sábado, 3 de abril de 2010

Ressurreição

O tempo tem passado mais rápido do que tenho condições de acompanhar, as vezes fico tão preso ao passado, às coisas que jamais voltarão a ser porque a época da inocência acabou. Eu não sou mais um menino ingênuo e, embora saiba que ingenuidade pode ser fatal hoje em dia, sinto falta dos dias em que ainda era possível acreditar nas pessoas.
Eu costumo de muito transparente e isso me prejudica, muitas vezes sou tachado de mentiroso pelas minhas histórias e sentimentos como se fosse impossível sentir e viver como eu. É possível existir falsidade no conteúdo de um frasco de vidro? Não, o que está lá dentro é visível, sem disfarces, sem enganação. E mesmo assim há quem acredite que tudo o que eu sou, e o que mostro é falso, é teatro.
Pois bem, não é. Jamais consegui disfarçar meus sentimentos, quanto mais demonstrar algo que não fosse totalmente real. Se as pessoas acreditam nisso ou não já é outra história. Não posso convencê-las que existe alguém genuinamente sentimental, mas me fere toda vez que vejo como é distante da realidade a imagem que tantos tem de mim. Mas enfim, que diferença faz? Por que me importo com o que certas pessoas pensam de mim?
Quisera eu ter essa resposta. Devia ficar satisfeito que meus muitos amigos sabem quem eu sou e que, principalmente, eu sei quem eu sou, conheço meus ideais de meu caráter. E durmo muito tranqüilo à noite carregando como único peso a hipocrisia dos outros nos julgamentos injustos que vejo acontecendo o tempo todo, não só comigo.
Eu não poderia mesmo esperar outra coisa, querer ser exceção, afinal, dou a cara ao tapa, devia saber que seria estapeado. Não me escondo, não escondo o que eu sinto e o que eu penso, e, principalmente, deixo que meus aliados ajudem a curar minhas feridas, mas não permito que lutem comigo; uma guerra já é estúpida por si só, não tenho porque colocar nela as pessoas que não quero que saiam feridas.
E por que estou aqui dizendo essas coisas? Eu mesmo me perguntei algumas vezes, pensando em apagar e começar outra vez, mais alegre e otimista. Bom, podem até não acreditar, mas estou sendo deveras otimista, afinal, falo de tudo aquilo que me machuca por estar errado exatamente em um feriado religioso que representa a ressurreição. Não sou religioso, tenho formação cristã como a maioria, mas tenho minha fé particular, segundo aquilo que tenho condições de acreditar. E não acredito na ressurreição.
Como um homem letrado, acredito na metáfora, e tenho como minha verdade que a bíblia é nada além de um livro de fábulas (e depois teve alguém que me veio alegar que a verdade é sempre só uma... quanta ilusão) belamente escrita e com lindas lições bravamente distorcida pelos homens seguindo o que lhes seria mais conveniente, como aquela palhaçada de que a mulher é demoníaca só porque o infeliz não consegue controlar seus hormônios quando está diante de uma.
A ideia não é discutir religião, afinal, como defendi há pouco, cada um tem sua própria verdade e a minha é individual, ninguém é obrigado a acatar, aceitar ou concordar, assim como ninguém me provará que estou errado. Mas em um feriado de páscoa, certos questionamentos vem à mente como uma avalanche de sentimentos que me faz parar para pensar o que exatamente acontece na minha vida.
Como disse, não acredito na ressurreição, ou pelo menos não como ela é contada nas milhares de peças teatrais da sexta-feira santa. Eu não acredito que Cristo voltou do mundo dos mortos no terceiro dia em seu corpo castigado e ferido, até porque ainda sou muito mais da ciência e da biologia nesse caso; mas admiro o significado disso.
Ressuscitar significa morrer e voltar a viver; segundo esse conceito, poderia dizer que todos ressuscitamos várias vezes na vida, a morte não precisa necessariamente ser literal. Dizem os místicos que a morte é somente uma passagem para outro tipo de existência e ela só se tornou uma palavra pesada e dolorosa porque representa algum tipo de perda. Todas as nossas fases de vida se encerram com algumas perdas, elas são totalmente inevitáveis, algumas mais fáceis e outras mais difíceis de aceitar.
Eu já “morri” diversas vezes, e, a cada vez, pessoas e momentos deixaram de existir na minha vida para residirem na minha memória; outras vezes momentos e pessoas provocaram a necessidade de “morrer”. Claro que, ao contrário da morte biológica, a morte metafórica pode ser revertida, desfeita, e podemos legar pedaços da fase encerrada para a “vida nova”.
Na verdade, creio que falo tudo isso porque estou passando por isso, morrendo para renascer, morrendo para ressuscitar. Ok, renascer e ressuscitar são conceitos diferentes, nascer novamente é voltar à vida com outro corpo, outro contexto social, e ressuscitar é retornar à vida de onde ela parou, no mesmo corpo, no mesmo contexto. Embora eu costume explorar minha licença poética e em geral use “renascer”, ressuscitar não apenas combina com a ocasião como de fato é o termo certo.
Então, como eu ia dizendo, aproveito um período de reflexão tão pouco explorado pela maioria justamente para analisar minha vida, ver onde poderia ter feito melhor, onde poderia ter sido mais forte, onde poderia ter sido menos sensível e, principalmente, avaliar quais pessoas merecem minha lealdade.
Muito além do chocolate e da velha e gasta piada do coelho com rabo fofinho, da cenoura e dos ovos, a páscoa serve para refletir, mesmo que não se acredite totalmente no significado religioso dela, como é meu caso. Não sou a favor que se fique em casa orando ou olhando para o horizonte, eu não faço isso, mas o questionamento deve existir de alguma maneira. Todo mundo erra, portanto, todo mundo precisa tirar um tempo para olhar para si mesmo e tentar corrigir seus erros. Pelo menos tentar.
É justamente por a páscoa ter alcançado esse status de reflexão que sinto saudades dos tempos em que meu coração saltava empolgado quando acordava no domingo com o reflexo colorido pelo sol batendo nas embalagens dos ovos de chocolate na cestinha que meus pais montavam. Lembro de colocá-la no colo para verificar o que o “coelhinho” tinha deixado pra mim e correr para o quarto das minhas irmãs com a cesta na mão.
Eram tempos mágicos, não havia nada além daquela emoção infantil no domingo de páscoa, nada além da crença no coelho e das peças religiosas na escola. Tínhamos problemas, como todo mundo tem independente da faixa etária (e as pessoas costumam ignorar que crianças têm problemas também), mas mesmo assim os tempos eram outros, a mentalidade era diferente, as pessoas eram diferentes.
Lembro que aprendi que a cada geração o homem evolui mais, cresce mais. A minha geração não é nenhum exemplo de evolução, ao contrário, mas observo que a coisa se perde cada dia mais. Salvo exceções, que sempre tem, parece que as novas gerações, os novos jovens que pretendem mandar no mundo no futuro estão cada dia mais irresponsáveis, inconsequentes, verdadeiros delinquentes emocionais que primam por sua diversão acima do sentimento do outro, mas que se sentem também intocáveis: “posso fazer o mal, mas ninguém tem o direito de fazer o mesmo comigo”.
Anda fácil demais apontar o dedo. Isso é assustador.
Não sou a favor de vinganças, nem da justiça com as próprias mãos; tem um ditado que diz que se for tudo “olho por olho”, acabaremos todos cegos. Mas para toda ação tem uma reação. É lei da física. É justamente para acabar com um ciclo que não parece ter fim que morro agora para ressuscitar depois. Já carreguei minha cruz, certamente terei outras no caminho ainda, já usei minha coroa de espinhos pagando pelos meus erros e pelos erros que fui acusado de cometer. Não sei qual a próxima etapa. Seja qual for, estarei como sempre de peito aberto, somente desejando demais que a modinha de atribuir a mim a culpa de tudo chegue ao fim. Cansou já.
O futuro há de ser melhor. Eu tenho fé.

