãos; tem um ditado que diz que se for tudo “olho por olho”, acabaremos todos cegos. Mas para toda ação tem uma reação. É lei da física. É justamente para acabar com um ciclo que não parece ter fim que morro agora para ressuscitar depois. Já carreguei minha cruz, certamente terei outras no caminho ainda, já usei minha coroa de espinhos pagando pelos meus erros e pelos erros que fui acusado de cometer. Não sei qual a próxima etapa. Seja qual for, estarei como sempre de peito aberto, somente desejando demais que a modinha de atribuir a mim a culpa de tudo chegue ao fim. Cansou já.
O futuro há de ser melhor. Eu tenho fé.
Boa páscoa a todos!
sábado, 3 de abril de 2010
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