Boa páscoa a todos!

sábado, 27 de março de 2010

Pequenos prazeres

Fiquei pensando por horas nas coisas que me fazem levantar de manhã e acreditar que ainda vale a pena. Não é fácil para quem sabe que cada movimento é julgado sair da cama e fazer qualquer coisa que não seja simplesmente sumir na multidão. Eu simplesmente não posso aceitar que estou no mundo para fazer volume e que a vida não passa de um martírio prolongado onde uns vivem em festa e outros em sofrimento.
A vida não é uma festa, nem tampouco uma constante fonte de dor; estão errados os que não levam nada a sério e os que levam tudo a sério demais. A vida tem seus pequenos prazeres, e, apesar de tudo, eu ainda sou capaz de reconhecê-los.
Celebrando as 30 histórias contadas, entre momentos engraçados, trágicos, românticos ou questionadores, fiz minha lista de 30 pequenos prazeres que seguem em ordem aleatória, coisas que sem dúvida fazem com que todo o resto pareça quase sem importância, que faz com que nada ruim seja forte o bastante para que esses itens se apaguem...

1. Noite chuvosa: acho maravilhosamente delicioso adormecer ao som da chuva; relaxa, inspira, dá uma sensação de aconchego por ouvir a água batendo no chão estando eu debaixo de minhas cobertas quentes, seco e protegido.

2. Sorvete de banana: nada melhor para um dia quente do que um sorvete de banana, cremoso e com pedaços da fruta!

3. Guerra de travesseiros: nossa, faz tempo, mas é sempre divertido reunir gente com alma de moleque e lutar com travesseiros.

4. Banho de chuva no verão: o cheiro da chuva no verão é delicioso, e se refrescar com um bom banho de chuva num dia quente é divertido e gostoso, ainda mais podendo pular sobre as poças e ouvir o “splash” da água saltando.

5. Pisar na lama de pés descalços: depois da chuva, sentir o pé afundando na lama é bem interessante, a lama subindo dentre os dedos, macia...

6. Lua cheia: coisa bem linda uma lua cheia, especialmente quando está anoitecendo, que ela parece mais próxima, avermelhada, enorme! A lua cheia pode funcionar como um carregador de energia, dependendo a sensibilidade do espectador.

7. Chocolate quente: inverno pesado, um chocolate quente é até uma questão de amor próprio, mas não leite com uma colher de achocolatado em pó, é chocolate mesmo! Quase cremoso, de tão consistente. E um pouco de chantilly com castanha moída reforçam o sabor!

8. Cinema: uma boa sessão de cinema tem seu valor, imenso valor. Se for com bons amigos, então, é indispensável para uma vida feliz.

9. Livros: sou apaixonado por eles, tenho de vários estilos, autores, épocas... uma excelente companhia para os não raros momentos de solidão.

10. Música: algo que eu definitivamente não posso e não consigo viver sem. Música faz bem pra alma, acalma ou acelera o coração, faz rir ou chorar. Música é para todos os momentos, música é quase o ar que eu respiro.

11. Pizza: não creio que exista alguém nesse mundo que não aprecie uma boa pizza.

12. Champanhe: só de pensar me deu sede. Um moscatel, por favor!

13. Nuvens: sou capaz de passar horas observando o movimento das nuvens, gigantescos algodões mutantes sobre nossas cabeças. É mágico!

14. Meias de lã: só pra dormir, porque pra caminhar acabam machucando os pés. Me refiro àquelas tricotadas por vovó. Quentinhas, aconchegantes, uma delícia!

15. Morango com chocolate: o azedinho do morango com o doce do chocolate. Casamento perfeito. Inclui o champanhe e mudamos de casamento para algo mais quente! (risos)

16. Fatia de melancia: gelada de quase doer os dentes. Muito bom, só espero o dia que lançarão as melancias transgênicas sem semente!

17. Cachorro: o animal. Adoro o meu, acho que todos os cachorros merecem o céu, choro quando um cachorro morre na TV e tenho pesadelos e mal estar quando vejo um sofrido na rua.

18. Esmagar guisado: pra quem não sabe, guisado é carne moída. Lembro quando era criança que minha mãe pediu pra eu esmagar o guisado para misturar com a farinha e os temperos para fazer bolo de carne. Lembro da sensação, parecida com a da lama, da carne moída fofinha saltando entre os dedos enquanto apertava. Pelo mesmo motivo fiquei encantado com uma cena do filme “Patch Adams” quando eles colocam uma velhinha numa piscina de massa. Um dia ainda faço o mesmo.

19. Dançar: renova o astral, faz bem pro corpo e pra mente.

20. Beijo na boca: sem comentários. Acho que todo mundo concorda.

21. Camiseta de algodão, bermuda e chinelo de dedo: é a melhor sensação do mundo quando o frio termina, a calça comprida, calçados fechados e blusas de lã somem de vista e a velha camiseta, o bermudão e o chinelo voltam à ação. A sensação de liberdade é indescritível!

22. Grama fofinha: uma grama bem cuidada, fofinha, perfeita para sentir a natureza de perto, andar de pés descalços, deitar sobre ela sentindo o cheiro da terra. Cortar a grama no verão também é bacana, o cheiro de grama recém cortada é um perfume delicioso!

23. Tulipas: minha flor favorita. Gosto de rosas, girassóis, margaridas e várias outras, mas nada se compara às tulipas. Tulipas são estilosas, têm cores vibrantes, são alegres, cheirosas e lindas.

24. Câmera digital: não vivo sem a minha, adoro fotografar cenários, momentos, pessoas. As lembranças são a coisa mais importante que temos na vida; os sentimentos que cada momento transmite. A foto nada mais é que um empurrãozinho pra memória, para que a pessoa olhe a imagem e possa se lembrar detalhadamente do que lhe aconteceu. Fotos são pequenos amuletos para que as melhores recordações durem para sempre.

25. Sabonete líquido: como faz diferença um sabonete líquido! Especialmente no banho; cada um com sua esponja, pinga o sabonete e limpa o corpo todo. Depois da invenção do sabonete líquido, nunca mais tive o desprazer de encontrar “vocês-sabem-o-quê” grudado no sabonete em barra. Muito mais higiênico, econômico e fashion!

26. Coca zero: não, não é merchandising, mas eu sou absolutamente viciado em Coca-Cola, e minha vida mudou para melhor depois da Coca Zero. O meu refrigerante sem calorias! O tanquinho agradece!

27. Sopa instantânea: um frio desgraçado, uma caneca, uma chaleira com água chiando no fogão e um sache de sopa instantânea. Lanche perfeito! Alimenta, esquenta, é fácil de fazer e é absolutamente delicioso.

28. Pipoca: hummm. Adoro ouvir o som de pipoca estourando, o cheiro dela pronta, o gostinho salgadinho (prefiro salgada). Adoro morder devagar as partes mais sólidas. Só não gosto das casquinhas, mas como não sou de colocar várias na boca, e sim comer uma a uma, acabo não me incomodando tanto. A pipoca que vendem no cinema as vezes chega a ser melhor que o filme.

29. Enfeites de natal: me emocionam. Adoro ver a cidade decorada, iluminada; já me peguei chorando uma vez, de emoção em saber que ainda existe magia. Na páscoa também é bacana ver a decoração e as lojas dedicadas à ocasião (mesmo comercial, é legal de ver).

30. Plástico bolha: aquele plástico de embrulhar objetos sensíveis, cheios de bolhas de ar. Acho impossível alguém não conhecer. Certa vez eu e minha irmã compramos um rolo inteiro só para estourar as bolhas. Cortamos um pedaço e 1,5m, nos afastamos no corredor e, cada um segurando uma ponta, torcemos o plástico até boa parte das bolhas se estourarem ao mesmo tempo; foi realmente divertido. E será que existe no mundo alguém que não goste, nem um pouquinho, de estourar um plástico bolha?

Reforço mais uma vez que a ordem dessa lista é totalmente aleatória, sem ser classificada entre favoritos ou não. Estava observando a via à minha volta quando percebi que poucas pessoas fazem o pequeno esforço de perceber o quanto coisas banais de sua vida fazem realmente muita diferença. E principalmente, o quanto algumas delas podem significar um dia inesquecível, uma nova lembrança, um bom momento.
Nessa lista não incluí meus amigos e familiares, eles não se enquadram como “pequenos prazeres”, eles são gigantescos, grandes demais para entrarem em uma lista qualquer. Eles são a razão de cada um desses itens contribuírem para uma vida melhor, para a construção de uma história que mereça ser contada. Eles são tudo na minha vida, sem eles essa lista não teria razão de ser, pois nada nesse mundo poderia compensar sua ausência.
São 30 histórias, desabafos, divisões e compartilhamento de segredos. Torço que sejam apenas as primeiras 30 histórias, é muito bom saber que aquilo que eu vejo, sinto e vivo pode quem sabe fazer uma pequena diferença para alguém. Será ainda melhor saber que posso estar fazendo a minha parte para diminuir preconceitos, acabar um pouco com essa hipocrisia que nos cerca, mostrando que independente do que eu faço, e com quem eu faço entre quatro paredes, a minha história poderia ser a de qualquer um, independente de sexo, raça, credo, orientação sexual, classe social. Independente de qualquer divisão que a sociedade possa nos atribuir, todos temos algo em comum, todos somos seres humanos e só isso já basta para que todos sejamos dignos de respeito pelos nossos semelhantes.

sábado, 20 de março de 2010

Obsessão

Eu lembro que andava sem rumo por uma praça qualquer, chutando pedrinhas, pisando em folhas secas do outono. Não sei no que pensava, minha memória não é tão impecável assim, mas lembro de estar calmo, em paz, coisa absolutamente rara na minha vida. Eu estava absurdamente distraído, o bastante para não ouvir o mundo ao meu redor mesmo privado da constante companhia de fones de ouvido e músicas aleatórias.
Eu não sei como foi, só sei que voltei ao mundo real quando uma grande confusão se armou perto dali. Pessoas que antes passeavam ou estavam nos bancos agora corriam afobadas para garantir seu lugar no mórbido espetáculo. Eu não corri, embora seja um curioso incorrigível, mas fui na mesma direção que iam todos. Não muito à frente já havia uma grande concentração de espectadores que aguardavam o desfecho.
Me aproximei, abrindo espaço entre alguns, para pelo menos entender o que estava acontecendo. Diante de mim, em um canto da calçada, estava um rapaz e uma moça, na faixa dos 20 anos, ela em seus braços, claramente desesperada, e ele agarrando-a com força e apontando-lhe uma arma na cabeça.
Senti uma vontade imensa de fazer alguma coisa, geralmente essas histórias não acabam bem, mas não tenho dom pra ser herói, eu era apenas um nessa multidão de pessoas que diziam rezar pelo melhor quando na verdade esperavam a história mais dramática possível para contar para os vizinhos que viram tudo de camarote. Eu não queria ver aquela menina morrer, mas não me movi por um longo tempo. Maldita humanidade que me prendeu ao espetáculo ao mesmo tempo que jogava na minha cara a minha impotência diante de um homem alucinado com uma arma na mão.
A mulher ao meu lado estava desesperada e gritava muito, quase ajoelhada no chão implorando ao filho que não fizesse uma loucura. Era a mãe do rapaz transtornado que ameaçava matar a mulher que dizia amar. A mulher que dizia amar... soa imensamente irônico; como pode alguém tentar destruir algo que ama?
Não foi difícil conhecer a história inteira, a própria senhora contou a todos que quisessem ouvir aquela velha história do amor, ciúme e desejo de vingança. Eles namoravam, ela se apaixonou por outro e terminou com ele. Ele não aceitou, e então a história tomou contornos ainda mais ficcionais: o novo namorado da moça já jazia morto há poucos passos dali, no interior da loja onde trabalhava, longe dos olhares curiosos e flashes da imprensa.
Não pude ver o rosto do rapaz morto, mas montei em minha mente um mosaico de imagens das duas histórias de amor que tiveram um final trágico. O rapaz enfurecido não tinha mais nada a perder, já tinha um homicídio nas costas e jamais traria sua amada de volta; naquele momento a vida dela significava pouco demais para que ele fosse capaz de respeitar. Eu soube naquele momento que testemunhava os últimos momentos da vida da moça e certamente do rapaz também, muito provável que acabasse com a própria vida depois de destruir o fruto de sua obsessão.
Eu já havia visto e ouvido demais, me afastei dali e segui de volta ao parque. Minha paz de espírito havia sumido e eu não podia evitar de pensar no quanto talvez eu nem fosse tão diferente do rapaz com a arma na mão, pensando nas tantas vezes que desejei sem querer que o Ale tivesse problemas para precisar de mim. Aquilo me soava de uma crueldade absurda quando vi, ao vivo, cara a cara, o quão longe um amor doentio pode chegar.
Aliás, não podemos chamar isso de amor, isso é obsessão e uma imensa dose de egoísmo. Eu poderia me encaixar nas duas descrições. Senti uma lágrima escorrendo pelo meu rosto, ciente que minha própria história ainda poderia parar nos jornais. Jamais mataria o Ale, até porque já sabia que nossa separação era definitiva, que jamais seríamos novamente um casal, se é que um dia de fato fomos, e eu não o incomodava, o deixava seguir em frente, mas sempre pensando no quanto gostaria que ele voltasse rastejando para mim. Que amor é esse?
Também sempre tive facilidade de fazer inimigos. Lembro quando era um pré-adolescente, dizia para minhas irmãs que morreria cedo, assassinado por um desafeto. Bom, ninguém está livre. Uma senhora sentou ao meu lado, vendo que eu estava claramente chateado, e quis conversar.
- Conheces algum dos envolvidos?
- Não, senhora.
- Então é tão sensível para estar chateado assim?
- A senhora não se sensibilizou?
- Claro que sim, mas não estou num banco da praça em prantos.
Olhei para o céu, buscando as palavras certas, não queria assustá-la, mas a verdade é que sabia pelo menos um pouco do que aquele rapaz armado estava sentindo, e me sentia péssimo por isso.
- E se eu lhe dissesse que é triste ver as atitudes daquele rapaz porque ninguém está realmente livre disso?
- De ser vítima de um louco? É, tens razão e... – A interrompi.
- Não, de ser o louco. – Ela arregalou os olhos e demonstrou estar realmente assustada.
- Mas ameaçar uma vida não é algo humano! É criminoso! Doentio!
- Claro, não me refiro ao fato de ele ter matado alguém e estar prestes a matar outra pessoa, mas a senhora já perdeu pra vida alguém que amava demais?
- Eu sou viúva, isso não vai me fazer sair ameaçando pessoas!
- A senhora não me entendeu. A senhora imagina o tamanho da dor de uma pessoa ao perder seu grande amor e vê-lo sendo feliz com outra pessoa?
Ela ficou em silêncio por um momento. É claro que minha teoria era cheia de falhas, o meu comentário me fazia parecer defensor do homicida, o que obviamente não era o caso, mas não tinha como não pensar na dor dele tão pouco tempo depois de ter perdido meu Ale, no tamanho do seu egoísmo, da sua obsessão, porque ele não a mataria por amor, a mataria por ser um monstro com sentimentos confusos de possessão. Ele ali não vingava seu amor perdido, vingava seu orgulho ferido, e isso nada tinha de nobre.
- Não justifica. – Disse ela.
- Com certeza não. Aquilo não será um crime passional, não há qualquer demonstração de amor no que ele está fazendo. Ele converteu a dor dele em ódio e no auge do seu egoísmo, está vingando onde ele foi de fato atingido: no orgulho.
- Por um momento achei que defendias o bandido.
- Não, somente reconheço que ninguém está livre de se sentir dono do outro a ponto de se auto atribuir o direito de privar a pessoa amada de sua própria vida. Claro que não é assim tão comum encontrar pessoas loucas o bastante para matar, mas estamos cercados de pessoas que nutrem um sentimento mais de posse do que de amor pela outra.
- E de que forma isso o chateia tanto?
- Porque percebi que também sou assim. Sou um pouco como aquele bandido, só não chegando ao nível dele, mas também sou obcecado pela pessoa que amo, e também me julguei no direito de ser seu dono. E como estou errado! Na minha história de amor mal resolvida, o bandido sou eu, e, exatamente por ver como é feio ser assim que estou chateado.
Ela sorriu com ternura, passou a mão no meu ombro no exato momento em que ouvimos um tiro. Eu chorei, não pude aguentar a dor que me invadia por saber que o desfecho havia sido trágico. Porém, ao contrário do que pensávamos, a moça saiu ilesa, o rapaz acabou por se matar, ali, em uma calçada, na frente de uma platéia ávida por um final exatamente como aquele.
Respirei um pouco mais aliviado enquanto ouvia as fofocas ao meu redor. Mas o que será que é “sair ilesa” de verdade? A menina pode não ter se ferido fisicamente, porém, a ferida que a atitude de seu ex-namorado abriu certamente jamais terá cura. Pensei novamente no Ale, nas tantas vezes que me arrastei aos seus pés, nas minhas crises de ciúme, no quanto minhas atitudes poderiam o estar ferindo também, porque nosso relacionamento amoroso acabou, mas não nossa amizade.
Já havia se passado horas, o local estava interditado, carros de polícia e da imprensa cortavam o trânsito e muita gente ainda estava lá. Anoitecia e, depois de muito pensar, tomei uma decisão que me parecia ser o mínimo a fazer para me afastar daquele monstro. Peguei um táxi na lateral da praça, onde o trânsito ainda fluía e fui à casa do Ale.
- Erich, aconteceu alguma coisa?
- Já sabe da história do rapaz que manteve a ex refém?
- E se matou? Sim, tão falando direto sobre isso na TV. O que tem?
- Eu estava lá... – Senti meus olhos se encherem de lágrimas e vi o olhar piedoso do Ale, como ele ainda podia sentir piedade de um perseguidor obsessivo?
- Se machucou? – Ele tocou nos meus braços, me olhou bem no fundo dos meus olhos e me abraçou. Eu chorei.
Entrei no apartamento e sentei ao seu lado no sofá, de onde ele saiu rapidamente para me servir um copo de água. Eu tremia. Essa era a parte que eu realmente não gostava nos meus momentos de reflexão: perceber meus erros e me sentir o homem mais terrível do mundo.
- Ale, eu vim te pedir perdão.
- Pelo quê?
- Por desejar que você precise de mim, por desejar que todos te decepcionem e só reste eu para te receber de braços abertos, por desejar tanta coisa que eu não devia desejar nem para quem eu desprezo, quanto mais pra você.
- Erich, eu faço isso também, todo mundo faz isso. Eu sei que você faz isso pelo amor que sente por mim, e isso é a sua reação à necessidade de estar comigo.
- Não Ale, eu te persigo porque te quero, e agora eu me redimo porque te amo. Existe uma diferença entre querer e amar. Aquilo que a gente quer, a gente se sente dono, aquilo que a gente ama, a gente liberta.
Ele ficou um longo tempo me olhando, parecia surpreso com a minha constatação, parecia não entender muito bem o que acontecia, afinal, eu sempre fui possessivo com ele, e ele me falou que faz isso pra amenizar a minha dor, porque embora seja uma verdade, existem níveis, existem limites, e eu já havia ultrapassado o meu há tempos.
- Eu te perdoo.
Sorri, beijei-lhe a testa e fui até a porta, de onde olhei pra trás brevemente e percebi que ele ainda estava confuso, mas logo ele entenderia tudo o que eu não disse em palavras. Saí de lá mais leve, porém com um imenso peso nas costas: de fazer valer aquele perdão, de provar que o amo, e não que o quero possuir. Foi nesse momento que percebi o quanto o amor é complicado, e o quanto a gente usa essa palavra em vão.
Um novo caminho a trilhar, o medo de voltar atrás, o medo que a tal liberdade que o amor deve dar tire o Ale de vez da minha vida. É um risco que não estava disposto a correr, mas algo me dizia que ele voltaria porque agora o faria por gosto, e não por piedade, e poderia escolher a hora certa de fazê-lo.
E ele voltou.

sexta-feira, 12 de março de 2010

empurrando pra depois

Queridos leitores!
Pela primeira vez em tantos meses não terei nesse final de semana uma história para contar. Estarei ausente de minha casa e sem acesso à internet para realizar a postagem e não posso prometer que conseguirei produzir um texto a tempo de postar na segunda feira. Por essa razão, opto por atualizar esse espaço somente no próximo sábado, com uma nova história, com novas emoções.
Conto com a compreensão de todos!
Muito obrigada!
a autora

domingo, 7 de março de 2010

Hoje não

Olho pra trás sem ter um pingo de arrependimento. Minto. Me arrependo de fraquejar quando de mim devia vir firmeza. O velho capacho se joga num canto, sua essência escorrega dos trapos a que foi resumido e assume a forma de um vaso. Um vaso de plástico, vagabundo, que não há de se quebrar nem mesmo na pior queda.
Nesse vaso cabe de tudo, da mais preciosa pedra à mais cheirosa flor, do mais fétido esterco à água mais lamacenta. E tudo isso ao mesmo tempo. Um grande caldeirão emocional com todos os ingredientes para um grande banquete especial para a realeza e adequado aos seus servos. Mesa posta com pratos de cristal de talheres de plástico, vinhos finos em copos descartáveis, e um vaso ao centro.
Talvez esse não seja o momento adequado para contar histórias, nem relembrar fatos, nem mencionar novos nomes. Talvez nunca tenha sido, já que cada um tem mais o que fazer do que cuidar da vida alheia (mentira!). Independente dos fatos e de tudo aquilo que ainda tenho para contar, hoje não contarei nada. Isso mesmo, nada.
Hoje quero só olhar pro céu e rir do formato das nuvens, ou contar estrelas. Hoje quero simplesmente me reservar o direito de ficar calado, sem produzir provas contra mim, já que a vida é um gigantesco tribunal onde sempre tem mais testemunhas de acusação, até porque a cadeira elétrica é muito mais excitante que a absolvição.
Talvez seja exatamente isso que eu faça quando amanhecer: contemple o sol no horizonte, observe os pássaros, pense nas novas histórias que ainda quero contar. Talvez não, talvez somente siga em frente, andando contra a maré, dançando meu próprio ritmo sem me preocupar se combina ou não com a música da vida.
Os dias seguem ao seu bel-prazer, não podemos controlar, então retomo as rédeas daquilo que me pertence por direito: a possibilidade de fazer exatamente aquilo que eu quero fazer. E se eu não quero fazer nada, não farei.
Hoje não quero contar histórias, é muito provável que seja só hoje, talvez se repita amanhã. Não sei, eu realmente não sei. Seja como for, hoje não.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Os bons tempos

Por algum motivo inexplicável, entrei em uma onda avassaladora de nostalgia. Talvez o andar da idade, ou as experiências de recomeço e a vontade de nascer de novo tenham sido forte influência para mim. Saudade dos tempos em que meu maior problema era dividir o Atari com as minhas irmãs ou ter que usar o colar de pedras da minha mãe escondido do meu pai.
A minha infância foi cheia de tropeços, até porque me apaixonei pelo Ale jovem demais, e sem saber exatamente o que estava acontecendo, mas até pela realidade ao meu redor eu percebia que estava indo contra alguma espécie de ordem natural gostar de uma criança fisicamente igual a mim.
Eu devia estar por volta dos 6 ou 7 anos quando pensei em morrer pela primeira vez, que eu lembre, obviamente. Mas embora eu tenha me descoberto gay antes mesmo de entender as diferenças entre meninos e meninas, eu tive muita coisa bacana pra lembrar, muita coisa que qualquer criança merece vivenciar, com brinquedos comprados ou montados em casa com materiais descartados pelos pais. Ter uma irmã da minha idade (gêmea) ajudou bastante também, fazíamos tudo juntos, e mais o Ale, que é filho único. A irmã mais velha já começava e ir nas festinhas enquanto nós 3 pulávamos amarelinha, ou construíamos comunicadores com latas de conserva e barbante. Aliás, devo destacar que nunca funcionou.
Quando chegava o final do ano, minha madrinha fazia massa de biscoito de natal para fazermos as formas que achávamos mais divertidas e enfeitávamos com confeitos coloridos; depois acabavam mofando e indo pro lixo porque os biscoitos em si eram intragáveis! Era tudo tão mais leve, divertido, exceto quando meu pai brigava comigo por brincar de Barbie com a minha irmã e deixava minha coleção dos bonecos dos Comandos em Ação dentro de uma caixa no canto do quarto.
Era divertido dançar as canções do Balão Mágico na vitrola da turma da Mônica que havíamos ganho da avó materna no último aniversário, ou contar histórias de terror no escuro com uma lanterna iluminando o rosto de quem contava, dentro da barraca de pano do Batman que o Ale levava lá em casa junto com os VHS da Xuxa ou dos Muppets Babys; lembro que os Muppets tinham um filme de natal que eu assisti tantas vezes que perdi a conta.
Imitávamos o Bozo com as maquiagens da minha irmã pré-adolescente, víamos Mara Maravilha e Eliana, cantávamos a abertura do Xou da Xuxa e choramos quando ela anunciou o falecimento do seu cachorro, Xuxo, o qual nem sabíamos a cor porque nunca havíamos visto, mas detestávamos Vovó Mafalda e sua musiquinha de encerramento do programa com a mesma força como amávamos Pica-Pau e as jornadas de desenhos do canal 5.
Ser criança na década de 80 foi uma experiência interessante, em uma época que o aparelho mais moderno que tinha era o fax ou a máquina de escrever elétrica, e que os trabalhos da escola eram feitos em papel almaço e as pesquisas nas pesadas coleções de enciclopédias. Também era rei quem tinha um Atari e seu Pac-man (sim, ouvi muito a piada que eu gostava de ser comido desde criança no vídeo-game, até porque eu era péssimo nesse joguinho), e tinha um outro que eu adorava, que o bonequinho passava com cipó sobre um lago cheio de jacarés, e lamento não lembrar o nome desse jogo.
Tínhamos ainda os bonequinhos do Playmobil, que embora ainda existam, já soube de crianças que nunca ouviram falar; a nossa coleção era divertidíssima, tínhamos a escola, a ambulância, o parque de diversões e, por fim, o circo, que foi o último presente de dia das crianças que eu e minha irmã gêmea ganhamos. Também gostávamos muito de brincar com uns bonequinhos em miniatura que tinham carinha de animais e as cidadezinhas eram ilhas, as casinhas vinham em forma de frutas ou utensílios domésticos, como bules e xícaras, e tinha laguinhos e florestas de plástico, era realmente divertido.
Foi nessa época que minha irmã mais velha assinou a Capricho e mantinha pôsters do Tom Cruise espalhados pelo quarto. Roubávamos as polainas e saias balonê dela, e as blusas com imensas ombreiras da minha mãe para desfilarmos ao som se Guns, Roxette e Cindy Lauper. Éramos proibidos de ouvir Madonna, então minha irmã se escondia para ouvir longe de nós, o mesmo com Michael Jackson que começava a clarear a olhos vistos.
Lembro quando o Ale ganhou seu primeiro bambolê, eu adora vê-lo brincar pela maneira como mexia os quadris enquanto equilibrava o arco na cintura. Eu não era bom nisso, e temia que meu pai ficasse bravo demais ao me ver rebolando, mas minha irmã equilibrava dois ou três, inclusive em volta do pescoço, era bonito de ver. Tinha também o pogobol, ou algo assim, que era uma bola com uma base ao redor para colocar os pés e sair pulando; quebrei um dente de leite tentando usar, e um vizinho nosso teve mais azar e passou todo o verão com a perna engessada.
Mas falando em gesso, eu tinha um brinquedo que era bastante artístico, vinha com moldes do Pato Donald e Cia e o pó de gesso para misturarmos com água e brincarmos de criar estátuas. Eu ficava louco porque, independente do cuidado que tínhamos, sempre ficava uma bolha de ar que deixava um buraco no resultado final. Durante todo o tempo que brincava de ser escultor, nunca consegui uma estátua do Pato Donald com o bico completo.
Como a tecnologia ainda estava engatinhando perto do que temos hoje, os jogos de grupo eram bastante populares; nada de realidade virtual, os jogos de vídeo-game eram suficientemente precários para não levar o jogador a acreditar fazer parte daquilo, então jogos como Detetive, Cara a Cara, Lince, Jogo da Vida, Banco Imobiliário e outros eram muito populares. Para os mais velhos, War era o favorito, se bem que Banco Imobiliário também não era feito para crianças na idade que tínhamos na época, mas adorávamos o dinheirinho de papel colorido que vinha no jogo.
Ao contrário de hoje em dia, brincávamos bastante na rua, pega-pega, esconde-esconde, queimado, polícia e ladrão, carrinho de lomba que eu apelidei de “carrinho de tombo”, ou o velho salada mista, que me fez beijar pela primeira e última vez a boca de uma menina, mas éramos jovens demais para isso contar. Também passávamos o anel e morríamos de medo do jogo do copo, o qual fomos todos proibidos de sequer cogitar brincar.
Trocávamos adesivos, apostávamos no jogo de bafo os nossos álbuns que variavam de campeonato de futebol, Xuxa, da novela “Que rei sou eu”, ursinhos carinhosos no caso da minha irmã e o último que tive antes de entrar de vez para a vida adulta, Mamonas Assassinas, lançado não muito depois do trágico acidente que lhes tirou a vida, já em meados da década de 90.
Tínhamos Menudos, New Kids on the Block, Trem da alegria e os grandes sucessos de Paquitos e Paquitas, além do já citado Balão Mágico; víamos “Super Xuxa contra Baixo Astral” e “Lua de Cristal”, que sempre nos deixava furiosos na cena em que o vilão jogava a Xuxa da moto no mar. Mas nada superava nosso amor por Caverna do Dragão, um desenho que vejo ser unanimidade até hoje, pessoas de gerações diferentes da minha ainda comentam o desenho que dizem não ter fim, embora ainda acredite que o Vingador é mesmo filho do Mestre dos Magos.
Era uma época que não se tinha tanto acesso à informação, tinha-se meia dúzia de canais de TV, se muito, e a popularização da antena parabólica não melhorou muito, já que os poucos canais a mais eram absolutamente horríveis, pelo menos para uma criança. Não tínhamos tudo mastigado na mão, tínhamos que ser criativos pois eram poucas as opções, e transformávamos essa suposta decadência em brincadeira.
Lembro que usava lençóis velhos como capa de super herói e tinha a espada do He-Man, e lembro que achava ele muito bonito com seus cabelos louros em um corte que hoje vejo como a coisa mais brega do mundo. Lembro da risada do Esqueleto e do velho bordão “Pelos poderes de Greyskull, eu tenho a força!”, então vozes cantavam “He-Man” na musiquinha e nossos olhos brilhavam de empolgação.
Não dá pra esquecer dos Thunder Cats, que competiam ferozmente com He-Man e sua turma pelo coração da criançada, mas tínhamos espaços para todos, eram todos heróis combatendo o mal e só isso nos bastava. E assistíamos os desenhos deitados no sofá com nossos todinhos e sucrilhos, nossos pijamas com nossos personagens favoritos e pantufas de bichinhos.
Mas essa época da infância tinha muito mais, lembro da minha emoção quando ganhei minha primeira mola-maluca e meu potinho de geleca, que deixava as mãos melecadas por horas mesmo que fossem lavadas; a minha era verde, e eu adorava a da minha irmã, que era roxa, bem forte, muito mais brilhosa e encantadora que a minha. Em compensação, o meu Lango-Lango era mais assustador que o dela. O Lango-Lango era um boneco, um monstrinho estilo fantoche, que dava socos, manipulávamos os braços e fazíamos lutas épicas com nossos monstros.
Gostávamos ainda de Punky, a série da menina que vivia com o avô, Vicky, a série da menina robô, Alf, um alienígena divertidíssimo; colecionávamos as figurinhas do Ploc, o chiclete, mascávamos Ping-Pong verde porque era mais refrescante que o azul, guardávamos as cartelas de papelão com fotos de animais selvagens que vinham no chocolate surpresa, vimos nascer o kinder ovo. Lembro que minha irmã ganhou o mini engradado da Coca-Cola e eu perdi as garrafinhas, e que íamos ao mercado com o porta-malas cheio de engradados reais trocar as garrafas de refrigerante vazias por novas garrafas cheias; sei de muita gente que ainda tem em casa os velhos engradados com garrafas de 30 anos atrás acumulando pó.
Teve ainda a moda dos io-iôs, que surgiu por um tempo com as principais marcas de refrigerantes e ressurgiu mais “moderna” na década de 90; fazíamos campeonatos e não raro saía alguma criança chorando por um nó impossível na corda do seu brinquedo. Jogávamos peão, bola de gude e futebol de botão, embora já fosse mais raro na nossa geração. Mas tínhamos muita coisa criada para nós, desde as elaboradas casas do pequeno-pônei até o boneco do Fofão, que eu pessoalmente morria de medo.
Minha mãe conta que eu sabia a música do ursinho Pimpão de cor quando ainda era muito pequeno, eu lamento não lembrar disso, mas lembro que porque algum motivo inexplicável associei do rato Topo Gigio à música La Bamba que ouvia na nossa vitrolinha, entre outros discos de vinil que pegava do meu pai. E lembro com clareza a surra que eu levei quando quebrei a Tela Mágica da minha irmã mais velha, embora ela já não brincasse mais.
Tínhamos também aqueles brinquedos com água dentro, que apertávamos o botão para as argolas subirem e encaixarem nos suportes; eu gostava daquilo e o Ale quebrou o meu, coisa que eu nem me importei porque ganhei um abraço dele como pedido de desculpas. E depois de perder meu brinquedo, os pais do Ale nos levaram para tomar o picolé do Fura Bolo, que era um picolé de morango no formato de uma mão fechada com o dedo indicador erguido e coberto por chocolate... era gostoso como o Frutully que vinha com um brinquedo no fundo da embalagem ou, na embalagem em forma de casquinha de sorvete, vinha um chiclete absurdamente duro.
Na época também comíamos Mirabel, os primeiros biscoitos a virem em embalagem próprias pra serem levados de lanche pra escola, e tinha outro biscoito muito sem graça, mas era divertido porque vinha com a marca de uma mordida, e achávamos isso muito engraçado, assim como os chicletes DinOvo, que vinham em micro embalagens de ovo com ovinhos coloridos imitando ovos de dinossauro.
Nessa época ainda haviam os Chocolápis e o Quick de morango, que era tipo um chocolate em pó só que de morango, e era ruim pra caramba. Foi também a época em que a lambada estourou no Brasil e tinha aquela “Chorando se foi, quem um dia só lhe fez chorar” que tocava na caneta multicolorida da Xuxa. Aliás, essas canetas ainda existem, não a da Xuxa, claro, mas são canetas grossas em que você aperta uma alavanca com a cor desejada e a ponta da cor escolhida aparece; lembro como era chato quando as pontas trancavam ao puxar mais de uma alavanca, e em geral as cores não funcionavam muito bem.
Só falando da década mais brega de todos os tempos, com maquiagens pesadas, ombreiras imensas, cabelos armados e ainda a década de lançamento do filme ET já dá para se ter uma ideia que foi um período para não esquecer. Alguns dizem que as gerações de crianças realmente felizes acabaram em meados de 80, já que as nascidas na década de 90 já vieram em meio à uma revolução tecnológica sem precedentes.
Eu não seria tolo de afirmar que somente nós fomos felizes, tenho certeza que não até porque crescemos em um período de revoluções no mundo todo com o fim da Guerra Fria, a queda do Muro de Berlin, a recém restaurada democracia brasileira e o surgimento de uma coisa estranha criada para fins militares, depois universitários e hoje quase obrigatória em lares e empresas; popularmente conhecida como internet.
Quando éramos crianças, nada disso era sequer imaginável, embora minha mãe conte que achava que os carros voariam no ano 2000 e usaríamos roupas prateadas que ninguém até hoje soube explicar de onde saiu esse conceito, também achava que seria muito velha ou sequer estaria viva quando isso acontecesse, e no entanto até minha avó, que nasceu uma década após o naufrágio do Titanic (que completa 100 anos em 2012 – se o mundo ainda existir, claro) ainda está aí, acompanhando perplexa o quanto o mundo mudou nessas últimas 3 décadas que eu acompanhei.
Esses dias conversava com o Ale sobre isso, começamos relembrando Aninha e o vazio que ela deixou e terminamos relembrando as velhas brincadeiras, sobre o quanto éramos inocentes e felizes, e o quanto as crianças de hoje já nascem em contato direto com as tecnologias, cheias de malícia e com tão pouco espaço para serem crianças. Os pais já não tem o mesmo espaço para serem os pais que tivemos naquela época em que televisão era o auge do entretenimento passivo, onde tínhamos que efetivamente nos mexer se quiséssemos brincar.
E foi durante a conversa que encontramos a flor de plástico que dançava e o fantoche que de um lado era boneca e do outro era um vaso com uma flor, estavam guardados entre as recordações do Ale, e certamente pertenciam à minha irmã naquela época que compartilhávamos tudo, inclusive os momentos de reflexão, de deitar na grama à noite na varanda da casa dele atribuindo formas aos grupos de estrelas e imaginando o que nos tornaríamos no futuro.
Engraçado como hoje olho pra trás e vejo o quanto fomos felizes, nas tantas vezes que ficávamos cheios de lama andando de bicicleta depois da chuva, e como eu pegava a bicicleta rosa com cestinha da minha irmã para ir na padaria comprar sacolé de frutas quando meu pai não estava em casa. Brincávamos de “fumar” com cigarrinhos de chocolate e colecionávamos as moedas de chocolate porque a embalagem brilhava como ouro.
As velhas coleções de papel de carta também acabaram extintas, hoje as meninas nem sabem o que é isso... frutos de uma suposta evolução que, embora eu seja totalmente entusiasta, olho para minha sobrinha com dó de pensar que ela vai sofrer pressão social para beijar na boca em uma idade em que só pensávamos nas corridas de carrinho miniatura, nos jogos de queimado ou nos passeios da Barbie e do Ken no seu mustang rosa-choque.
Na minha infância também aprendi o valor da palavra, e até hoje mantenho forte o conceito que promessa feita é promessa cumprida, me choca demais ainda perceber que quase ninguém compartilha disso comigo e que muita gente transformou as relações em coisas banais, os sentimentos em coisas banais, e que não é difícil encontrar criança cuja crueldade supera o tocar uma campainha e sair correndo.
Eu mesmo, que já encontrei meus primeiros fios de cabelo branco, caí nas mãos de crianças que não sabem absolutamente nada da vida e que abandonaram a infância para passar horas diante do computador pensando nas maneiras mais eficazes de magoar o maior número de pessoas. Já não se aprendem mais valores, talvez seja esse o principal motivo pela qual não cogito a possibilidade de ter filhos um dia; mesmo sendo fruto da última infância saudável, já sou de uma geração sem tempo, uma geração completamente voltada ao trabalho por saber que, na velocidade como as coisas estão, ou se acelera, ou se fica pra trás.
Então questiono às pessoas da minha geração se ter filhos é realmente uma boa ideia; e isso não é uma campanha anti-natalidade, somente uma constatação: se você não transmitir valores, se você vai deixar seu filho ser criado por professores, você está cometendo um erro. Percebo, entretanto, um movimento oposto, de pessoas que, como eu, enxergaram que estamos indo rápido demais, e parecem querer trazes as décadas passadas de volta. Louvável, porém não muito eficaz.
Naturalmente que uma tela de computador com brilhos e coloridos é muito mais atraente às crianças, lembro que passava horas brincando no meu Pense Bem, que era um protótipo precaríssimo de computador e não era colorido nem nada, mas permitia interação com a tecnologia, e isso era mágico para mim, aquele aparelho cinza que mais parecia uma calculadora gigante mas que respondia aos meus comandos.
Independente das revoluções tecnológicas, é sempre delicioso relembrar uma infância plena, nossos sonhos e brincadeiras, nossos planos, nossa maneira tão peculiar de ver o mundo. Eu só queria não ter precisado perder toda aquela inocência, ela nos fazia acreditar que éramos invencíveis, e só por acreditarmos nisso, acabávamos realmente sendo.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Reaprendendo a sorrir

Confesso, estou reescrevendo esse texto. Ao bem da verdade o carnaval me deixa atordoado, tenho verdadeiro pavor de marchinhas carnavalescas e bundas e peitos desnudos jogados em nossa cara pela televisão. Foi então que em pleno sábado de carnaval, abri uma página em branco para falar do dia em que reaprendi a sorrir. Até aí nada de errado não fosse eu levar o texto original a um dramalhão de novela mexicana que me deixou realmente impressionado com a minha capacidade em transformar até meus melhores momentos em algo tão... denso.
Assim como a vida me deu nova chance, eu resolvi fazer o mesmo com o meu texto: ora, se vou aqui falar de alegria, por que não um texto alegre? Enfim, vinha com meu coração deveras apertado, por perder Aninha, por amar o Ale, por sentir-me um estranho onde quer que eu vá, por sentir-me estranho pelo simples fato de existir.
Ser diferente cansa. Não pertencer a lugar nenhum é algo realmente desestimulante. A gente vai pouco a pouco não vendo mais sentido em continuar lutando, em continuar tentando, levantar a cabeça e dar o passo seguinte. Mas dizem que os dignos acabam por achar um novo caminho. Digno ou não, eu achei o meu.
Eu não vou contar uma historinha bonitinha e ordenada, não vou construir aqui uma narrativa redondinha e bem amarrada, sequer sei se fará algum sentido para quem não esteve lá, mas o fato é que eu estive, e isso fez toda a diferença. Digamos que me jogaram a bóia que eu precisava no meio do oceano, digamos que alguém iluminado me ensinou a nadar, e agora estou mais perto da margem do que jamais estive.
Partindo do princípio para tentar fazer algum sentido: era uma vez um menino triste que reaprendeu a sorrir. Ele não era sempre triste, ele costumava rir da vida e alegrar o dia de quem quer que fosse; ele costumava espalhar alegria e se levantar de todos os tombos que as pedras do caminho lhe proporcionavam. Até que um dia ele não conseguiu mais.
Com os joelhos ralados, as pernas feridas e o corpo cansado, ele ficou lá, jogado no chão, dentro de um buraco raso, fácil de sair para quem ainda tem forças. Ele não tinha. Alimentou-se de suas próprias angústias e dores, viu sua ferida crescer e sua alma murchar, sentiu que ali seu caminho tinha chegado ao fim, e desejou que assim o fosse.
Mas espera! Ele já havia sido exemplo para tantas pessoas pela sua mania de não desistir! Como assim, “acabou”? Não, não acabou, enquanto houver sangue em suas veias, não acabará. E foi assim que ele olhou para cima e viu a luz (não, ele não morreu e sim, é brega pra caramba). Talvez seja desnecessário, depois de todo esse tempo, lembrar que ele tem lutado feito louco pra dar a volta por cima.
Ok, a espera foi longa, mas o momento chegou. Lá estava não apenas uma, mas várias mãos estendidas, mãos estranhas, mas todas dispostas a puxá-lo de volta. Porém, essa história não é um conto de fadas, nem chega perto da fantasia ao qual me habituei viver (sim, trocando de narrador sem aviso prévio), por um milagre delicioso a vida real se tornou muito mais agradável que meus sonhos.
Eu estendi a mão, fui puxado, fui trazido de volta à vida sem pretensões ou expectativas, eu só queria sorrir outra vez, eu só desejava, e como desejava, alguns momentos de paz, uma paz que venho perseguindo há meses sem grandes sucessos, uma chance para respirar fundo sem doer o peito pela agonia que me cercava sem tréguas.
Fui puxado, carinhosamente, amigavelmente. Fui recebido como um igual, e me senti em casa. Como é boa a sensação de ser sentir em casa! Uma vida inteira como um estranho e, num repente inesperado, eu era igual! Com as minhas peculiaridades e esquisitices, mas não mais um alienígena mutante, como eu me sentia a maioria das vezes.
Encontrei sorrisos e graças, e, quando eu menos esperava, lá estava eu, bobo-alegre, sorrindo também. Aliás, cheguei às margens do meu buraco particular já com um sorriso no rosto, se aquela era minha chance, eu a aproveitaria de todas as formas, viveria cada segundo com o máximo de intensidade que pudesse suportar meu corpo cansado, minha alma ferida e meu coração despedaçado.
E o destino prega peças, não precisei mais do que alguns minutos entre gente estranha para sentir os pedaços do meu coração se juntando novamente. As pessoas desconhecidas também, levaram poucos minutos para ganharem um capítulo especial na história da minha vida, e cada minuto com eles fez todo esse percurso doloroso da antes de encontrá-los valer a pena. E se no meu caminho tivessem jardins no lugar de pedras, teria eu vivido esses momentos mágicos?
Certamente bons jardins teriam me poupado muitas lágrimas, muitas tardes cinzas e muitas orações pedindo uma porta de saída, mas acredito em destino e, principalmente, conheço minhas reações; eu certamente não teria redescoberto o caminho dos céus se não tivesse visitado o inferno antes.
Eu estive lá, entre demônios particulares e chamas dolorosas; eu conheci as entranhas do que há de pior no espírito humano. Servi de degrau, empurrei para frente os mesmos que me jogaram para trás. E foi na queda que ganhei força, e foi na força que ganhei uma chance, e foi essa chance que me levou exatamente para onde eu devia estar, exatamente com quem eu devia estar.
Pessoas de carne e osso, pessoas reais, com histórias longas que não se restringem ao tanto que pude conhecê-las. Pessoas que não saíram de meus sonhos, mas que, como bons operários da vida, me ajudaram a construir novas formas de ser feliz, tijolo a tijolo. A obra não está pronta, e espero que nunca esteja, sempre vai haver um caminho que antes eu não conhecia, sempre deve haver o espaço para mais um tijolo.
Meus ganhos não pararam aí. Destaco os iguais porque certamente serão meus pares para a vida, aquelas pessoas que compartilham comigo tanta coisa que parece que tínhamos que estar, de qualquer jeito, um no caminho do outro. E certamente isso foi grande obra do destino, porque de fato, não creio que poderíamos atravessar a vida toda sem sabermos da existência do outro (depois tem gente que me questiona por acreditar tanto em destino).
Entre tantas coisas incríveis que a vida me presenteou, tinha um mestre. Talvez eu não consiga reunir as palavras certas para falar dele, talvez meu vocabulário não seja rico o bastante para essa missão, porque existem pessoas, poucas pessoas, nesse mundo que tem a capacidade de me deixar sem palavras. Esse mestre é uma delas. Nem que eu tente, disserte por páginas e páginas, fique horas e mais horas aqui, descrevendo-o, não alcançaria o resultado satisfatório. Eu precisava fazê-los sentir a maneira como eu sinto ao pensar naquele alguém que mudou minha vida, pelas pessoas que trouxe pra mim, pelas lições que ensinou, pelos momentos que proporcionou, pela pessoa que é.
Queria muito que minha memória fosse um filme, que eu pudesse rever as cenas dos momentos perfeitos sempre que meu coração apertar de saudade. Queria ter o poder de reviver, fazer tudo outra vez, ver e ouvir tudo outra vez. Cada piada, cada risada, cada conversa, concordância ou discordância. E cada susto também.
Talvez essa história não pareça fazer sentido, mas ela está determinando meu destino, cada novo caminho, cada nova porta a se abrir, meus sentimentos e emoções, tanta coisa nova que eu ainda não me sinto capaz de definir, explicar ou sequer ordenar de uma forma que possa ser compreensível para quem não viveu o que eu vivi.
O que eu consigo dizer, sem medo de me precipitar, é que minha vida mudou, tudo mudou, meu jeito de ser, sentir, perceber a vida, buscar a felicidade, e tudo graças a um mestre e um grupo de pupilos, seus talentos, suas percepções e nossos gostos em comum. Formamos um organismo vivo, e eu me tornei parte dele como um órgão vital, como cada um desses seres incríveis que entraram na minha vida pra ficar.
O dia de amanhã é um completo mistério, mas me sinto muito mais preparado, porque sei que não estou sozinho, certamente nunca estive, mas jamais me senti tão bem acompanhado, afinal, abrir os olhos para a vida não me deu somente meus iguais e meu mestre de presente, mas me fez perceber com ainda mais clareza que permaneci tanto tempo no escuro somente por medo de abrir meus olhos.
Se eu puder resumir esse momento em uma única palavra, embora seja essa uma missão impossível, eu poderia dizer “perfeição”. Como todo momento perfeito, esse momento teve falhas, como acabar, por exemplo, mas os efeitos que isso tudo causou em mim não tem prazo de validade, e não terminarão nunca no que depender de mim.
Cheguei ao final dessa pequena jornada no paraíso com a alma renovada, o corpo agradecido e o coração cicatrizado; não temo o exagero ao dizer que esse mestre e todos aqueles que vieram com ele, salvaram minha vida, que andava tão vazia a ponto de querer se acabar.
Eu saí do buraco, e dei vários passos à frente. Eu me livrei de amarras e me senti livre pela primeira vez em muito tempo. Eu redescobri a beleza de estar vivo, eu reinventei minha história, que passa a ser escrita por várias mãos. Eu reencontrei a felicidade, mesmo que ela não seja eterna, mesmo que eu saiba que meu sorriso não permanecerá para sempre no meu rosto. Meu coração agora bate em gratidão, as palavras me faltam, a emoção me domina, e finalmente eu me sinto parte, e finalmente a vida faz sentido.
Hoje eu estou feliz, hoje eu sou feliz, e é só isso que importa agora.